Dos 7 psicólogos entrevistados apenas um não realizou seu estágio curricular na área clínica, sendo este da área escolar. As pós-graduações também se enquadram em linhas mais tradicionais da Psicologia, sendo que três dos entrevistados realizaram pós- graduação em abordagens da Psicologia Clínica e dois em Avaliação Psicológica. Apenas dois dos entrevistados fizeram pós-graduação na interface da Psicologia e Saúde.
É notória a ausência de formação em outras áreas, mas, não podemos desconsiderar que formações em outros campos da psicologia são escassas, portanto, aquele profissional que percebe em sua atuação a necessidade de buscar algum preparo
67 complementar, acaba recorrendo às especializações e cursos na área clínica, por estes serem mais abundantes e acessíveis, além de serem mais familiares diante da formação prévia na área clínica. É importante ressaltar aqui que a Psicologia Clínica (que tradicionalmente se faz na psicologia um dos campos de atuação e formação preferencial dentre os profissionais) não só se caracteriza como um campo de trabalho, a clínica em consultórios privados, mas como grande norteador da atuação do psicólogo nos diversos campos em que atua. O fato de que a formação dos entrevistados se dá, prioritariamente, no campo da Psicologia Clínica se reflete em seu fazer cotidiano no NASF, de forma que o modelo clínico (em sua abordagem tradicional centrada no indivíduo) se torna a referência de sua atuação. A formação clínica dos profissionais pode ser conciliada com a atuação na Atenção Básica, sendo uma referência em seus princípios basais (como a escuta e o acolhimento)que se fazem presentes nas ações que realize nesse campo que requer um modelo diferenciado do modelo liberal tradicional, buscando assim afastar o viés individualizante da prática tradicional e considerar os diversos determinantes sociais que estão envolvidos no processo de cuidado requerido pela Atenção Básica.
Aqueles que entraram no NASF no momento de estruturação e implantação da equipe passaram por treinamentos que seguiram três etapas principais: integração com a equipe; estudo e discussão teórica sobre o NASF; e conhecimento do município e da rede de atenção que lá atua. Quando a entrada do psicólogo não coincidiu com o estabelecimento da ENASF a capacitação para o trabalho no núcleo se deu através de estudos individuais das portarias e cadernos de diretrizes do NASF, e conversas informais com outros membros da equipe, ambos ocorrendo por iniciativa do próprio psicólogo, como vemos na fala do Psicólogo 7 quando questionada sobre como foi sua
68 preparação para o trabalho no NASF: “foi com a cara e a coragem. Deram um... Diretrizes do NASF, um livro. Pra gente ler e pronto”.
A participação em capacitações, reuniões e treinamentos oferecidos pela Secretaria Estadual de Saúde, foi citada por todos os entrevistados, no entanto, ressaltando a falta de regularidade e frequência destas atividades. O que é tido como “educação continuada” são treinamentos e capacitações sobre temas específicos como, por exemplo, “Mortalidade Infantil”, e que não se direcionam diretamente ao preparo para o trabalho na ENASF. Alguns profissionais indicam desmotivação em relação a essas capacitações. Essa desmotivação se dá em parte por serem capacitações escassas e irregulares, no entanto, também é um indicativo de que os psicólogos não se percebem como parte de muitas das discussões mais amplas da rede de saúde, como fica claro na fala do Psicólogo 6 sobre os cursos oferecidos como capacitação para os profissionais do NASF: “são muito amplos, não são específicos do NASF, muito menos pra Psicologia em si”.
É válido ressaltar uma diferença que a trajetória profissional dos psicólogos exerce no preparo para o trabalho no NASF. Por ser um dispositivo recente, e por termos a predominância da formação destes profissionais em áreas que não se relacionam diretamente à saúde pública, pouco ou nada é conhecido sobre o NASF durante a formação acadêmica destes profissionais. O Psicólogo 6, que não teve experiência profissional no campo da saúde pública, é um exemplo da situação da maioria dos profissionais entrevistados que igualmente não tiveram trajetória na saúde: “Então, eu assumi meio que perdida, eu caí de paraquedas mesmo, que eu não sabia, eu não sabia nem da existência do NASF, quando eu entrei. Não sabia o que é que fazia...”.
69 Aqueles psicólogos que não contam com experiência profissional prévia nas áreas da saúde pública, apontaram o preparo para a atuação no NASF como tendo sido de grande importância para o desenvolvimento de seu trabalho no núcleo, porém não sendo suficiente para sanar dificuldades na compreensão do seu papel e das atividades desenvolvidas no NASF. Aqueles que, sem experiência anterior, tiveram sua preparação pautada na busca pessoal por conhecimento acerca do NASF e da atuação pretendida (recorrendo às portarias e ao Caderno de Diretrizes do NASF), indicam a deficiência de sua capacitação para atuar deparando-se com a realidade da equipe, da rede e da comunidade.
mas me dá a impressão que está todo mundo meio que tentando se encontrar um pouquinho, de como fazer, né? Porque a gente tem o documento que dá o norte, mas na prática as coisas são um pouco diferente, né. (Psicólogo 2)
Por outro lado, aqueles psicólogos que tenham tido experiência profissional no campo da saúde pública (apenas dois dos entrevistados) indicam a importância de sua experiência para atuação no NASF: “Olhe, pra mim de uma certa forma foi [suficiente a capacitação para o trabalho no NASF], porque como eu não sou tão nova já tenho toda uma carga de experiência eu já carrego isso pro NASF” (Psicóloga 4).
Diante do preparo considerado incipiente pela maioria dos profissionais, percebe-se que estes têm de construir um modelo de atuação no seu cotidiano de trabalho. A troca de experiências com outros profissionais da equipe foi largamente citada como uma das formas de preparo para atuação no NASF, neste caso, a integração da equipe exerce um grande papel na construção da prática deste profissional. Se a equipe é bastante integrada, o psicólogo troca conhecimentos e experiências com os outros profissionais, absorvendo novos modos de fazer saúde no NASF. No caso de
70 uma equipe esfacelada, o psicólogo trabalha com aquilo que já traz em sua bagagem de conhecimento e experiência, preenchendo as lacunas da capacitação com experiências de sua formação pessoal. Como pudemos observar, as formações destes profissionais são, em sua maioria, voltadas para a prática clínica, sendo assim, tendo que recorrer àquilo que já lhe é conhecido para realizar seu trabalho no NASF, o modelo clínico tradicional9 passa a ser adotado como base para sua atuação. Isso implica dificuldades
para adequar o trabalho do psicólogo à realidade do trabalho no NASF, o que será trabalhado mais adiante, quando nos depararemos com as atividades que são realizadas por estes profissionais e os desafios que encontram na sua atuação.
A questão da falta de um preparo focalizado e eficiente para a atuação no NASF não esta sozinha quando falamos de dificuldades para a realização de uma prática compromissada e que esteja de acordo com os preceitos da Saúde Coletiva. No entanto, por se refletir na falta de compreensão plena sobre o papel, o lugar e os objetivos da equipe NASF (e de si próprio como psicólogo atuante nesta equipe), a capacitação deficiente torna-se entrave na busca por sanar as dificuldades que se colocam à prática do NASF. É nítido que ao ter um conhecimento mais avançado sobre os temas da saúde pública destacam-se ao olhar do profissional as barreiras que precisam ser superadas para a concretização do trabalho do NASF e contribuir para a concretização do SUS. Podemos observar na fala do Psicólogo 5 (que tem experiência profissional e acadêmica no campo da saúde pública, tendo estudado e trabalhado com a Política Nacional de
9 A Psicologia se constrói no Brasil nos moldes do trabalho liberal associado à prática clínica,
que ainda hoje representa uma notável preferência dos psicólogos enquanto atuação. Dessa maneira tem-se uma Psicologia tradicional (que conserva o modelo de ação de suas origens, muito atrelado às profissões médicas e à ideologia médico-centrada) que apresenta entraves no desenvolvimento do trabalho na atenção básica, por ser centrada no indivíduo e se distanciar de considerações acerca dos determinantes sociais da saúde e de sua própria conduta (Yamamoto, 2007).
71 Humanização), que, tendo clareza da proposta do dispositivo, reconhece que há outras problemáticas se impõem à sua prática, que não apenas a capacitação insuficiente:
Eu acho que a questão do funcionamento do NASF, ela extrapola essa questão da capacitação dos profissionais. Porque... É o que eu digo sempre pro pessoal: ‘nós sabemos o que é pra fazer, nós sabemos o que é apoio matricial, nós sabemos o que é atenção, cuidado, nós sabemos do papel real que as equipes do programa de saúde da família exercem, dos agentes comunitários de saúde... A gente sabe. Mas é aquilo que eu te falei no início: nem a população ainda tá sensibilizada (...) Eu acho que, assim, a capacitação, ela não é suficiente, mas também não é... Acho que não é o X da questão, entendeu? (Psicólogo 5)
A deficiência no preparo dos psicólogos para a atuação no NASF se reflete em muitos dos desafios que estes encontram em sua atuação, em especial em adaptar-se à realidade (mutias vezes desconhecida) do trabalho em saúde pública. No entanto esta não é a única gênese das problemáticas enfrentadas por estes profissionais, a rede de saúde esfacelada, falta de profissionais e estrutura física adequada, e mesmo a difícil transição para um novo paradigma de cuidado em saúde que ainda encontra resistência entre os profissionais da saúde e a própria população, são exemplos de dificuldades que se colam à atuação do psicólogo no NASF (tema melhor explorado na sessão “Desafios e Limites da atuação do psicólogo no NASF”).