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Findings  made  in  the  comparison  and  remarks  de  lege  ferenda

Capítulo 1

«Nova escola de Chicago»:

convite para um debate*

Introdução

O texto «Los Angeles and the Chicago school: invitation to a debate», escrito por Michael Dear em 2002, é construído a partir da crítica à antiga «escola de Chicago». O presente capítulo prolonga a discussão aí desen- volvida ao incorporar teorias mais gerais sobre o funcionamento das cidades a partir das questões da cultura e da política. Os nova-iorquinos in- clinam-se para a análise das classes, produção, desigualdade, mercados de trabalho duais e outros temas semelhantes – o que, para alguns, deriva de um marxismo secular. Os autores de Los Angeles (LA) são, em muitos casos, individualistas, subjectivistas e preocupados com o consumo e ou- tros afirmam-se também como pós-modernos. Já no caso de Chicago, sendo a maior cidade americana com uma população predominantemente católica, a atenção volta-se para aspectos diferentes, como as relações pes- soais, as famílias extensas, os bairros e as tradições étnicas. Dessa forma, os observadores são levados a focar a sua análise na realidade cultural e políti- ca da cidade, tendo em conta a sua forte diferenciação em subculturas. Neste capítulo propõem-se sete eixos fundamentais para a formulação de uma «nova escola de Chicago».

Um dos primeiros elementos a considerar é o facto de todas as cidades serem únicas, moldando parcialmente os seus residentes e sen-

* Este texto é uma tradução do inglês realizada por Ruy Blanes e Inês Versos. Sobre o projecto FAUI, http://faui.uchicago.edu/archive.html. Versões preliminares deste texto foram apresentadas na American Political Science Association (Chicago, a 3 de Setembro de 2004), no Chicago Extravaganza (7 de Julho de 2004, Preconference to City Futures) e a vários analistas urbanos que se encontram desde há vários anos a esta parte e que ofereceram um seminário conjunto na Primavera de 2005, http:/ /faculty.nl.edu/cspirou/preskoolers.html.

sibilizando-os para determinadas preocupações em desfavor de outras. O centro da análise aqui trabalhada tem por base a discussão da forma como um determinado conjunto de autores, influenciado pela sua vivência durante algum tempo nos subúrbios de Chicago, desenvolveu novas concepções a nível da investigação e teorização sobre cidades. A última secção deste trabalho é, pois, dedicada ao modo como a par- tir da conjugação dos contributos desses mesmos autores se poderá vir a constituir uma «nova escola de Chicago».1

Estas reflexões foram enriquecidas por recentes debates desenvolvi- dos nas escolas de Nova Iorque e Los Angeles, as quais se autodefiniram em clara oposição a um modelo antigo da escola de Chicago – a esco- la de Ernest Burgess, Homer Hoyt e outros. É um facto, como afirmam certos críticos, que alguns aspectos centrais dos velhos paradigmas de Chicago são hoje desadequados.2Nesse sentido, impõe-se uma nova e

melhor teorização – em particular no que se refere ao estudo das cidades e do fenómeno urbano. Contudo, é clara a disparidade que existe na co- munidade científica entre os que perfilham a possibilidade de cons- trução de uma nova escola de Chicago e outros críticos em cada costa dos Estados Unidos. Estes parecem não só ter compreendido mal a rea- lidade da cidade de Chicago, como construíram bases teóricas de apoio limitadas quer para as suas próprias análises, quer para as de outros. Como veremos, dadas as características peculiares de Chicago, uma re- flexão sobre esta última poderá vir a enriquecer a nossa teorização sobre cidades e sociedades um pouco por todo o mundo.

1 Os participantes na «Ainda-não-escola-de-Chicago de política urbana» divergem

claramente em vários pontos. A maioria prefere autodenominar-se como «escola», mas alguns preferem a designação de «conversação», «comunidade» ou outra expressão mais cautelosa. Este texto é individual e não representa necessariamente os pontos de vista de outros. No entanto, emergiu de muitos intercâmbios animados que reconhecemos nos terem ajudado a clarificar o nosso pensamento e a tornar-nos mais conscientes da forma como diferimos de pessoas noutros locais, assim como entre nós. Neste sentido, agradecemos a Bonnie Lindstrom, Clinton Stockwell, Costa Spiro, David Perry, Dennis Judd, Dick Simpson, Evan McKenzie, Joe McElroy, Larry Bennett, Michael Pagano, Rebecca Vreeland, Robin Hambleton, Valerie Johnson, William Grimshaw, William Sites e, pontualmente, Anirudh Ruhil, Eric Oliver, Janet Smith, Marilyn Ruiz, Melissa Marshall, Nicholas Theodore, John Hagedorn, John Pelissero, Ken Wong, Rebecca Hendrick, Robert Sampson, Andrew Abbott, Rachel Weber e Saskia Sassen pelas óptimas conversas (e não só) mantidas. Nas linhas que se seguem inspiramo-nos num livro sobre Chicago [Terry Clark et al., «Amenities drive urban growth», Journal of Urban Affairs, vol. 34, n.º 5 (2002): 493-515] e outros textos relacionados.

2Por exemplo, Brian Berry, que, entre todos, terá sido o mais eloquente, nomea-

As diferentes perspectivas relativas a cidades aqui apresentadas infor- maram importantes abordagens e conceitos-chave para a interpretação do mundo em geral. É o caso das obras de Saskia Sassen, Richard Florida e Michael Dear: The Global City (2001), The Rise of the Creative

Class (2002) e From Chicago to LA (2001), respectivamente. Estes três

livros fomentaram debates e alteraram agendas, tanto de analistas ur- banos como de autarcas e responsáveis governamentais. Não querendo menosprezar as virtudes destas obras, considere-se a forma como elas ilustram a realidade das cidades de Nova Iorque e Los Angeles.

Saskia Sassen (2001), por exemplo, analisa com acuidade o capital global, o investimento, a migração e processos relacionados, chegando a uma proposta controversa. A globalização, sugere, aumenta a de- sigualdade de rendimentos. Porquê? Não só os banqueiros de Wall Street têm um nível de rendimentos elevadíssimo, como contratam amas por valores irrisórios, motoristas e outros fornecedores de serviços particulares. Muitos deles são pessoas pobres, que deixaram o seu país de origem com destino a Nova Iorque. A sua imigração, sugere Sassen, gera mais desigualdade nos rendimentos em Nova Iorque e outras cidades marcadas pela globalização.

Richard Florida (2001 e 2005) argumentou de forma análoga com uma espécie de crítica dialéctica: algumas das cidades que tiveram o maior crescimento a nível da alta tecnologia inovadora aumentaram, em simultâneo, a desigualdade de rendimentos entre os seus habitantes. Uma tendência que procura demonstrar através da descrição detalhada da cidade de Austin e das urbes que rodeiam Silicon Valley.

Michael Dear (2001) enumera vários processos de transformação das cidades, tais como a fragmentação, o desenvolvimento de comunidades fechadas (vulgo «condomínios fechados»), a suburbanização, etc. O pro- cesso-chave, neste contexto, é o capitalismo. A maior parte da diferen- ciação das pessoas tem por base os seus rendimentos. Existe pouca dis- cussão sobre os subgrupos sem rendimentos (como os asiáticos, os mexicanos ou os profissionais liberais).

O conteúdo destas obras é, obviamente, mais extenso e complexo. Contudo, importa sublinhar que Sassen, Florida e Dear, nestas e noutras análises, sobrevalorizaram os rendimentos e os factores eco- nómicos como dinâmicas urbanas fulcrais. A consequência deste facto é a de que nenhum deles toma em consideração de forma aprofundada a política ou a cultura como conceitos centrais, embora associem as suas análises a preocupações morais articuladas em torno da questão das «pessoas de baixos rendimentos» ou da «desigualdade de rendimentos».

Neste sentido, omitem claramente a forma como as especificidades da cultura e da política podem redefinir a maneira como as pessoas esco- lhem viver e trabalhar. Sassen, na sua interpretação, privilegia explicita- mente o trabalho sobre o consumo; o trabalho explicaria formas de consumo como as amas, etc. Não se pretende aqui criticar aspectos con- cretos destes livros, mas sim assinalar que os seus autores partilham as limitações de uma parcialidade sistémica que deveria ser mais explícita.3

Partindo desta evidência, faz mais sentido denominar a «escola de Los Angeles» como a «abordagem pós-moderna da subcultura de Michael Dear/Mike Davis», pois muitos – se não a maioria – dos intelectuais e cientistas sociais de Los Angeles já não se enquadram nesse contexto.

Entre os vários pontos de interesse presentes nas obras destes autores de Nova Iorque e de Los Angeles elegem-se aqui alguns, confrontando- -os com a tradição de pensamento dos autores de Chicago. No âmbito desta última tradição, a política e a cultura são introduzidas, não como factores autónomos, mas sim como elementos causais centrais que inter-relacionam e redefinem o próprio significado de «económico» ou «desigualdade» de maneira muito mais diferenciada do que apenas em categorias de rendimentos de origem nacional ou global. O capitalismo e a desigualdade de rendimentos podem ser conceitos razoáveis para os economistas que rejeitam explicitamente qualquer preocupação analíti- ca pelas especificidades da política, da cultura ou das instituições. Porém, para outros cientistas sociais ou cidadãos, estes conceitos são de- masiado vazios, abstractos, vagos e soltos. Variam substancialmente de lugar para lugar e através do tempo. Para mais, a política e os valores cul- turais são elementos demasiado centrais e críticos para poderem ser ignorados através de designações como «visão do autor», «a minha pers- pectiva» ou qualquer expressão semelhante. Trata-se de uma estratégia demasiado solipsista, mesmo sendo comum entre os cientistas sociais e o público em geral.

Desde há muito que a cidade de Chicago retrata estas realidades tão diversas e abertamente conflituais, ao ponto de atrair visitantes como Max Weber (1958) (este escreveu que Chicago era como um homem

3Saskia Sassen escreveu The Global City em Columbia (2001). Mais tarde transferiu-

-se para a Universidade de Chicago e começou a dar uma maior atenção aos factores culturais e políticos, tais como a cidadania. Richard Florida cresceu em Newark e frequentou o Rutgers College e Columbia durante o seu doutoramento. Talvez eu seja mais sensível a estas questões por ter estado tanto em Nova Iorque como em Los Angeles (embora não como «nativo») e depois apreciado as diferenças a partir de Chicago. Este texto procura mostrar como estas são mais do que questões triviais.

cuja pele fora rasgada, do qual se podiam ver os órgãos vitais expostos) ou Saul Bellow (1977), que tratou de alguns desses aspectos na sua in- vestigação pós-graduada em antropologia.4 De facto, as pessoas que

visitam a cidade têm ficado perplexas com a sua política e cultura e muitas foram levadas a investigar essa realidade diversa. O estudo da política de Chicago é comparável ao trabalho de campo de um jovem antropólogo entre os aborígenes australianos: ensina-nos o relativismo cultural. Abana os rótulos, as categorias e as soluções políticas stan- dardizadas que nos chegam da política europeia ou norte-americana. Mas, perguntamo-nos, como e porquê?

Poucos foram os que associaram estas diferenças urbanas a métodos de análise. Contudo, há abordagens próximas das discussões que temos vindo a desenvolver, como as de Halle (2003), que distingue os autores de Nova Iorque e Los Angeles dos de Chicago, e as de Turley (2005), que invocam as culturas urbanas como complemento dos modelos eco- nomicistas. Já Janet Abu-Lughod (1999), comparando a realidade das cidades de Nova Iorque, Chicago e Los Angeles, acusa os teóricos abs- tractos da globalização de ignorarem as tradições históricas e culturais destas cidades, ao mesmo tempo que apela ao desenvolvimento de uma maior atenção à cultura política e ao seu funcionamento. Trata-se de uma crítica claramente defendida neste capítulo. Seguem-se aqui estes três autores quanto a vários aspectos; porém, procura-se indagar mais acerca de como é que estas cidades desenvolvem e alteram as suas cul- turas políticas ao longo do tempo com novas dinâmicas migratórias e conflitos políticos. Neste sentido, codificam-se as dinâmicas de mu- dança na cultura política para que estas possam ser adaptadas a outras cidades a nível global.

Este capítulo não corresponde a uma mera comparação entre três cidades (e diferentes concepções teóricas). A razão pela qual se apro- fundam as questões apresentadas decorre do facto de que um conheci- mento mais reflexivo quanto às nossas origens e ao porquê das mesmas nos poderá ajudar a articular formas de melhorar o conhecimento fu- turo. Noutras palavras, que variáveis-chave afectam as cidades, as suas dinâmicas sócio-económicas, as suas preocupações cívicas ou particu- lares, os seus líderes e programas políticos, os seus intelectuais e críticos? Ao comparar as cidades e algumas das suas mudanças fulcrais, pondo à

4Esta investigação inspirou directamente a sua obra Henderson the Rain King (2007

prova as particularidades (e limites) das nossas teorias e pontos de vista, é possível identificar diferentes perspectivas e a partir daí ver como e onde se poderão adaptar lições de diferentes cidades pelo mundo fora.

A globalização é uma das mais profundas forças revolucionárias do nosso tempo. Num certo sentido, parece arrastar-nos em direcção à uni- formidade. Contudo, gera uma contra-reacção. Por outras palavras, leva as pessoas a perguntar, por um lado, em que medida são diferentes das que se movem em Wall Street ou Hollywood e dos modelos vivenciais preconizados pelas mesmas. Por outro lado, como e porquê podem preservar o que nelas é distintivo, local, único e autêntico. Estas questões são partilhadas pelos residentes em cidades um pouco por todo o mundo. Ao serem confrontados com novas forças globais, per- guntam-se pelo que é que vale a pena lutar, porquê e como. Que tipos de respostas existem para estas perguntas?

Chicago, propomos, é uma cidade mundialmente importante, já que as suas principais dinâmicas políticas foram, desde há muito tempo, o clientelismo e o patrocinato — as quais nos últimos anos foram rebaptizadas como suborno e corrupção. Estas práticas são co- muns a Taipé, Nápoles, Bogotá, Lagos e, em última instância, à maio- ria das cidades do mundo. Confrontar este passado de forma aberta e considerar como é que esta herança pôde (e pode) mudar é actual- mente a característica mais saliente da agenda política das diferentes instâncias governativas: nacional, regional e local. Trata-se de um ponto anterior a qualquer conceptualização e define-a: é o caso, entre outros, do conceito de «desenvolvimento» nas suas múltiplas e pos- síveis formas.

Tendo por base a ideia de que a realidade da cidade de Chicago res- ponde a estas questões gerais, a mesma é investigada como um estudo de caso, assinalando as características comuns a outras cidades, refor- çando, assim, a existência de padrões semelhantes. Ou melhor, ao ex- plorar as estruturas profundas e vitais que «guiam» Chicago, procura-se generalizar. Se cada cidade é única, deriva da combinação única, em cada lugar, de processos gerais. Todavia, atendendo aos processos gerais e, simultaneamente, à forma como estes se combinam para gerar uma especificidade, pode-se não só compreender melhor uma cidade, como oferecer lições para o estudo das restantes.

Este exercício combina várias formas de análise. Em primeiro lugar, considera-se a teoria política normativa desde Platão e Aristóteles, ao questionar-se qual era a melhor forma de vida, seguindo depois uma versão mais positiva, comparativa e relativista desta questão essencial.

Trata-se da perspectiva proposta por Karl Marx, Vilfredo Pareto, Emile Durkheim e Max Weber, os quais sugeriram que cada sistema tinha as suas próprias regras (burguês, aristocrático, burocrático, etc.). Na análise aqui desenvolvida recorre-se também ao que Karl Mannheim designou como Wissensoziologie, isto é, a sociologia do conhecimento, incorpo- rando as reformulações operadas a este nível por Robert Merton. Este autor sugere a construção de teorias de médio alcance que incorporem proposições concretas e que questionem precisamente como e por que é que as pessoas dão atenção a umas coisas e ignoram outras sob a in- fluência de factores como o grupo etário, a origem social, a religião, entre outros. Por fim, adoptam-se as perspectivas sobre a influência dos factores culturais, tal como foram formuladas por Mary Douglas e Aaron Wildavski, estendendo assim o objecto da análise à cultura políti- ca, observando até que ponto esta redefine, concretamente, o que é legí- timo, desejável ou corrupto na vida e na política (Thompson, Ellis e Wildavsky, 1990).

Todos os indíviduos, tal como as cidades, são únicos. Esta ideia leva- da ao extremo tornaria impossível a existência de escolas de pensamen- to, mas só de indivíduos. Nas páginas que se seguem exploram-se estas tensões, sublinhando que na maioria dos lugares – pelo menos em Chicago, Nova Iorque e Los Angeles – se encontram evidências de todas as grandes perspectivas aqui discutidas. Se a escola de Los Angeles de Mike Davis (1990) ou Michael Dear (2001) tem um cariz pós-moder- no, muitos são certamente os intelectuais, cientistas sociais e analistas urbanos desta cidade que discordam das linhas orientadoras desses au- tores – mesmo que não se preocupem sequer em discutir estas questões (muitos ignoram este debate, considerando-o simplesmente ridículo). Assim acontece, por exemplo, com Mark Baldassare (2002), o qual es- tudou atentamente as especificidades da Califórnia do Sul, com Robert Fried e James Danzinger, que escreveram sobre as cidades de um ponto de vista global, com Elinor e Vincent Ostrom, ao descreverem a pro- visão de água como uma escolha pública distintiva, e, finalmente, com Lawrence Bobo, com as suas aprofundadas reflexões sobre o conflito étnico. Estas abordagens não encaixam, claramente, na «marca» Dear/LA. De facto, a tendência pós-moderna é, provavelmente, parti- lhada por uma pequena minoria de cidadãos de Los Angeles. Por outro lado, a diversidade entre os nova-iorquinos é tal que praticamente nem merece comentário. No entanto, a hipótese contrária – a de que as dife- renças individuais são aleatoriamente distribuídas sem qualquer relação com o lugar – também parece implausível.

Há vários factores que fazem de Chicago uma cidade diferente e que transformam a maneira de analisar as cidades e, em especial, as suas políticas:

1 – Trata-se da maior cidade dos EUA com uma forte tradição católi- ca; o número dos protestantes brancos situou-se sempre abaixo de 20% da população ao longo do século XX. A tradição católica de Chicago foi,

no entanto, fortemente abalada na eleição de Harold Washington em 1984, que mobilizou pela primeira vez os afro-americanos de Chicago. O fluxo contínuo de imigrantes de todas as partes do mundo transfor- mou o carácter dos seus bairros. Contudo, a distinção étnica e cultural dos diversos bairros mantém-se forte e é cada vez mais legitimada po- liticamente nesta cidade do que noutras cidades dos EUA. Porquê?

2 – O catolicismo, ao reforçar as relações pessoais concretas, ajudou a legitimar as paróquias, as escolas e os bairros de Chicago. Para- lelamente, há também que ter em conta que os líderes locais sempre foram particularmente poderosos e que as políticas étnicas, o clientelis- mo/patrocinato e a distribuição material de incentivos firmaram-se como os recursos fulcrais. Os leitmotifs wagnerianos, as estruturas pro- fundas levi-straussianas: Don’t make no waves, don’t back no losers; We don’t

want nobody nobody sent; «Chicaga ain’t ready for reform».5

3 – A existência de bairros com um forte sentimento de pertença con- tribuiu para a criação de uma Chicago racial e etnicamente segregada: na política habitacional pela existência de uma listagem étnica de can- didatos; nas marchas e na autonomia ferozmente defendida dos bairros. Tradicionalmente, os governantes decidiam quanto à configuração dos seus bairros, atribuindo ou negando licenças de construção, por vezes indefinidamente. Um facto impensável numa cidade com uma extensa associação de representantes com um bom ethos governativo.

4 – A cidade ergueu-se na fronteira e cresceu tão rapidamente que de- senvolveu uma cultura de elite fraca, incentivando o homem comum. Uma aceitação generalizada da frontalidade e pouca «elegância» como rasgos de personalidade distintivos desembocou numa atitude de re- jeição de estilos e classes «nobres» e encorajou o aparecimento de figu- ras populares, como Hinky Dink Kenna, Bathhouse John e Fast Eddy Vrdolyak – três poderosos líderes locais. Esta atitude é evidente nos dis- cursos dos mayors Daley I e II (pai e filho). Estes falavam orgulhosa-

5As duas primeiras citações são títulos de livros de Milton Rakove (1975 e 1979); a

terceira é um slogan utilizado em meetings políticos, à entrada do edifício da Câmara, e estampado em T-shirts.

mente num inglês Chicago public school (CPS), tal como fazem muitos professores da CPS. É comum perguntar-se aos habitantes da cidade que falam o que noutros locais é designado por «americano geral» qual