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5   Discussion  and  conclusions

5.4   Conclusions

Depois de uma longa era sino-cêntrica, o sistema internacional da Ásia Oriental entrou num Século de profundas e sucessivas transformações. As forças motrizes foram, entre meados do Século XIX e a II Guerra Mundial, o declínio da China, a colonização europeia, as chegadas da Rússia e dos EUA e a emergência e o expansionismo do Japão.

III.2.1. Declínio da China

Ao entrar no Século XIX, a China não começava apenas num novo Século, entrava num período de enorme declínio, graves perturbações internas e agressões externas. Compreensivelmente, esta fase, a segunda da dinastia Qing, corresponde ao “Século das Humilhações” e dos “Tratados Desiguais”.

No início do Século XIX, as potências europeias - presentes na região desde o Século XVI e, então, em acelerada expansão económica e estratégica fruto da industrialização - estavam às portas de uma China ultrapassada. Os Qing revelaram-se incapazes de achar respostas para o novo desafio, a começar pela crise em que, perversamente, os europeus mergulharam a China com a introdução do comércio do ópio24 a fim de equilibrarem a balança comercial e acederem às riquezas chinesas Em 1839-1842 teve lugar a Primeira Guerra do Ópio entre a China e a Grã-Bretanha, na sequência da qual os britânicos impuseram à China Qing o primeiro de vários “tratados desiguais”, o Tratado de Nanquin, em 1842: a China era obrigada a ceder à Inglaterra a ilha de Hong Kong e a abrir cinco outros portos aos Ocidentais onde rapidamente se estabeleceram concessões das quais os europeus eram verdadeiramente soberanos. Uma cláusula engenhosa imposta pelos ingleses foi a da “nação mais favorecida”, garantindo-lhes automaticamente o benefício de toda a concessão ou privilégio ulteriormente consentido a outros (Godement, 1996: 41). O impacto da Primeira Guerra do Ópio seria tremendo: «Os Chineses não perderam apenas a

sua batalha para excluir a droga ou a sua guerra com a marinha britânica; eles perderam as suas tarifas autónomas, uma larga indemnização, o direito de submeter os residentes estrangeiros à lei chinesa e o território do que seria Hong Kong. Mas o pior ainda estava para vir: exposta a sua fragilidade militar, a China entrava definitivamente num Século

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O comércio do ópio era dominado por mercadores privados e pela Companhia Britânica das Índias Orientais, que encorajaram o governo britânico a impor os seus interesses comerciais pela força dos canhões e dos navios quando as autoridades chinesas ameaçaram a sua liberdade de acção económica. A Europa importava há muito da China grandes quantidades de seda, especiarias e, particularmente, chá, mas exportava muito pouco para a China até ao comércio do ópio que permitiria não só resolver o problema do défice comercial com a China como aceder às riquezas chinesas e fazer a fortuna dos comerciantes e dos governos europeus.

calamitoso de agressão externa, desordem interna e guerra civil» (Pomeranz e Topik, 1999:

103).

Os portugueses, estabelecidos pacificamente em Macau desde meados do Século XVI, aproveitam e deixam de pagar o “Foro do Chão” às autoridades chinesas (1841); ocupam a zona a norte de Macau e estabelecem uma fronteira (Portas do Cerco); expulsam os representantes do Mandarim de Cantão e afirmam a soberania portuguesa sobre o território de Macau (1849), expandindo-se ainda para as ilhas da Taipa (1851) e Coloane (1864). Em 1887, Lisboa obteve a assinatura de um “Tratado de Amizade e Comércio Luso-Chinês” que reconhece e legitima a ocupação perpétua de Macau e suas novas dependências por Portugal.

Entretanto, as condições económicas agravavam-se na China: uma população que ao longo dos séculos oscilara entre os 50 e os 100 milhões de habitantes passa, em duzentos anos apenas, entre 1650 e 1850, de 100 milhões para mais de 400 milhões (Chaliand e Rageau, 1995: 66), aumentando a pressão sobre as terras. Várias revoltas estalam na China nesta época, com destaque para a Revolta dos Taiping (1850-1866) que lança o país numa autêntica guerra civil. Ao mesmo tempo, desencadeia-se uma Segunda Guerra do Ópio (1857-1860), lançada por forças franco-britânicas e na sequência da qual é imposto à China um novo par de tratados desiguais (o Tratado de Tianjin, em 1858 e o Tratado de Pequim, em 1860), sendo a China obrigada a abrir aos Ocidentais mais onze portos e a ceder aos britânicos a Península de Kowloon, junto a Hong Kong.

Paralelamente, a Rússia czarista aproveita a fragilidade chinesa e começa as suas incursões sobre o Turquestão e a região da Zungária (Ásia Central) que a China já não consegue sustentar, anexando esses territórios por volta de 1870. Os russos impõem também à China dois “tratados desiguais” - o de Aygun, em 1858 e o de Pequim, em 1860 - pelos quais aquela lhes cede as províncias, respectivamente, do Amur e do Ussuri. Pouco depois, rebenta no Turquestão Chinês um movimento Uigur Muçulmano independentista anti-Manchu, com os russos a intervirem para repor a ordem (1871) perante a incapacidade chinesa: porém, desta vez, a Rússia czarista devolveu o controlo da região aos Qing, em 1881, pelo Tratado de São Petersburgo – no Turquestão Chinês a China estabeleceria, em 1884, a província “Nova Fronteira” (Xinjiang). Os problemas acumulavam-se e a delapidação da China prosseguiu imparável: em 1879, a China viu o Japão ocupar as ilhas Ryukyu; logo a seguir, em 1883-85, a França venceu a China e conquistou aquilo que chamaria de sua

Indochine (actuais Vietname, Laos e Camboja), pondo aí termo a mais de duzentos anos de

domínio chinês Qing.

Particularmente traumática para a China foi a derrota ante o Japão na guerra de 1894-95 e na sequência da qual, em mais um “tratado desigual” (de Shimonoseki, em 1895), foi obrigada a abdicar definitivamente das Ilhas Ryukyu e a ceder ao Japão as ilhas de Taiwan,

Pescadores e outras “ilhas adjacentes”, bem como a Península de Kwantung na Manchúria (de que o Japão desistiria depois por pressão russa, britânica e francesa). A China teve ainda de reconhecer a independência da Coreia, ficando esta à mercê dos intentos japoneses e russos. A Guerra sino-japonesa de 1894-95 também inauguraria meio século de sucessivas agressões do Japão contra a China, confirmando ainda o declínio do “Império do Meio” e a emergência de uma nova potência asiática cuja expansão política e territorial só iria parar meio Século mais tarde.

Em 1898, a China arrendou à Grã-Bretanha os chamados “Novos Territórios” (integrados no conjunto Hong Kong), por 99 anos, e à Rússia a Península de Kwantung na Manchúria, por 25 anos. No mesmo ano, os Qing tentam ensaiar uma tentativa de reformas (os “Cem Dias”), mas estas desencadeiam a reacção dos conservadores e foram abortadas perante a eclosão da Revolta dos Boxers, motivada por fortes sentimentos anti-Ocidentais e anti- Manchus, só sufocada com o auxílio das forças estrangeiras. Tirando partido da situação, a Rússia, já na posse da Península de Kwantung, ocupou militarmente o resto da Manchúria, em 1900, e apoiou o movimento independentista que emergia na Mongólia.

A última década da dinastia Qing foi marcada, ironicamente, por significativas tentativas de reforma institucional e social25. A modernização era fundamental na China do início do Século XX, mas esse impulso era sinónimo de nacionalismo. Precisamente na altura em que rebentava a Revolução Republicana na China e os Qing eram depostos, a Mongólia declarava-se independente, em 1911, colocando-se de imediato sob a protecção russa. Com a China imersa no caos revolucionário, o Tibete aproveita para declarar também a sua independência, ficando durante décadas numa situação ambígua: independente de facto, sob influência britânica, mas sem ser reconhecido oficialmente e sem que os chineses jamais renunciassem formalmente à soberania sobre o Tibete.

A hecatombe chinesa muito deveu, portanto, à intromissão Ocidental e japonesa, mas também foi consequência da degeneração interna: «a agressão foi tornada possível pela

fragilidade e ineficácia da dinastia dominante… com uma liderança mais competente, vigorosa e responsável no Século XIX, a história regional (para não dizer mundial) talvez tivesse sido muito diferente» (Beeson, 2007: 31). É certo que não foi formalmente

colonizada, mas com um governo incapaz, envolvida em constantes lutas internas, invadida e espoliada, a China, o que restava dela, ficou reduzida a uma situação neo-colonial, «retalhada como um melão» (Godement, 1996: 42) em “esferas de influência” estrangeiras.

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Conforme argumenta Yongjin Zhang (1991: 10) «As reformas Imperiais na primeira década do Século instituíram mudanças fundamentais em quase todas as esferas da vida chinesa. As mudanças no sistema de valores e nas instituições tradicionais chinesas introduzidas pelas reformas criaram uma Nova China, similar ao resto do mundo em termos dos seus valores e atitudes políticas e nas suas instituições legais. Tenha sido intencional ou não, isto não foi só a transformação do império, mas também da civilização».