1 Innledning
1.8 Identifisering ved bruk av molekylære metoder
1.8.1 Fluorescence in situ hybridisering (FISH)
Nos dias de hoje, além de seu emprego na oratória forense, na oratória dos políticos, em discursos fúnebres, o discurso publicitário, nos meios de comunicação de massa, representa um exemplar deste gênero demonstrativo que, sobrevivendo aos séculos e ganhando novas funções na sociedade de consumo em que vivemos, neste século XXI, faz do produto anunciado objeto do elogio e enaltecimento por suas qualidades e propriedades e, para atender a esta finalidade, recorre a inúmeras formas, cores, sons para veicular a imagem positiva do produto que se quer incutir na mente do consumidor-alvo. Outrora, no século XVII, na França, Jacques-Bénigne Bossuet prodigalizou seu talento em numerosos panegíricos, peças por ele redigidas de teor sacro, nas quais enaltecia figuras históricas, na maior parte ligadas à história da Igreja ou à espiritualidade cristã, desenvolvendo o clássico gênero demonstrativo em uma utilização cristã, com a finalidade de edificação cristã, dentre outras finalidades. Em Roma dos tempos antigos, encontramos na obra ciceroniana um exemplar deste gênero, o Pro Archia, que nos traça, por meio da exaltação do ofício, a eminência daquele que tão dignamente o exercia, fazendo jus, então, ao que para ele requeria, com extrema maestria, nosso orador maior entre os latinos: que lhe fosse reconhecida sua cidadania romana, contestada por Graco.
O gênero demonstrativo atém-se ao elogio ou ao vitupério. Com este gênero, o discurso passa a ter sistematicamente um caráter exibitório, não requerendo do ouvinte uma decisão ou juízo, já que tal gênero não exige do público nenhuma decisão efetiva. Os assuntos que o discurso exibicionista pode aproveitar são os que mais se prestam para a exibição, quer dizer, os objetos belos. A exibição da oratória acha-se assim orientada para a beleza dos objetos ou assuntos: a beleza destes é o que se descreve e se louva. O elogio da beleza é a função básica da retórica epidíctica.
Ao elogio corresponde o seu contrário, o vitupério. Ao belo dá-se-lhe o elogio, ao feio vitupera-se. Quando se trata de algo verdadeiramente belo, o elogio que se lhe dispensa é um elogio sério. Mas pode-se aplicar elogios a objetos indignos, muitas vezes por zombaria. Há quatro graus de defendibilidade no elogio: em primeiro lugar, objetos inquestionavelmente merecedores de elogio, como Deus, por exemplo; em segundo lugar, outros males graves, como os demônios; em terceiro lugar, elogios que, em parte, são evidentemente dignos do elogio, em parte criticáveis, defendendo-se suas propriedades censuráveis de maneira parcial; em quarto lugar, elogio zombeteiro de objetos indignos do elogio como a morte, a pobreza, cachorro etc. Os principais afetos do genus demonstratiuum são o amor admirativo e o ódio ou o desprezo execrador.
O discurso epidíctico ou laudatório não ocorre independentemente, como ocorre na funebris laudatio, mas pode apresentar-se como parte de discursos de outros gêneros, como o gênero judiciário, como acontece no caso da obra de nosso interesse e análise, a
Apologia de Jerônimo contra Rufino.
No gênero demonstrativo não se põe em dúvida a existência do objeto, o qual é certo que exista e, por esta razão, não faz sentido pôr em questão o status coniecturae, pelo qual se pergunta se ocorreu ou não ocorreu determinado fato. No gênero judiciário, pelo
status coniecturae, pergunta-se, por exemplo, se alguém praticou determinada ação. Já o
status finitionis, que trata da definição daquilo que foi praticado, e o genus demonstratiuum mantêm estreita relação e têm na descrição uma forma de definição construída e exornada com os recursos e meios do genus demonstratiuum. Quando se trata de elogiar ao homem, o curso de sua vida, definição da essência do indivíduo correspondente e definição pelas ações responsáveis realizadas, ocupa importante lugar. As descrições de uma vida no decorrer dela não podem ter caráter definitivo, a não ser após seu término. Aquele que ama e preza com
conhecimento íntimo o indivíduo que vai definir é o único que pode arriscar uma descrição definidora e formulá-la de modo que aquele de quem se faz a definição encontre expresso na definição seu verdadeiro ser. O status qualitatis tem por função fornecer uma demonstração detalhada do que seja o honestum e o que seja o turpe. O status translationis surgiria se o público manifestasse claramente ao orador sua incompetência real ou pusesse em dúvida seu direito de pronunciar um discurso epidíctico, e isto em virtude de sua vida anterior.
Examinando todos os elementos que compõem a questão do conflito entre os dois ex-amigos, ter-se-á uma idéia do modo como o elogio de Rufino a Jerônimo, presente no prefácio à tradução rufiniana do Tratado dos Princípios (Perì Archôn) que desencadeou a querela entre Jerônimo e Rufino, que recobre a segunda fase da controvérsia origenista, foi decisivo na deflagração de outros textos, como a tradução de Jerônimo do mesmo tratado de Orígenes, anteriormente traduzido por Rufino, e as apologias de um e de outro antagonista.
Podemos afirmar seguramente que o elogio dirigido a Jerônimo, no prefácio à tradução de Rufino, não poderia se sustentar como um elogio defensável, aquele que tem um objeto inquestionavelmente justo e benevolamente aceitável, de modo que o destinatário sentir-se-ia gratificado pelo reconhecimento justo, por parte de quem lhe tece o elogio, de um mérito objetivo, digno e reconhecido pelos valores da sociedade em que se acham inseridos o elogiador e o elogiado, sendo tal elogio causa do aumento da honra, do prestígio, da fama, além da alegria que o reconhecimento público pode proporcionar a quem recebe o elogio. Vejamos, pois, por qual motivo tal fato não acontece nos textos em questão.
Já expusemos no item deste capítulo sobre o genus iudiciale em que grau as doutrinas de Orígenes passaram a representar estigma na Igreja, a partir de 393, quando enumeramos os pontos de que se constituía o clichê antiorigenista, para cuja formação muito contribuiu o próprio Jerônimo em sua invectiva contra o bispo João de Jerusalém, no libelo
Contra Iohannem Hierosolymitanum. Não é apenas para assegurar a continuidade de um trabalho iniciado por Jerônimo, como alega Rufino no citado prefácio114, mas é também para invocar a Jerônimo como predecessor e modelo a imitar que Rufino menciona os trabalhos de tradução realizados por Jerônimo, alguns deles levados a cabo sob instância e autoridade do papa Dâmaso, de quem Jerônimo era secretário. Rufino menciona ter não apenas imitado a
114 ORÍGENES, Traité des Principes I, p. 68: “...Nos ergo rem ab illo quidem coeptam sequimur et probatam,
Jerônimo, mas declara ter seguido os próprios métodos de tradução deste115, o qual teria aplainado o sentido do texto grego de modo que o resultado não contrariasse os dogmas de fé e que o leitor latino nada encontre de heterodoxo nos livros de Orígenes 116. Este procedimento de alteração do sentido do texto original grego, que Rufino alega ter sido praticado por seu predecessor Jerônimo em suas traduções, seria utilizado com a finalidade de restabelecer a homogeneidade de um texto pretensamente interpolado, fato também alegado por Rufino em sua tradução do De adulteratione, tratado segundo o qual tudo o que havia de herético em Orígenes era resultado de acréscimos e interpolações de terceiros. Ora, o papel de modelo que Rufino atribui a Jerônimo passa a carregar consigo um quinhão de ambigüidade, pois descrevendo destemodoo trabalho de Jerônimo, a imagem de tradutor deste fica atingida pelo terrível estigma da falsidade, acrescida também de uma cumplicidade condenável com a heresia origenista, pelo fato de ocultar ao leitor o real pensamento de um autor herético, como se acobertasse, dessa maneira, o erro. Por ter sido a menção de Rufino suficientemente clara para tornar evidente a pessoa e a autoridade de Jerônimo, acreditamos que todos os acontecimentos posteriores a esse elogio tenham sido deflagrados por causa da ambigüidade desse elogio e da convicção que faz Jerônimo saber-se crítico e não-cúmplice do origenismo, o que gera, portanto, uma necessidade imperiosa de dissipar essa ambigüidade por parte de Jerônimo, como é nossa tarefa analisar em sua Apologia, e que alimentará, em muitos aspectos, sua palavra e as ações que realiza por palavras.
Após a publicação da tradução do Perì Archôn, feita por Jerônimo, a reação de Rufino, recobrindo vários tópicos, repousou também sobre o elogio endereçado a Jerônimo no citado prefácio, de que tratamos acima. Lamenta Rufino tê-lo louvado pela eloqüência e pela cultura, uma vez que Jerônimo “volta-lhe sua mordida de dente inesperado, causando-lhe dano, importunando um homem incapacitado de responder, que ele (Jerônimo) sabia que não podia fazê-lo com abundante recurso de eloqüência e refinada arte oratória, de modo que
115 ORÍGENES, Traité des Principes I, p. 70: “...ut quantum fieri potest in interpretando sequar regulam
praecessorum et eius praecipue uiri, cuius superius fecimus mentionem...”
116 ORÍGENES, Traité des Principes I, p. 70: “...Qui cum ultra septuaginta libellos Origenis, quos homileticos
appellauit, aliquantos etiam de tomis in apostolum scriptis transtulisset in latinum, in
quibus cum aliquanta offendicula inueniantur in graeco, ita elimauit omnia interpretando atque purgauit, ut nihil in illis quod a fide nostra discrepet latinus lector inueniat...”
este que o queria lesado e ferido não parecesse ser nem lesado nem ferido”117. Além disso, a reação de Jerônimo, segundo Rufino, era a de “culpabilizar e vituperar ao mais leve rumor”118.
Em sua Apologia Jerônimo refere-se àquele elogio do prefácio da tradução de Rufino como um elogio com conotação de acusação, portanto algo de que - admite - teve de repelir o aspecto dúbio e traiçoeiro119 por meio da interposição de volumoso arrazoado em defesa de si próprio, já que acomodar-se ao silêncio seria aceitar o labéu da heresia. Em ambas as Apologias o tom acerbo se faz sentir logo em seguida àquele elogio, e os textos apologéticos de ambos os antagonistas passam a ser campos de acirrados vitupérios, sempre dirigidos à pessoa e às ideologias do outro, enquanto se pressupõe que o elogio acha-se investido favoravelmente a si próprio, partindo da pessoa que se defende para si mesma, contra as acusações pessoais e ideológicas que lhe faz o antagonista. Aqui poderíamos invocar os mesmos exemplos que apresentamos no segundo item deste capítulo, sobre a diatribe cínico-estóica, os quais poderiam caracterizar o vitupério, em muitos casos, e a simulação do elogio que, muitas vezes, se acha carregado de ironia e de hostilidade.
2.4. A Sátira
Os escritos de Jerônimo ( as epístolas, a obra exegética, a obra polêmica, a obra homilética, a obra histórica ) a todo momento trazem traços satíricos que importa tratar, seja pela freqüência das ocorrências em toda sua obra, seja pelo fato de tal traço evidenciar uma marca de sua personalidade e caráter. David S. Wiesen dedicou uma obra a esse tema que mencionamos em nossa bibliografia,120 na qual estuda os diversos alvos da verve satírica de nosso autor, como a sociedade de seu tempo de modo geral, os costumes eclesiásticos e
117 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 543: “...Neque, ut ait, verberanti dexteram maxillam offert alteram: sed palpanti
et leviganti maxillam, morsum improvisi dentis infigit. Cum enim nos in eo et eloquentiam ac studium laudaverimus (interpretando dumtaxat ex Graecis) et fidei ejus numquam derogaverimus; ille utrumque in nobis damnat: et ideo veniam etiam ipse nobis concedat, si forte aliquid, aut asperius, aut incomptius dicimus: quia imperitum hominem ad respondendum lacessivit, quem sciret non posse per multam dicendi artem et eloquentiae copiam id agere, ut is quem laesum vellet ac vulneratum, nec vulneratus videatur esse nec laesus...”
118 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 543: “...Hoc ergo eloquentiae genus ab ipso requiratur, qui ad culpandum seu
vituperandum levi rumusculo commotus, velut quis censor accurrit...”
119São Jerônimo, Apologia, p. 8: “...Quod praeconem reppuli figuratum? Quod nolui me subdolo ore laudari?
quod sub amici nomine inimici insidias deprehendi...”
120 WIESEN, David S. St. Jerome as a satirist. A study in christian latin thought and letters. New York, Cornell
clericais, as mulheres e o casamento, os hereges, os judeus e os pagãos, seus inimigos pessoais, entre os quais Rufino; na sua conclusão analisa a visão da sátira pelo próprio Jerônimo. Nossa preocupação nesse tópico é levantar as ocorrências desse traço satírico no
corpus literário que colocamos como objeto de análise.
Matthew Hodgart121 assinala em sua obra alguns processos básicos na composição da sátira. Um deles é a técnica da redução de tamanho do alvo ou personagem ou grupo a ser atacado satiricamente, que pode dar-se de forma literal, como acontece na obra As viagens de
Gulliver, de Swift, ou pelo despojamento da vítima de todos seus apoios de posição e classe social, para a qual a indumentária simboliza posição e classe social, mas que, uma vez desprovida da indumentária, revela-se a vítima ser mero mortal, sujeito a situações vergonhosas, torpes, sujas, a tudo que é próprio de um animal. A sátira, além dos aspectos da animalidade e até da mineralidade, interessa-se também pelo automatismo em que se acha imerso o ser humano, vindo a afigurar-se esse ser humano como homem-máquina, qualquer que seja o mecanismo de época e de sociedade e cultura em que se insira o ser humano em questão. Os satíricos mimetizam o automatismo de suas vítimas na cena teatral, pela imitação dos traços realísticos dos vícios, torpezas e indignidades em que se apresentam as vítimas da sátira. Utiliza-se também a paródia, procedimento pelo qual identificamos distorções com a presença de um “outro canto” (assim se definiria, etimologicamente, o termo grego “para- ode”) sob as aparências de um texto ou canto ou um estilo que é tomado por modelo. Ainda também importante é a dessimbolização que consiste na destruição dos símbolos com a finalidade de advertir os homens quanto à má e indevida utilização dos mesmos, muitas vezes por tiranos e demagogos para fins injustos. As religiões são alvos propícios a este tipo de procedimento, devido à riqueza e complexidade de seus simbolismos. Por fim, a ironia que sempre deita abaixo a máscara das grandes pretensões humanas, expondo em sua crueza toda a realidade que se esconde sob intenções e ideais mais nobres. Northrop Frye lembra que “a sátira é a ironia militante”122: o satírico utiliza a ironia para fazer com que o leitor se sinta incomodado, para tirá-lo de sua complacência e convertê-lo em um aliado na luta contra a estupidez humana.
O gênero satírico assume, na Apologia de Jerônimo contra Rufino, a função de agudizar o retrato do adversário Rufino, desqualificando-o sensivelmente e acentuando seus
vícios, sua ignorância, suas más qualidades, bem como os resultados a que podem conduzir algumas crenças heréticas que seu adversário Rufino defendia.
Jerônimo concentra no parágrafo 17 do Livro I de sua Apologia uma visão satírica de seu ex-amigo Rufino. Descreve Rufino como alguém que, em latim, guarda silêncio, por causa de uma ignorância que se assemelha à daquela serva de Euclião, Estáfila, no primeiro ato da peça Aululária de Plauto, momento em que Euclião ameaça espancá-la se ela não cumprir a sua obrigação de vigilância da casa, onde, a partir daquele momento Euclião ocultava seu tesouro. Estáfila, serva lenta no raciocínio e desprovida de inteligência, de quem Jerônimo evoca na citação retirada de Plauto o movimento que se assemelha a passos de tartaruga, carrega, com a imagem deste animal, a idéia de lentidão, de silêncio, de ignorância123.
Lembrando a Rufino que o ofício das letras não tem nenhuma relação com o poder aquisitivo de quem as cultiva, uma vez que as mesmas exigem trabalho, jejum, continência e, a exemplo de Demóstenes124, muitas vigílias noturnas, Jerônimo justifica seu aprendizado da língua hebraica como fruto e exercício desse ofício que requer muita atividade e disciplina por parte daqueles que o praticam. Jerônimo contrapõe a seu aprendizado trabalhoso a pompa da antonomásia “Aristarco de nosso tempo”125, referindo-se a um símbolo da cultura grega, Aristarco de Samotrácia, que morreu por volta de 145 a.C. e que dirigiu a biblioteca de Alexandria e cujas recensões, sobretudo as de Homero, fizeram dele o tipo do crítico exigente. O pedido de desculpas, por parte de Jerônimo, de lembrar exemplos estrangeiros a quem “tanto se gaba de conhecer os gregos”126, colabora com a antonomásia de “Aristarco de nosso tempo”, mas percebe-se, por outro lado, que há aí um discurso irônico pela incompatibilidade entre o que faz Rufino – gabar-se de conhecer os autores gregos, a ponto de esquecer a própria língua – e a comparação de Rufino com a própria deusa Minerva, a quem Jerônimo recusa-se a instruir, na condição de “porco”, ou a comparação de Rufino
122 FRYE, N., Anatomia da crítica, p. 219
123 São Jerônimo, Apologia, p. 48: “...Tu qui in latinis mussitas et testudineo gradu moueris potius quam incedis,
uel graece debes scribere ut, apud homines graeci sermonis ignaros, aliena scire uidearis, uel si latina temptaueris, ante audire grammaticum, ferulae manum subtrahere et inter paruulos αθηνογερων, artem loquendi discere...”
124 São Jerônimo, Apologia, p. 48: “...Demosthenes plus olei quam uini expendisse se dicit, et omnes opifices
nocturnis semper uigiliis praeuenisse...”
125 São Jerônimo, Apologia, p. 46: “...Aristarchus nostri temporis...”
com uma grande floresta que, prescindindo que se lhe traga mais madeira, é como que a imagem de um eminente sábio que dispensa novos aprendizados.127
Nessa estocada contra Rufino, Jerônimo invoca seu cabedal de cultura satírica clássica. A princípio, as duas expressões proverbiais de que tratamos no parágrafo anterior –
sus Mineruam, ut aiunt, qui inepte Mineruam docet e in siluam non ligna feras – tendo esta última citada por Horácio na décima sátira do Livro I, são retomadas no texto com uma vinculação clara a um propósito irônico da parte de Jerônimo. Este utiliza satiricamente uma passagem da III Écloga de Virgílio, comparando a incompetência do personagem-alvo de sua sátira à imperícia e à falta de talento daquele que, nas encruzilhadas, revelava incapacidade de bem tocar uma charamela.128 Evoca também Jerônimo uma farça grosseira, o Testamentum
Grunnii Corocottae Porcelli, que narra a história de um porco que deixa em herança a seus pais e amigos seus próprios membros, história que fornece a Jerônimo o apelido que ele vai impor a Rufino129. Evocando cenas de espetáculos públicos com falsos advinhos, em torno dos quais se aglomeravam pessoas, as quais participavam dos pequenos e prosaicos jogos dessa espécie de charlatães, Jerônimo cria a cena a que se poderia comparar os livros de um autor incapaz com sua ignorância, e os “imbecis” que o acompanham e rendem culto a tal espécie de mestre.130
Quanto às posições heréticas de Rufino quanto ao mundo que haverá de vir, Jerônimo declara ironicamente: “...isto é o que tememos mais: que pudéssemos chegar ao céu sem narizes ou orelhas, com ou sem nossas partes genitais amputadas e cortadas, e que, então, se construísse uma cidade de eunucos na Jerusalém celeste...”131 Nessa amputação podemos ler a castração que Orígenes infligiu a si mesmo; ora o seguir a Orígenes traz consigo o prestar culto a um homem castrado, e, pela heresia, reproduzir, por assim dizer, várias cópias humanas do castrado Orígenes.
127 São Jerônimo, Apologia, p. 46: “...Praetermitto Graecos, quorum tu iactas scientiam et, dum peregrina
sectaris, paene tu sermonis oblitus es -, ne ueteri prouerbio sus Mineruam docere uidear et in siluam ligna portare...”
128 São Jerônimo, Apologia, p. 50: “...Non tu in triuis, indocte, solebas stridenti miserum stipula disperdere
carmen?...”
129 São Jerônimo, Epístola 125, 18, 2: “...Testudineo Grunnius incedebat ad loquendum gradu et per interualla
quaedam uix pauca uerba capiebat, ut eum putares singultire, non proloqui...”
130 São Jerônimo, Apologia, p. 50: “...Cottidie in plateis fictus hariolus stultorum nates uerberat et obtorto
scipione dentes mordentium quatit, et miramur si imperitorum libri lectorem inueniant?...”
131 São Jerônimo, Apologia, p. 108: “...Scilicet hoc timuimus ne sine naso et auribus surgeremus, et amputatis