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1 Innledning

1.3 Biogass

1.3.1 Biokjemiske prosesser i dannelse av metan

A cena que se evoca neste gênero é o tribunal, lugar em que estão presentes juízes, advogado e réu, os quais comparecem em sessão marcada para que se proceda a um julgamento de determinada causa, momento no qual se acusa alguém de culpabilidade diante de uma determinada questão ou se defende alguém diante de uma acusação pré-existente em relação também a uma questão. Essa situação constitui a cena exemplar e dá todos os modelos discursivos do gênero. O gênero judiciário, tal como no-lo descreve Aristóteles, não se restringe, porém, apenas ao ambiente e ao contexto forenses, evocados aqui como elementos típicos, geradores da prática deste tipo de discurso, e sendo exemplares deste gênero apenas os discursos forenses como os de Lísias, Demóstenes, Tucídides, Ésquines, Salústio ou Cícero, mas vemos traços deste gênero também em outros gêneros de obras literárias. Tomaremos como exemplo Édipo-Rei, de Sófocles, pelo fato de assistirmos aí a uma busca sistemática, por parte de Édipo, da causa de todas as calamidades que assolam o reino, onde ele exerce seu poder real, e o julgamento que o célebre personagem dispensa, ao final da investigação, à situação geradora das calamidades.38 Em plenoséculo XXI, na prática diária da comunicação a mídia, por exemplo, ainda que não se apele para o aparato forense, reserva um espaço a considerações éticas; quando isto não acontece, costuma-se tecer, ainda que minimamente, considerações avaliativas sobre aquilo que se veicula como fato acontecido.

São importantes como elementos de análise do gênero judiciário aqueles apontados por Aristóteles nos capítulos X e capítulos XII a XV do Livro I de sua Arte

Retórica. O capítulo X traz-nos as sete causas a que se reduzem todas as ações humanas: acaso, natureza, coação, hábito, reflexão, ira, desejo. O capítulo XII trata da pessoa que comete injustiça e quais situações poderiam encobrir os atos considerados injustos perante a

lei e a sociedade, o modo pelo qual são executados tais atos e a quem estes atos vêm prejudicar. O capítulo XIII define as leis que os atos injustos vêm infringir, seja o caso das leis naturais, que abrangem um número maior de países e culturas, porque, ainda que não sejam escritas, fazem parte do consenso entre os homens daquilo que seja a condição ética mínima que se espera do ser humano, seja o caso das leis escritas, variáveis para cada sociedade e sujeitas às convenções e valores culturais de cada pólis. O capítulo XIII discute o conceito de eqüidade, conceito que não se conforma sempre às disposições da lei escrita, as quais tendem a generalizar, em suas formulações, uma gama variada de casos ou deixar outros em estado de omissão. O capítulo XIV diz-nos o meio de se conhecer se uma ação é mais justa que outra. O capítulo XV enumera as provas peculiares ao gênero judiciário, em número de cinco: as leis, as testemunhas, os contratos, as confissões obtidas por tortura, o juramento. Em termos de definição genérica, os elementos apontados nesses capítulos da obra citada de Aristóteles dão conta da visão descritiva desse teórico para o genus iudiciale, do qual podemos detectar a presença na constituição do texto da Apologia de Jerônimo contra Rufino. Acrescentaremos a esses elementos as classificações das questões e os quatro “status” (status

coniecturae, status finitionis, status qualitatis, status translationis), conceitos que tomanos de empréstimo a Heinrich Lausberg.39

Esta parte que ora analisamos constitui o ponto nevrálgico do texto da Apologia. Jerônimo responde, em sua própria defesa, a uma série de acusações, que podemos identificar com o conluio com as doutrinas origenistas, então condenadas oficialmente como heréticas, a partir do ano 400, pelo papa Anastásio, e que constituem a principal preocupação para ambos os antagonistas de esquivarem-se destas doutrinas e livrarem-se do estigma que as mesmas representam para as concepções teológicas daquele momento; acusa, também, o ex-amigo Rufino a Jerônimo de hipocrisia, perjúrio e blasfêmia, dependendo estas três acusações do problema das doutrinas origenistas, as quais estão na origem de todas as outras acusações.

Podemos recuperar na obra de Jerônimo vários elementos do origenismo que se acham dispersos no Epistolário, no Contra Iohannem Hierosolymitanum e na Apologia contra

Rufinum, elementos do origenismo que são apontados como erros de interpretação da

38 Sófocles, Édipo-Rei, obra citada na bibliografia, p. 25 – “Como purificá-la(Tebas)? De que mal se trata? 39 Lausberg, H. Manual de Retórica Literaria. Madrid: Gredos, 1990.

Escritura por parte do mestre Orígenes, o qual, segundo S. Jannaccone40, interpreta platonicamente a Escritura em diversos pontos, que elencaremos a seguir.

O primeiro ponto é o subordinacionismo que consiste na desigualdade de poderes entre as três pessoas da Santíssima Trindade, estando umas subordinadas às outras; tal erro de doutrina acha expressão no fato de que “o Filho não pode ver o Pai e o Espírito Santo não pode ver o Filho”41, ou que “o Filho e o Espírito Santo são serafins”42, numa interpretação alegórica de uma visão do profeta Isaías43, manifestando clara subordinação do Filho ao Pai e do Espírito Santo ao Filho. O subordinacionismo aparece claramente formulado no segundo livro da Apologia44 quando Jerônimo alude à má doutrina de Orígenes que atribui ao Filho

status de criatura, ao Espírito Santo o de servo. A Igreja daquele tempo reagia ao subordinacionismo por meio dos vários concílios, entre eles o de Nicéia, tendo sido realizado em 325, o qual estabeleceu que o símbolo apostólico deveria conter a expressão “homoousios” ou “consubstantialis” como uma reação ao subordinacionismo que se podia detectar na heresia de Ário que, por sua vez, mais tarde Jerônimo atribuirá a Orígenes a paternidade da heresia ariana. Jerônimo alude em sua Apologia ao texto da Apologia de

Orígenes, traduzido para o latim por Rufino, onde se diz que “o Filho é servo do Pai e o Espírito Santo não é da mesma substância do Pai e do Filho”45

O segundo ponto é o que atribui a origem das almas humanas à queda dos anjos e que sustenta que as almas são relegadas nesse corpo como se fossem atiradas em um cárcere. Antes mesmo que o homem estivesse no Paraíso, as almas ficavam nos céus entre as criaturas racionais. Ora, entre as acusações anti-arianas de Jerônimo contra o bispo João de Jerusalém estão muitas teses origenistas e, entre essas, a de que as almas se acham encarceradas nos corpos46 ou em suas invectivas contra Rufino a tese de que as criaturas racionais revestem-se de outros corpos47, que os anjos transformam-se em almas humanas48 ou que as almas dos

40 JANNACCONE, S. La genesi del cliché antiorigenista e il platonismo origeniano del Contra Iohannem

Hierosolymitanum di San Girolamo. Giornale Italiano di Filologia 17, p. 14-28, 1964.

41 MIGNE, J.-P., PL XXIII, Contra Ioh. Hieros., cap. 7: “non possit Filius uidere Patrem, Spiritus sanctus non

possit uidere Filium”.

42 São Jerônimo, Epístola 61: “Filium et Spiritum sanctum seraphin esse” 43 Isaías 6, 2.

44 São Jerônimo, Apologia, p. 132: “Dei Filium creaturam; Spiritum sanctum ministrum”

45 Jerônimo, Apologia, p. 140: “...Filium Patris ministrum; Spiritum Sanctum non de eadem Patris Filiique

substantia...”

46 MIGNE, J.-P., PL XXIII, Contra Ioh. Hieros., cap. 7: “...in hoc corpore quasi in carcere sint animae

religatae...”

homens caíram do céu49. Aqui se verifica uma clara filiação das teses origenistas citadas às concepções platônicas.

O terceiro ponto é a apocatástase ou a redenção do Diabo e dos demônios, os quais farão penitência e reinarão juntamente com os anjos no fim dos tempos, em um completo igualamento dos diferentes estados em questão – os anjos e os demônios. A epístola 51 traz-nos a menção de que o diabo voltará a ser novamente aquilo que foi um dia.50 No

Contra Iohannem Hierosolymitanum, alude Jerônimo à tese origenista de que farão penitência o diabo e os demônios e que reinarão no fim dos tempos.51 Em sua Apologia, Jerônimo alude ao igualamento dos demônios e dos anjos52 que a todos reduz a uma única condição53.

O quarto ponto da doutrina origeniana é a interpretação alegórica das túnicas de pele como os corpos humanos de que se revestiram Adão e Eva depois da culpa e da expulsão de ambos do Jardim do Éden. Com certeza, por essa interpretação, descarta-se a possibilidade de que Adão e Eva tenham estado providos de carne, nervos e ossos no Paraíso.54

O quinto ponto nega abertamente a ressurreição da carne, a reunião dos membros, o sexo pelo qual os homens distinguem-se das mulheres e nega também que isto esteja presente tanto na interpretação do primeiro salmo quanto em muitos outros tratados.55 Em sua

Apologia Jerônimo menciona a tese de Orígenes segundo a qual a ressurreição dos corpos humanos aconteceria sem que os corpos tivessem os mesmos membros, pois estes não teriam nenhuma utilidade se as funções vitais humanas cessassem de existir.56

O sexto ponto do origenismo é aquele pelo qual se alegoriza a tal ponto o Paraíso que se chega a suprimir a verdade histórica, entendendo-se pelas árvores os anjos, e pelos rios

48 São Jerõnimo, Apologia, p. 132: “...angelos uersos in animas hominum...” 49 São Jerônimo, Apologia, p. 140: “...animas hominum lapsas esse de caelo...” 50 São Jerônimo, Epístola 51: “...diabolum id rursum futurum esse quod fuerit...”

51 MIGNE, J.-P., PL XXIII, Contra Ioh. Hieros., cap. 7: “...et diabolum et daemones acturos paenitentiam et

regnaturos...”

52 São Jerônimo, Apologia, p. 140: “...in restitutione omnium aequales et angelos et daemones fore...” 53 São Jerônimo, Apologia, p. 132: “...in restitutione omnium angelos, diabolum unius condicionis fore...” 54 MIGNE, J.-P., PL XXIII, Contra Ioh. Hieros.,cap. 7: “...quod tunicas pelliceas humana corpora interpretetur,

quibus post offensam et eiectionem de paradiso induti sint, haud dubium qui ante in paradiso sine carne, neruis et ossibus fuerint...”

55 MIGNE, J.-P., PL XXIII, Contra Ioh. Hieros., cap. 7: “...quod carnis resurrectionem membrorumque

compagem, et sexum quo uiri diuidimur a feminis, apertissime neget: tam in explanatione primi psalmi, quam in aliis multis tractatibus.”

56 São Jerônimo, Apologia, p. 132: “...resurrectionem nostrorum corporum sic futuram ut eadem membra non

as virtudes celestes, subvertendo-se assim, com a interpretação tropológica, ou seja, baseada no sentido figurado de todos os conteúdos do Paraíso.57

O sétimo ponto que compõe o rol de erros da doutrina origenista informa-nos que as águas que se encontram acima dos céus são as Virtudes santas e superiores e as que estão sobre e sob a terra são forças adversas e demoníacas.58

O oitavo ponto consiste na perda por Adão da imagem e semelhança de Deus, tendo sido essa imagem e semelhança de Deus concedida a Adão quando da criação e tendo sido esta semelhança irremediavelmente perdida no momento da saída do Paraíso.59

O nono ponto repousa sobre o encadeamento dos numerosos mundos, mencionados por Jerônimo em sua Apologia em três passagens diferentes60 e que Orígenes toma de empréstimo a Epicuro, ao passo que este, por sua vez, acredita na existência de mundos infinitos, pelo fato de ser infinita a quantidade de átomos a constituir um número infinito de mundos.61 Benoît Jeanjean observa que “o epicurismo, juntamente com o platonismo e o pitagoricismo, são as correntes filosóficas mais freqüentes na obra de Jerônimo, quando este assimila o que é herético a correntes filosóficas pagãs”.62

Em menor incidência em sua Apologia, Jerônimo lembra a reiteração por parte de Orígenes da paixão de Cristo63, a afirmação também de Orígenes sobre a preexistência da alma de Cristo64 e a evanescência dos corpos espirituais.65

Deste modo, temos aqui os principais pontos do origenismo presentes não só na

Apologia de Jerônimo contra Rufino, mas também em outros textos da extensa obra polêmica de São Jerônimo, não sendo o origenismo sempre o alvo direto das invectivas de nosso autor, uma vez que este também investe contra o arianismo, como no caso do Contra Iohannem

Hierosolymitanum, texto em que o origenismo oculta-se sob uma nova face: a heresia ariana.

57 MIGNE, PL XXIII, Contra Ioh. Hieros., cap. 7: “...quod sic paradisum allegorizet, ut historiae auferat

veritatem; pro arboribus angelos, pro fluminibus virtutes coelestes intelligens: totamque paradisi continentiam tropologica interpretatione subvertat.”

58 MIGNE, PL XXIII, Contra Ioh. Hieros., cap. 7: “...quod aquas, quae super coelos in Scripturis esse dicuntur

sanctas supernasque virtutes, quae super terram et infra terram, contrarias et demoniacas esse arbitretur.”

59 MIGNE, J.-P., PL XXIII, Contra Ioh. Hieros.,cap. 7: “...quod extremum obiicit, imaginem et similitudinem

Dei, ad quam homo conditus fuerat, dicit ab eo perditam, et in homine post paradisum non fuisse.”

60 São Jerônimo, Apologia, p. 20; p. 56; p. 132: “de mundo uel intermundiis Epicuri”, “innumerabiles mundos”,

“mundos innumerabiles sibi succedentes”, respectivamente.

61 O Epicurismo, obra citada na bibliografia, p. 51. 62 JEANJEAN, B. , op. cit., p. 372.

63 São Jerônimo, Apologia, p. 56: “...Christumque dicere saepe passum et saepius esse passurum...” 64 São Jerônimo, Apologia, p. 132: “...animam Saluatoris fuisse antequam nasceretur ex Maria...”

Cabe-nos, agora, passar a tratar das acusações de ordem pessoal que Rufino dirige a Jerônimo, às quais este apresenta as suas defesas.

A dupla tradução do Perì Archôn (Tratado dos Princípios), de Orígenes, primeiramente por Rufino, na quaresma de 398, depois por Jerônimo, de 398 a 399, está na base dos conflitos entre os dois amigos em questão, Jerônimo e Rufino. A tradução de Rufino omitia passagens atribuídas a acréscimos feitos por hereges, segundo o testemunho da

Apologia de Jerônimo66, e segundo testemunho do próprio Rufino, o qual, no próprio prefácio à tradução do Perì Archôn, admitia a supressão de tais passagens, pelo bem e pelo proveito dos leitores latinos. Entretanto, parece-nos que Jerônimo não se teria implicado neste caso, não fosse uma menção a seu nome, no prefácio da tradução de Rufino, como excelente tradutor de Orígenes com grande quantidade de obras traduzidas67, inclusive tendo sido algumas destas traduções feitas a pedido do papa Dâmaso. A menção a seu nome como “frater et collega noster” por parte de Rufino, bem como os elogios às excelentes qualidades de tradutor e prefaciador em referência a um trabalho de tradução de duas homilias do Cântico dos Cânticos, de Orígenes, realizada a pedido do papa Dâmaso, sendo essa menção e elogios evocados por Rufino feitos no sentido de justificativa de continuação de um trabalho que Jerônimo havia encetado em 382 e que prometia levar adiante, não são bem acolhidos por Jerônimo, pelo fato de este amigo ver aglutinado de uma só vez os elogios à sua admirável capacidade de tradução e a adaptação do texto traduzido a normas de ortodoxia católica. Este elogio, que a literatura especializada em São Jerônimo qualifica de perfídia68, lança sobre a pessoa de Jerônimo uma acusação de heresia origenista, porque, por um lado, Rufino se gabava de sua capacidade de tradução e, portanto, admitia que Jerônimo tinha certa predileção por Orígenes. Por outro lado, Jerônimo tentava habilitar Orígenes como autor católico no Ocidente, onde este era pouco conhecido, à custa de alterações no texto para preservar os

65 São Jerônimo, Apologia, p. 132: “...ipsaque corpora tenuia et spiritalia paulatim euanescere et in auram

tenuem atque in nihilum dissipari...”

66 O texto da Apologia de Jerônimo contra Rufino pressupõe, em muitas passagens, esta alegação. Jerônimo trata,

em especial, desta alegação no primeiro livro da Apologia, § 6 da edição de P. Lardet.

Para reforçar sua defesa de que o próprio texto de Orígenes contém elementos heréticos, Jerônimo tratará da

Apologia de Orígenes, traduzida em latim por Rufino, como uma falsa tese, falsamente atribuída ao mártir Pânfilo (vejam-se §§ 8-11 do I Livro e §§ 15-23 do II Livro). Os §§ 11-14 do III Livro retomam o mesmo assunto.

67 CROUZEL, H. e SIMONETTI, M., op. cit., p.70: “...Qui cum ultra septuaginta libellos Origenis, quos

homileticos appellauit, aliquantos etiam de tomis in apostolum scriptis transtulisset in latinum, in quibus cum aliquanta offendicula inueniantur in graeco, ita elimauit omnia interpretando atque purgauit, ut nihil in illis quod a fide nostra discrepet latinus lector inueniat...”

leitores latinos do contágio da heresia. Como Orígenes era um autor pouco conhecido em Roma, fato que não acontecia no Oriente (Palestina, Alexandria, Chipre, Grécia, etc.), onde se sabia havia décadas do teor herético das teses origenistas, a missão de Jerônimo soa-nos como reparação da própria imagem e restabelecimento de sua posição diante da objetividade dos fatos em relação às teses origenistas contidas no Perì Archôn, aos inúmeros fatos ligados às traduções deste texto, outros textos que Rufino tenha traduzido e que Jerônimo julga propício abordar em sua própria defesa e em defesa da objetividade dos fatos que ele alega. Tendo recebido de amigos que tinha em Roma cópia da tradução rufiniana do Perì Archôn, Jerônimo reage com uma tradução literal e sem cortes da mesma obra de Orígenes, enviando a sua tradução a Roma, juntamente com a epístola 84 de Jerônimo a Pamáquio e Marcela, na qual Jerônimo ataca a ortodoxia de Rufino e que será amplamente divulgada, e com a epístola 81, dirigida a Rufino, mas que não lhe será entregue. A publicação da obra em Roma causou memorável escândalo pelos conteúdos heréticos que expunha aos leitores, acusando o que teria sido uma fraude por parte de Rufino.

Passemos, então às acusações formuladas por Rufino ao seu ex-amigo Jerônimo e à defesa que este apresenta a cada uma dessas acusações.

A primeira acusação é de hipocrisia. A carta de Jerônimo que acompanhava a tradução do Perì Archôn por Jerônimo, dirigida expressamente a Rufino, não chegou às mãos do devido destinatário (epístola 81 do Epistolário de Jerônimo), enquanto que outra, a epístola 84 dirigida a Pamáquio e Marcela, foi a estes subtraída e o conteúdo da epístola chegou até Rufino. Este, por sua vez, interpretou como uma invectiva a epístola 84, devido aos vários pontos que Jerônimo abordava, dentre os quais estão a vinculação de Jerônimo com Orígenes, o origenismo em si, a questão do louvor e da imitação de Orígenes, a corrupção dos escritos origenianos por hereges.

A Apologia contra São Jerônimo em dois livros, de lavra de Rufino, lança mão das próprias palavras de Jerônimo para evidenciar a hipocrisia deste. Cita frase de uma epístola dele a Vigilâncio69: “Por meu intermédio, todos os latinos conhecem os bons pontos de Orígenes e ignoram os maus”70. Descrevendo a sua própria tentativa de dar a conhecer aos romanos apenas o lado católico de Orígenes, Rufino pergunta a si mesmo por qual motivo

68 JEANJEAN, B., Saint Jérôme et l’hérésie, pp. 37-55. 69 Epístola 61, 2.2 do Epistolário de Jerônimo.

haveria de ser censurado por alguém que procede de modo similar71 e admira-se de que seja condenado por heresia, repentinamente, alguém que Jerônimo tinha por mestre da Igreja, havia tantos anos, além de se perguntar se se poderia declarar alguém herege.72 Rufino critica duramente a Jerônimo por suas declarações na famosa epístola a Eustóquia sobre a virgindade73, a qual deu aos pagãos uma oportunidade de citar a difamação que Jerônimo fez da Igreja74 e mostra que Jerônimo ridiculariza viúvas, monges, diáconos, padres e até donzelas – e não o poupa. Rufino suplanta a alegação de Jerônimo de ter sido aluno de Dídimo de Alexandria, a partir de então rotulado como herege, ao afirmar que fora aluno dele por períodos de seis e dois anos, enquanto Jerônimo fora aluno de Dídimo por um único mês.75 Segundo Rufino, a cidade de Roma concorda em condenar Orígenes, porque Roma não pôde suportar a glória de sua eloqüência e conhecimento.76 O capítulo 29 do segundo livro da Apologia contra São Jerônimo traz uma descrição desqualificadora do oponente de Rufino: a língua que deita a paixão adestrada, apenas a contestação humana no coração, apenas a inveja e o ciúme em mente, sendo Jerônimo um sujeito inominável e inatacável.77

Em resposta a esta acusação de hipocrisia, Jerônimo defende-se em sua Apologia acusando “um novo gênero de malícia” no procedimento de Rufino, quando este fez circular em um grupo restrito obras dirigidas em desfavor de Jerônimo. Assim, Jerônimo questiona: