4 Diskusjon
4.2 Det mikrobielle samfunnet i en bioreaktor
Sobre esse tema, escreveu Gustave Bardy sua tese de Doutorado em Letras, apresentada à Faculdade de Letras da universidade de Paris224. O mesmo autor da tese que citamos publicou um artigo sobre tradução no século IV A.D.225
O religioso brasileiro Dom Paulo Evaristo Arns, autor do estudo A técnica do
livro segundo São Jerônimo, fornece-nos importantes definições para termos que impregnam a obra de São Jerônimo e que testemunham o arcaico processo da concepção, produção e difusão do livro na Antigüidade tardia. No quarto parágrafo do terceiro livro da Apologia de
Jerônimo contra Rufino, encontramos o termo schedulae em uma citação de uma passagem da
Apologia contra São Jerônimo226, na qual Rufino acusa “alguns amigos de Jerônimo de haver falsificado os papéis do Perì Archôn, que não se encontravam ainda corrigidos nem passados a limpo, para poder falsificá-los mais tranqüilamente, por serem poucos aqueles que os possuíam”. Schedula designa o estado no qual o texto ainda está sujeito a revisão, antes de sua transcrição definitiva e sua colocação em rolo ou códice.227 Para nós ele tem especial interesse, pois carrega em si o processo inacabado da escrita, o diálogo que preside o processo do texto com as escolhas feitas, com os cortes e acréscimos, com as correções finais que dão ao texto seu perfil, o qual é final apenas provisoriamente, até que o trabalho de leitura o
222 MIGNE, J.-P., PL XXI, col. 613-614: “...Omnis qui putabat Susannam nuptis et innuptis exemplum pudicitiae
praestitisse, erravit...Quicumque Hymnum trium puerorum in Ecclesia Domini cecinerunt, omnes erraverunt, et falsa cecinerunt...”
223 Plauto, Anfitrião, 506; Plauto, O Gorgulho, 463; Terêncio, A moça de Andros, 815. O termo significa o
mesmo que denunciante, pessoa mentirosa, caluniadora. Em Atenas, era quem denunciava os que transgrediam a lei, exportando figos.
224 Recherches sur l’histoire du texte et des versions latines du De principiis d’Origène, publicada em 1923. Ver
bibliografia.
225 Traducteurs et adaptateurs au IVe. siècle, no periódico Recherches de Sciences Religieuses, 1940. Ver
bibliografia.
226 c. Hier. 2, 10, 5 s: “...Noli multo auro redimere notarium, sicut amici tui de meis Περι ΑρX ων schedulis
nondum emendatis, nondum ad purum digestis fecerunt, ut facilius falsare possent quod aut nullus haberet, aut admodum pauci. Gratis a me missum suscipe codicem quem censu magno cuperes comparatum...”
227 ARNS, P. E. (1993), p. 25, identifica schedula com uma “espécie de rascunho”, embora reconheça, para o
desmantele novamente em suas bases, a fim de refazê-lo em possibilidades sempre novas e, em alguns casos, imprevisíveis.
Em resposta às colocações de Rufino em sua Apologia contra São Jerônimo, citada no parágrafo anterior, Jerônimo relata o caso da epístola de Epifânio, bispo de Chipre, enviada a João, bispo de Jerusalém, traduzida para Eusébio de Cremona, que desconhecia a língua grega228. O texto da tradução foi vendido por um falso monge que, igualmente a troco de dinheiro, fez a tradução sair dos armários de Eusébio de Cremona para a diocese de Jerusalém, onde o texto caiu em mãos de adversários origenistas, João, Rufino, dentre outros. A epístola traduzida, que Jerônimo chama ironicamente de epistula laudatrix tua, é a epístola 51 e trata dos erros do origenismo.229 Logo adiante, no quinto parágrafo do terceiro livro de sua Apologia, Jerônimo não aprova a acusação que Rufino faz a Eusébio de Cremona, colocando-o no rol dos amigos de Jerônimo que poderiam ter falsificado a tradução rufiniana do Perì Archôn, sob a alegação de que a acusação não é cabível de cristão para cristão, nem contra um homem de semelhante santidade.
Por tudo que já vimos a respeito da tradução rufiniana do Perì Archôn, por meio do prefácio desta tradução, que se tornou o leitmotiv de todos os acontecimentos da querela entre os dois ex-amigos, é bastante interessante a imagem que Jerônimo constrói do texto da tradução rufiniana, em virtude das interpolações que Rufino atribui a hereges no original e que ele corrige no texto de sua tradução: Jerônimo o compara a algo semelhante à roupa de arlequim ou colcha de retalhos.230
O tema da tradução tem importantes implicações para os aspectos de intertextualidade, pois o texto traduzido carrega em si o texto original, transportado para outro código e conservando, por princípio, o sentido e as relações básicas e essenciais dos diversos códigos do texto de origem.
A principal questão que motiva a recusa de Jerônimo em relação à tradução rufiniana do Perì Archôn é a inegável heterodoxia de Orígenes. Caberia à tarefa do tradutor,
228 São Jerônimo, Epistolario I (1993), ep. 57, 2, p. 544
229 São Jerônimo, Epistolario I (1993), ep. 51,4, p. 449: “...haec in libris Περι ΑρX ων scribuntur, his uerbis
legimus et ita locutus est Origenes: ‘sicut enim incongruum est dicere quod possit Filius uidere Patrem sic inconsequens est opinari quod Spiritus sanctus possit uidere Filium’...”
230 São Jerônimo, Apologia, p. 225: “...Aut quid subtraheret uel adderet in libris Περι ΑρX ων , ubi sibi
contexta sunt omnia et alterum pendet ex altero, ut quicquid tollere uolueris aut addere quasi pannus in uestimento statim appareat?...” A imagem do arlequim Pierre Lardet comenta na nota 434, p. 237 de seu Comentário à Apologia de Jerônimo contra Rufino, editado em 1993.
segundo Jerônimo, expor os bons e maus aspectos de um autor, a fim de que o leitor tenha uma visão aproximada de seu pensamento original. Tal como a percebe Jerônimo, a tradução rufiniana do Perì Archôn assemelha-se mais à criação própria de Rufino.231
A segunda parte do terceiro livro propõe um retorno sobre métodos de tradução, bem como sobre um problema de atribuição.
Evocando as afirmativas de Rufino no prefácio à tradução do Perì Archôn, Jerônimo distingue com nitidez tradução e comentário. No primeiro livro da Apologia de
Jerônimo contra Rufino, estabelece nosso autor claras definições acerca do gênero do comentário na literatura sacra e profana, com abundante exemplificação.232 Jerônimo admite que as afirmativas de Rufino quanto às traduções dos tomos do apóstolo Paulo tenham alguma pertinência apenas se Rufino estiver se referindo aos Comentários à epístola aos Efésios, de que já refutou as considerações apresentadas por Rufino.233 O autor ressalta o descompasso entre as propostas declaradas por Rufino de apresentar os melhores aspectos de Orígenes pela supressão dos acréscimos devidos aos hereges234, e Rufino passa a ser o alvo principal de responsabilidade já que procede a um trabalho de seleção e corte aos quais seu leitor de língua latina não pode aceder.
Poderíamos elencar a partir do prefácio da tradução rufiniana do Perì Archôn as principais questões e ambigüidades que tal texto comporta:
1. O elogio que Rufino faz a Jerônimo, nas circunstâncias de uma tradução de um texto supostamente interpolado, nada tem de lisonjeiro, uma vez que arrasta o elogiado para o mesmo círculo de hereges interpoladores do texto, em questão, de Orígenes.
2. Jerônimo, ao que nos demonstra, não desejaria ser apresentado ao leitor comum como o fora por Rufino no tal prefácio da tradução do Perì Archôn, uma vez que o primeiro não considera haver procedido em suas traduções como declarou Rufino que daquela forma havia procedido e que, portanto, não aceita pacificamente que Rufino declare que o está imitando.
3. A atribuição da Apologia de Orígenes ao mártir Pânfilo, Jerônimo a tem na conta de uma calúnia contra o mártir, pela infâmia da atribuição de uma apologia a um heresiarca
231 São Jerônimo, Apologia, p. 224: “...Quod si facere uolueris, iam non libros alienosinterpretaberis, sed
condes tuos...”
232 São Jerônimo, Apologia, p. 44-50. 233 São Jerônimo, Apologia, p. 58-80.
(Orígenes) tendo por autor um herege (Eusébio de Cesaréia), e sendo atribuída ao mártir Pânfilo.
4. As correções feitas no conteúdo do texto são inaceitáveis; não são cabíveis ou compatíveis com o papel de um tradutor. Jerônimo, que, por princípio, agiria de modo diverso e não consente com o elogio pérfido de Rufino, recusa o louvor, pois Rufino põe-no no rol dos maus tradutores, como se fosse natural proceder como procedeu Rufino.