Figura 3: Distribuição microrregional dos artigos por milhão de habitantes no Brasil - 2000
Fonte: Elaboração própria a partir de ISI e Ipeadata.
A Figura 3 mostra a distribuição espacial da atividade científica no Brasil no ano de 2000. Por meio dela é possível verificar um quadro bastante similar ao presente na Figura 1. Em 2000 a atividade científica brasileira mantinha importante concentração no eixo formado pelas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Observa-se, sobretudo, que as localidades com atividade científica mais intensa, àquela época se concentravam no estado de São Paulo. A Tabela 43 mostra que esse grupo de microrregiões com atividade científica naquele ano representava pouco mais de 30% do total de microrregiões brasileiras.
Tabela 43: Grupos de microrregiões segundo seu nível de atividade científica e sua representatividade no total de localidades, na população e no PIB nacionais - 2000
Artigos por milhão Hab.
Número de
microrregiões % Brasil % POP % PIB
0 383 68,6 33,5 16,2 1-30 106 19,0 22,9 22,2 31-100 35 6,3 13,7 12,6 101-500 30 5,4 28,2 46,0 >500 4 0,7 1,7 3,0 Total 558 100,0 100,0 100,0
Fonte: Elaboração própria a partir de ISI e Ipeadata.
Como é possível verificar, uma grande parte do território nacional não participou da produção científica brasileira no ano de 2000. Trata-se de um grupo formado por 69% das microrregiões brasileiras, sendo ele composto basicamente por microrregiões localizadas no Nordeste e no Norte do país, contando com partes do estado de Minas Gerais e da região Centro-oeste. Cabe ressaltar que nessas regiões as localidades que apresentaram a realização de atividades científicas configuraram, na maior parte das vezes, pontos isolados no espaço. Essas microrregiões apresentavam em 2000 um terço da população brasileira e 16% do PIB. Esse quadro indica que não apenas uma grande parcela do território brasileiro não se integrava às atividades científicas no Brasil naquele período, como também boa parte da população se encontrava distante dos possíveis benefícios desta atividade. Por outro lado, verifica-se que as localidades com atividade científica concentraram a maior parcela da renda no país, sendo que o grupo de regiões com mais de 100 publicações por milhão de habitantes, que representava 6% das microrregiões brasileiras concentrava, em 2000, 50% do PIB nacional.
Observou-se ainda, que no eixo Sudeste e Sul, as microrregiões com atividade científica se localizavam, na maior parte das vezes, na vizinhança de outras localidades em situação semelhante. Essa condição, se acredita, seria favorável ao desenvolvimento científico em tais microrregiões devido à presença de possíveis spillovers científicos regionais.
Figura 4: Distribuição microrregional dos artigos por milhão de habitantes no Brasil - 2010
Fonte: Elaboração própria a partir de ISI e Ipeadata.
O quadro para o ano de 2010 se mostra bastante diferente do que foi identificado em 2000, com um engajamento mais amplo das microrregiões brasileiras na atividade científica, como pode ser visto por meio da Figura 4. Como é possível perceber, houve aumento da produção científica nacional, o que ocorreu de forma associada à sua desconcentração do eixo Sudeste e Sul. É possível verificar, de uma forma geral a participação ampliada de todas as macrorregiões na produção científica do país. As regiões Nordeste e Norte, que em 2000, eram caracterizadas pela predominância de microrregiões com atividade científica nula, passaram a apresentar maior participação de suas localidades na publicação de artigos científicos de impacto internacional. No Centro-oeste também foi verificável um aumento do número de microrregiões com atividade científica ativa, o mesmo pode ser considerado para as regiões Sudeste e Sul, nas quais a densidade científica regional, já percebida em 2000, foi aumentada no ano de 2010.
Tabela 44: Grupos de microrregiões segundo seu nível de atividade científica e sua representatividade no total de localidades, na população e no PIB nacionais - 2010
Artigos por milhão Hab. Número de
microrregiões % Brasil % POP % PIB
0 203 36,4 13,6 5,7 1-30 147 26,3 19,3 15,3 31-100 93 16,7 13,6 12,9 101-500 90 16,1 38,7 42,0 >500 25 4,5 14,8 24,1 Total 558 100,0 100,0 100,0
Fonte: Elaboração própria a partir de ISI e Ipeadata.
O grupo formado pelas microrregiões sem atividade científica registrada, diferindo do que se verificou em 2000, é constituído agora por uma parcela bastante menor das microrregiões avaliadas, representando 36% das observações em 2010, como mostra a Tabela 44. Esse grupo perdeu representatividade em termos da população e da renda no país. Por consequência, os grupos com atividade científica mais intensa se tornaram mais densos, sendo que na Figura 4 e na Tabela 44 é possível observar um total de 105 localidades com mais de 100 artigos publicados por milhão de habitantes, representando 21% das microrregiões. Em 2000 esse número foi de 34 microrregiões, como visto acima. Tal qual o esperado, esse grupo permanece concentrando a maior parte do PIB brasileiro.
Esse quadro mostra que o crescimento da atividade científica no Brasil foi baseado também no seu espalhamento ao longo do território nacional. Trata-se de um reflexo claro da expansão verificada no sistema universitário brasileiro, principalmente no que tange às universidades federais, que lideram a pesquisa científica no país. Desta forma, tem-se que a redistribuição do ensino superior ao longo do território foi, consequentemente, acompanhada de um espalhamento da pesquisa universitária resultando na ampliação e na desconcentração regional das publicações científicas. Esse claro processo de desconcentração da atividade científica entre 2000 e 2010 pode ser ilustrado pelo Gráfico 6, que apresenta o índice de Gini calculado para o número de artigos científicos publicados por residentes nas microrregiões brasileiras nesses dois anos. Logo, trata-se de um coeficiente de Gini Regional Científico para o Brasil26.
26
Faz-se necessário considerar que o total nacional de artigos considerados para o Coeficiente de Gini Regional Científico assume a possibilidade de dupla contagem, uma vez que um artigo com autores oriundos de localidades distintas são contados uma vez em cada uma delas.
Gráfico 6: Concentração regional da atividade científica no Brasil segundo o Índice de GINI - 2000 - 2010
Fonte: Elaboração própria a partir de ISI.
Como não poderia ser diferente, o valor para o Coeficiente de Gini indica uma redução na concentração da atividade científica no país. No entanto, mesmo com a maior abrangência desta atividade ao longo do território nacional, a disparidade regional ainda é alta. Isso é um resultado do desequilíbrio na intensidade científica entre as microrregiões avaliadas. Em 2010, 350 microrregiões apresentaram entre 0 e 30 artigos por milhão de habitantes. Para que se tenha uma ideia da dimensão deste valor, a média para as microrregiões brasileiras foi de 111 artigos por milhão de habitantes naquele ano. Por outro lado, apenas 25 microrregiões, número que representa 4,5% do total nacional, constituíam o grupo de localidades com mais de 500 artigos publicados por milhão de habitantes. Tal disparidade mantém o patamar de concentração da atividade científica ainda elevado no território nacional, embora se observe sua tendência a redução nos últimos anos, sobretudo, com base na participação de regiões anteriormente sem atividade científica.
Faz-se necessário mencionar a possível relação entre a desconcentração regional da atividade científica e a desconcentração da atividade tecnológica. Como se verificou acima, os dois processos ocorreram simultaneamente ao longo da década de 2000, o que remete à proposição de Nelson e Rosenberg (1993) acerca da relação de indução mútua entre ciência e tecnologia. Logo, a maior abrangência regional da atividade científica pode ser identificada como um importante fator motivador da desconcentração regional da atividade tecnológica no país. De forma similar, a desconcentração da atividade tecnológica pode ter servido de estímulo para a aceleração da desconcentração regional da atividade científica. A comparação entre as Figuras 2 e 4 mostra ainda que a participação das microrregiões brasileiras foi mais intensa na atividade científica que na tecnológica no ano de 2010. Nesse sentido, é possível especular que a atividade tecnológica no Brasil, após 2010, tende a ser ainda mais
0,885 0,874 0,865 0,870 0,875 0,880 0,885 0,890 2000 2010 Gini Microrregiões
desconcentrada, uma vez que a atividade científica observada em boa parte das localidades sem registro de patentes pode gerar condições para que ela se desenvolva posteriormente.