2 Literature review
2.7 Inclusion and the IEPs
2.7.1 Finnish and Norwegian aspects to inclusion
Questão bem distinta é o debate acerca da situação e das dinâmicas em curso na Ásia Oriental. Essa discussão envolve todos os elementos do vasto espectro de análise das relações internacionais, dos estudos de segurança e da geopolítica.
Assim acontece, por exemplo, a propósito da agenda de segurança regional: o rol de preocupações, ameaças e riscos ali é tão vasto e variado que se presta a todo o tipo de hierarquizações e formulações. Parte significativa dos observadores, a começar, naturalmente, pelos do “campo” realista, centra-se quase exclusivamente nos problemas da
high politics discutindo, fundamentalmente, os impactos da ressurgência da China e dos
relacionamentos de Pequim com os EUA e o Japão mas também com a Rússia, a Península Coreana e os países do Sudeste Asiático; os hot spots Taiwan e Coreia; e as muitas disputas territorias, fronteiriças e de soberania que permanecem por resolver, em particular, as que envolvem directamente as “grandes potências” - como a Rússia e o Japão em torno das Curilhas do Sul/Territórios do Norte; a China e o Japão a propósito das Ilhas Senkaku/Diaoyutai; ou a China e vários países do Sudeste Asiático no Mar da China Meridional.
Outros, porém, advogam que a agenda de segurança regional se tem vindo a recentrar mais nas “novas dimensões” e que, portanto, preocupações como o terrorismo, a pirataria ou a insegurança económica, energética, ambiental e societal têm hoje mais relevo (Beeson, 2007: 92-99). No seu East Asia Imperilled: Transnational Challenges to Security, Alan
Dupont (2001) é dos que mais exaustivamente tenta explicar as conexões entre uma vasta série de inquietações transnacionais e a segurança na Ásia Oriental. Demonstra, por exemplo, como o crescimento populacional e o fenómeno da urbanização desencadeiam uma série de problemas ambientais - erosão dos solos, desflorestação, decréscimo da qualidade do ar e da água, etc. - que, por sua vez, se repercutem na instabilidade sócio- económica, alimentando confrontações políticas dentro dos, e entre os, países Asiáticos. Salienta, igualmente, as nefastas consequências para a segurança regional resultantes dos movimentos desregulados de populações e de refugiados, da criminalidade transnacional, do tráfico de armas e de drogas, da pirataria marítima nos Estreitos do Sudeste Asiático ou de pandemias como o SIDA. Dupont acrescenta ainda os efeitos desses desafios transnacionais no sistema de segurança regional: «as ameaças transnacionais são
primeiramente não-militares na sua natureza e representam uma vasta rede de considerações de segurança relacionadas com a sobrevivência, a alocução de recursos e a saúde do planeta. Elas não podem ser resolvidas nem pela força militar nem pelas abordagens tradicionais de segurança» (2001: 32).
Um dos aspectos mais impressionantes envolvendo as análises que se produzem sobre a Ásia Oriental é, todavia, a disparidade na percepção acerca da situação e dos destinos da macro-região, variando desde cenarizações de grande pessimismo a perspectivas extraordinariamente optimistas.
Para uns, a Ásia Oriental reúne todos os ingredientes para descambar numa enorme instabilidade e em conflitos de larga escala, sublinhando nas suas visões a rivalidade, a competição e o confronto. Na perspectiva realista, as mudanças sistémicas provocadas, nomeadamente, pelo fim das bipolarização política mundial e pela ressurgência da China exponenciam todos os perigos da “anarquia” e conduzem as “grandes potências” a uma luta pelo poder na região que, consequentemente, originará um ambiente mais instável, tenso e conflitual. É aqui que se incluem, por exemplo, as inúmeras as perspectivas sobre a inevitável confrontação entre os EUA, “potência hegemónica” e a China, “potência revisionista”: com efeito, se muitos questionam «A ascensão da China: Acomodação
Pacífica ou Grande Guerra?» (Vasconcelos, 2009) ou «The Future of U.S.-China Relations: Is Conflict Inevitable?» (Friedberg, 2005), outros não hesitam em antecipar uma «nova guerra fria» (Achcar, 1999). «Será o passado da Europa o futuro da Ásia?» Aaron Friedberg
(2000a) tem levantado esta questão e, essencialmente, responde pela afirmativa, sugerindo que a Ásia actual apresenta similitudes com a Europa do final do Século XIX - primeira metade do Século XX pelo que, tal como aconteceu no “Velho Continente”, poderá a Ásia ser «rasgada pela rivalidade» e emergir como o «cockpit of great power conflict» (Friedberg, 1993-94: 7).
Ao pessimismo de índole realista junta-se o argumentário de pendor mais construtivista, com o peso da História e da memória a influenciar quer os diferendos e disputas territoriais actuais quer as percepções negativas e as desconfianças regionais, com destaque para as apreensões em torno de uma eventual remilitarização do Japão ou da possibilidade da gigantesca e “sino-cêntrica” China ter um comportamento agressivo. Neste sentido, as experiências históricas dão um contributo decisivo para um certo pessimismo: «A primeira
fonte das tensões que perturbam a região asiática actualmente não é o seu ambiente geoestratégico nem o seu nível de desenvolvimento político-económico nem o carácter das instituições regionais. Acima de tudo, elas (as tensões) são o produto de profundas animosidades e suspeições baseadas na História, nacionalismo frustrado e concepções distintas de identidade nacional e diferentes entendimentos da missão nacional nos assuntos internacionais» (Berger, 2003: 388).
Os pessimistas neoliberais, por seu turno, acentuam a falta de hábitos de cooperação entre os países asiáticos, as incipientes instituições regionais e a virtual ausência de mecanismos de segurança multilateral na Ásia Oriental para justificar a sua visão, bem como a persistência generalizada de autoritarismo político que impede a região de tirar partido do que seriam os impactos benignos da democratização nas relações entre os actores. Também a maior exposição dos Estados e das populações aos efeitos da globalização é referida por, putativamente, agravar as desigualdades, as incertezas e o hiato entre as políticas estatais e as expectativas populares, a que se soma a tendência para conflitos comerciais tanto entre os EUA e os seus aliados tradicionais como entre as economias asiáticas.
Outros elementos frequentemente invocados para justificar cenários pessimistas são o a enorme heterogeneidade étnico-religiosa e o legado histórico de múltiplas “presenças” dominantes (à semelhança de outras regiões instáveis como os Balcãs, o Médio Oriente ou o Cáucaso), o aumento generalizado dos orçamentos de defesa e das capacidades militares na Ásia Oriental ou a crescente dependência de mercados externos e de recursos energéticos por parte dos principais actores regionais.
Em nítido contraste, circulam visões e previsões francamente optimistas acerca da evolução da Ásia Oriental. Se na década de 1990 eram mais frequentes as referências ao
renascimento ou à emergência da Ásia/Pacífico/Ásia Oriental19, vem-se intensificando nos últimos anos a invocação do “Século XXI como o Século Asiático”, presente em muitas
19
Ver, por exemplo, Elegant, 1990: Pacific Destiny: The Rise of the East; Winchester, 1991: Pacific Rising: The Emergence of a New World Culture; Rohwer, 1995: Asia Rising: How History’s Biggest Middle Class Will Change the World; Howell, 1995: Easternisation: The Rise of Asian Power and its impact on the West and our own society; Fallows, 1995: Looking at the Sun: The Rise of the New East Asian Economic and Political System; Ibrahim, 1996: The Asian Renaissance; e Godement, 1996: La Renaissance de L’Asie.
análises, discursos e documentos, tanto Asiáticos como Ocidentais. Por exemplo, Fareed Zakaria (2005: 18) não hesita em considerar que «A emergência da China, acompanhada da
da Índia e do persistente poderio do Japão, representa a terceira grande mudança no poder global – a emergência da Ásia», sendo esse o principal argumento do seu «The Post- American World» (2008). Na mesma linha, Jeffrey D. Sachs (2004), num artigo
significativamente intitulado “Welcome To The Asian Century…” afirma que «à medida que o
centro de gravidade da economia mundial se mover para a Ásia, a proeminência dos Estados Unidos diminuirá», enquanto Kishore Mahbubani (2008) intitula significativamente o
seu novo livro «The New Asian Hemisphere. The Irresistible Shift of Global Power to the
East».
Também os mais altos dirigentes asiáticos vêm expressando esta ideia: por exemplo, num encontro com o homólogo indiano, o Primeiro-Ministro chinês Wen Jiabao afirmou que «strong bilateral ties will usher in a true Asian century (…) It is when China and India are
really strong enough and fully bring out their vitality that it will usher in a new true Asian century» (cit. in Xinhua webpage, 14 de Março de 2003); de igual modo, o Primeiro-Ministro
indiano, Atal Behari Vajpayee (2003), dirigindo-se à ASEAN Business and Investment
Summit, num discurso significativamente intitulado “The Asian Century” assume que «There is an emerging perception that this will be the century of Asia's pre-eminence… The growing economic weight of Asia is strengthened by favourable demographic trends, and is no longer constrained by Cold War divisions (…) energise this process to move us closer to our shared goal of making this truly the Asian century». Na realidade, esta retórica vem sendo utilizada
por quase todos os dirigentes e fóruns asiáticos nos últimos anos.
No essencial, os argumentos para este optimismo envolvem os impactos da emergência da China e da Índia e da “normalização” estratégica do Japão, a par de um alegado declínio dos EUA e da Europa; o elevado ritmo de crescimento económico dos “grandes” Asiáticos e o aumento súbito da importância da macro-região para a economia e a geopolítica mundiais; o enorme potencial dos países asiáticos por via da sua vasta população, bem como dos seus mercado e modelo de desenvolvimento; e o aumento significativo das interacções intra-asiáticas e do multilateralismo na região.