E ÁFRICA
A discussão a seguir partirá de um depoimento de K-ximbinho, onde relaciona a música brasileira, especialmente o samba, juntamente com o jazz pela herança do ritmo africano, música de negro.
K-ximbinho - na minha opinião [...] a formação de orquestra de jazz dá um outro
caráter, dá um caráter mais sério. Ajuda mais a quem está solando ou cantando. Tornou-se popular não só no Brasil como no mundo inteiro, principalmente entre nós, porque nós temos o ritmo africano, que os americanos também têm, que deu origem ao jazz, o nosso também deu origem ao samba (K-XIMBINHO, 1975)
Sandroni (2001) discute seu conceito de “síncope brasileira” a partir da idéia que, de uma maneira geral, nós brasileiros que tocamos, compomos e falamos de música „sincopada‟, especificamente o samba, nos utilizamos dessa terminologia não diretamente associada à tradição rítmica africana, mas também pela informação oriunda da teoria musical tradicional européia.
A partir dessa observação discuto o equívoco de classificar gêneros musicais apenas por suas características técnicas, principalmente no que diz respeito à síncope. Numa leitura superficial de uma definição dicionarizada sobre gêneros musicais como samba, jazz e até choro, encontrei similitudes, que embora verdadeiras, não dão conta de descrever a
musicalidade46. Termos como “sincopado” e “caracterizado pela síncope” são demonstrados como elemento fundamental de uma música, mas se nos dispusermos a escutar um exemplo musical de jazz e outro de samba, As diferenças começam a brotar apara além da percepção da síncope, e se quisermos nos aprofundar, simplesmente pela comparação, vários elementos, como melodia e instrumentação, se mostrarão distintos uns dos outros, cada um em seu gênero musical específico.
Trago à tona questões como a percepção e aprendizado de ritmos complexos que são transmitidos ao longo dos anos sem o tradicional suporte da teoria musical européia. A importância da performance como veículo transmissor de tudo que envolve o samba, desde a música, passando pelos instrumentos musicais e o fabrico dos mesmos até a dança.
Segundo Blacking (1995), a performance musical é um evento modelado por um sistemas de ação social, e seus meios não podem ser entendidos ou analisados de forma isolada dos outros eventos desse sistema.
Para entender o problema do uso da terminologia „síncope‟, Sandroni (2001) parte para a pesquisa do significado da palavra bem como sua suposta associação com a música africana. Percebe-se então que a síncope, segundo a tradição musical ocidental está caracterizada pela quebra do andamento normal, um deslocamento da célula forte, à qual estamos acostumados. Mas por essa tradição, síncope classifica-se como um recurso, catalogada e classificada entre tantos outros artifícios melódicos e rítmicos. Segundo essa definição o deslocamento da célula forte passa a ser algo previsível e normal, dentro da divisão por compassos, como espaço de ritmos organizados, onde as acentuações são responsáveis pelo surgimento do evento rítmico síncope. Mas essa normalidade não significa que a síncope seja um recurso rítmico constante em nossa música e por isso é sentida como algo que soa estranho, na contramão do ritmo.
O autor descreve pesquisas de Arom e Kubik que revelam essa sensação de deslocamento, para nós entendida por síncope, como uma constante na música africana. Em comparação, se temos, na música afro-brasileira, a síncope como um elemento extraordinário, que eventualmente nos utilizamos dela para causar sensação de deslocamento, estranheza ou suingue, na música africana esse deslocamento do tempo forte é constante, natural daquele ritmo. O entendimento dessa característica na música africana fez com que os pesquisadores, para que continuassem a estudá-la, compreendendo-a como cultura e dentro de um contexto particular, abandonassem os modelos de organização métrica comuns à tradição musical
européia e até mesmo a utilização do terminologia síncope, porque havia a contradição de também não haver o apoio rítmico em tempos ímpares. (Sandroni, 2001, p. 22)
Há de se admitir que não só no samba, mas nos diversos ritmos executados no Brasil, percebe-se um elemento e deslocamento rítmico que compreendemos como síncope. Ainda segundo descrição de Sandroni, vários compositores de formação acadêmica do séc. XIX tentaram reproduzir de forma escrita a diversidade rítmica que sentiam na música africana e afro-brasileira, mas não acostumados com “a interpolação de grupos binários e ternários”, obtiveram relativo sucesso, sujeitados às limitações métricas dos símbolos musicais que dispunham; ligadura e ponto de aumento, representados pelo termo síncope. Dessa análise o autor conclui: “[...] se a noção de síncope inexiste na rítmica africana, é por síncopes que, no Brasil, [...] a música escrita fez alusões ao que há de africano em nossa música de tradição oral.” (SANDRONI, 2001, p.26)
Pellegrini (2004) busca o significado da palavra Jazz a partir da definição dada pelos principais músicos e compositores do gênero nos Estados Unidos e percebe que muitos deles se utilizavam do termo síncope também para embasar uma suposta autoridade ao falar de música ou elevar a música a um patamar de excelência pela glamorização da síncope. O autor percebe que essas definições estão aquém para descrever o contexto e os processos que originam e caracterizam o jazz, mas ainda assim cai no erro de recorrer, como recurso final, ao verbete de dicionário, que descreve o jazz como gênero musical de ritmo sincopado.
Berendt (1975) dedica-se em seu livro a analisar origem, características, prática e criação ao longo da história do Jazz. Descreve que somente em países que sofreram uma mistura entre a tradição musical européia e africana, conhecem certa capacidade em iludir o sentido de tempo no ouvinte. Esse suingue, segundo o autor, não se conhece na tradicional música européia, mas é bem comum nos Estados Unidos, Brasil e Cuba. Também descreve os fatores que contribuíram para o desenvolvimento da concepção rítmica do Jazz nos EUA, diferenciando-se da música de concerto européia.
O autor é preciso em criticar que, mesmo havendo essa percepção do ouvinte para quebras de andamento no jazz, essa prática é recorrente na criação, interpretação e improviso desse gênero musical. Classifica síncope como uma definição tradicional em música e que seria errôneo analisar como síncope as superposições de ritmo com acentuações em diferentes momentos do compasso, comuns no jazz, uma vez que síncope em música clássica é algo extraordinário. No jazz as acentuações fora do tempo forte ou as linhas melódicas que não tenham uma só nota percutida sobre os tempos 1 e 3 do compasso, são práticas comuns, chegando a identificar o “suingue jazzístico”.
Percebo aqui a confusão entre gêneros musicais por terem definições parecidas que não dão conta de descrever com exatidão as características específicas e distintas entre jazz e Samba e dentro da minha intenção de pesquisa sobre os elementos do jazz e choro na música de K-ximbinho. Se definições que se prendem a características ou análises apenas pelos termos que descrevem um evento rítmico ou melódico dentro de uma peça fossem suficientes, muitos gêneros musicais auditivamente distintos estariam confusa e equivocadamente igualados. O que deixa claro aqui que, definir choro, jazz e samba pede análises mais profundas, pois mais do que definir, importante para uma identificação ideal de cada gênero é o estudo que permita o entendimento dos processos que motivam a produção e execução de uma música respeitando suas características e contexto.
Nesse sentido não se busca apenas contestar ou provar se K-ximbinho está certo ou errado sobre suas definições de elementos e gêneros musicais, mas entender o significado que cada elemento tem e a função que exercem em seu processo de composição e performance.