O conceito de política global, segundo Held (1999), reforça a noção de intensificação do tempo e prolongamento das dimensões de espaço pela globalização, que resulta em consequências locais simultâneas e vice-versa. Ou seja, o alargamento das relações políticas por meio desse tempo e espaço, com a extensão do poder político além das fronteiras nacionais, traz ramificações globais para as decisões e atividades assumidas nas cidades. Verifica-se, assim, um aprofundamento do impacto dessas políticas globais, que permeia, com grande intensidade, as condições sociais e as percepções cognitivas das políticas comunitárias.
Ao comparar a dimensão temporal-espacial ao longo da história, Held (1999) analisa quatro parâmetros que indicam a amplitude da globalização: extensão, intensidade, velocidade e impacto do local ao global. Quanto à extensão, o mundo contemporâneo (a partir de 1945) se distinguiria pela emergência de uma ordem global, com regionalização das políticas e das negociações inter-regionais. A intensidade com que se multiplicam acordos e se constroem redes (formais e informais), por sua vez, encontra-se em um nível sem precedentes. A velocidade das interações já se dá em tempo real e com forte impacto em diferentes locais.
Quanto a este último parâmetro – o impacto da globalização sobre o comportamento dos atores multicêntricos –, Held (1999, apud BUENO, 2010) apresenta quatro tipos. O impacto decisional refere-se à influência das forças e condições globais sobre a análise individual de custos e benefícios relacionados à tomada de decisão no campo político, econômico e ambiental. O impacto institucional reflete os efeitos da globalização nos canais de interação, que viabilizam ou constrangem a escala de preferências dos diversos atores internacionais. O impacto distributivo determina a configuração das forças sociais, possibilitando mudanças nos arranjos de poder e estabelecendo grupos mais vulneráveis à globalização. Já os impactos estruturais significam fluxos globais que condicionam os padrões domésticos de organização social e o comportamento político e econômico. Neste último, propõe-se a erosão da tradicional distinção entre doméstico e internacional, defende-se a difusão do poder e da autoridade política e
questiona-se a capacidade de os Estados Nacionais lidarem com questões ambientais.
Outras quatro dimensões retratariam a forma de organizar a globalização: infraestrutura, institucionalização, estratificação e modelos de interação. A infraestrutura refere-se a uma combinação de facilidades físicas, legais, simbólicas criadas para possibilitar a amplitude alcançada em tempos atuais. A institucionalização significa padrões de regularização das interações nas práticas e nas operações dos agentes (indivíduos, coletividades, Estados), tendo capacidade de reprodução ao longo do espaço e do tempo (HELD,1999). A estratificação traz a hierarquia social e a irregular distribuição espacial que determinam o nível de controle e dominação global – preexistindo a distinção entre as comunidades do Norte e as do Sul. O modo de interação, por sua vez, reflete a possibilidade de coerção, cooperação, competição, conflito etc.
Held (1999) apresenta, ainda, as concepções de desterritorialização e a reterritorialização dos espaços social, político e econômico. A ideia é que, com o alargamento da amplitude de ação, os temas não sejam primariamente ou unicamente organizados com bases territoriais. Em contraponto, a globalização reforça novas formas de localização, nacionalização e regionalismo das sociedades. Consequentemente, há uma permanente estruturação e reestruturação das relações de poder a distância. A localização do global faz parte desse conceito de reterritorialização e evidencia que a globalização deve ser compreendida não apenas no nível de macroprocesso, mas também em suas múltiplas localidades.
A noção de política global desafia, portanto, a distinção entre o doméstico e o internacional. Essa tendência pode ser exemplificada pela crescente diluição das normas internacionais nas normas internas, gerando inúmeras obrigações nas legislações municipais. Para Cox(1990), a globalização transforma internamente as bases da autoridade estatal e produz uma ordem mundial pós-westfaliana, em vários níveis, na qual o Estado Nacional continua a ter importância, mas apenas como um dentre vários níveis de autoridade. Dessa forma, outros atores podem adquirir novas atribuições dentro do sistema internacional. Porém, isso não é capaz de afastar os Estados Nacionais do centro do palco internacional.
Aldecoa e Keating (2000) reforçam esse entendimento de que a globalização e o auge dos regimes transnacionais, especialmente as áreas de comércio regional, diluíram a distinção entre assuntos domésticos e externos. Da mesma maneira, esses transformaram a divisão de responsabilidades entre o Estado e os governos locais. Segundo Nye (2002), em vez de imaginar um governo mundial hierárquico, devemos conceber redes de governança que se entrecruzem e coexistam com um mundo formalmente dividido em Estados soberanos. O conceito de governança é descrito por Rosenau (2005) como:
Atividades apoiadas em objetivos comuns, que podem ou não derivar de responsabilidades legais e formalmente prescritas e não dependem, necessariamente, do poder de polícia para que sejam aceitas e vençam resistências. Em outras palavras, governança é um fenômeno mais amplo do que governo; abrange as instituições governamentais, mas implica também mecanismos informais de caráter não-governamental, que fazem com que as pessoas e as organizações dentro de sua área de atuação tenham uma conduta determinada, satisfaçam suas necessidades e respondam às suas demandas.
Governança global, por sua vez, é descrita por Inoue (2009) como o conjunto de atividades apoiadas em objetivos comuns (ROSENAU; CZEMPIEL, 2005), incluindo o estabelecimento de sistemas de ordenação, ou instituições sociais (regras e procedimentos, políticas e programas de ação), que guiam práticas sociais (YOUNG, 2000) em uma escala global, ou arranjos de políticas por meio dos níveis local, nacional, regional e global, remetendo à fragmentação da autoridade política entre atores governamentais e não governamentais. Enquanto a governança global refere-se à coordenação entre os atores (entre eles os governos locais) em agendas de interesse coletivo, a política global refere-se ao contexto mais amplo dessa interação. Sendo assim, governança global é apenas um dos eixos de atuação dos governos locais.
2.3 Amplitude da Globalização nas Cidades
O modo acelerado com que se desenvolvem os regimes internacionais tem incrementado o processo de institucionalização da política global (YOUNG, 1989). Esse tipo de institucionalização não é um fenômeno do século XX, mas certamente se intensificou depois da Segunda Guerra Mundial, apresentando uma extraordinária expansão em tempos atuais. O grau de desenvolvimento desse processo é diferente em cada país e se torna ainda mais díspar nas localidades dentro de um mesmo país.
A ampliação do impacto global na maioria das cidades tem significado uma internacionalização do setor econômico urbano que se expande rapidamente e impõe novos critérios para as atividades e resultados econômicos. As corporações mundiais têm uma geografia global, mas não estão instaladas em todas as partes do globo. Ao contrário, elas apresentam espaços bem definidos e estruturados (presença de densa infraestrutura de comunicação, logística, financeira etc.). A globalização nas cidades é evidenciada, portanto, por processos econômicos, a exemplo da atuação das corporações transnacionais, a provisão de serviços financeiros internacionais (como bancos e seguradoras), o custo de vida, a quantidade de bilionários residentes no local, o volume de turistas estrangeiros anuais e a movimentação nas bolsas de valores.
Se por um lado há uma homogeneização quanto às normas estabelecidas para atravessar as fronteiras nacionais; por outro lado, há uma grande diferenciação dentro das fronteiras (SASSEN, 1991), seja na comparação entre os municípios ou entre seus bairros. A aceleração desses desequilíbrios pela globalização nem sempre é negativa. Observa-se, por exemplo, a riqueza da diversidade étnica promovida pelo intenso processo de imigração. A desterritorialização de culturas das diversas partes do globo e sua respectiva reterritorialização, sobretudo nos grandes centros urbanos, criam novas dinâmicas que reforçam o processo cíclico de localização da globalização.
Nesse sentido, inúmeros indicadores culturais e políticos podem ser usados para indicar o grau de globalização das cidades. Quanto ao primeiro, podemos destacar a presença de instituições culturais renomeadas (museus,