Vingren fora convidado pelos diáconos da Igreja Batista do Pará para dirigir os cultos de oração nas casas. O foco da liturgia continuava sendo o batismo com o Espírito Santo, a despeito das reprimendas. Na casa de Celina Albuquerque5 os cultos se seguiam com o
aumento da freqüência de membros da Igreja Batista do Pará, até que no dia 13 de junho de 1911, um evangelista que não concordava com a nova doutrina convocou um culto extraordinário na igreja para definir a situação. Vingren (2000, p. 41) lembra das palavras do evangelista ao se dirigir à congregação: “Todos os que estão de acordo com a nova seita, levantem-se. Dezoito irmãos se levantaram e foram imediatamente cortados da comunhão da igreja”. Da dissidência, Vingren é excluído da igreja e leva consigo um número considerável de líderes e alguns membros da Primeira Igreja Batista do Pará.
Almeida (1977, p. 55) afirma que Vingren e Berg atuaram silenciosamente por mais de três meses, difundindo doutrinas pentecostais na congregação e nas reuniões de oração no porão da igreja, até que no dia 01 de junho de 1911, Celina Albuquerque manifestou o fenômeno extático de falar em línguas – a glossolalia, fato que tornou insustentável a presença de Gunnar e Berg na PIBPA. Almeida confirma a data, supracitada por Vingren, e acrescenta que após o culto de oração, o evangelista Raimundo Nobre, apoiado pelos diáconos presentes, convocou uma sessão extraordinária que ficou registrada na ata n. 222 de 13-06-1911. A reunião foi presidida por Antonio Belo de Lima, tendo como Secretário José Joaquim de Lima Antunes.
Em seguida o irmão secretário pediu a palavra verberando contra o procedimento dos irmãos solidários com os missionários pentecostais, que após o culto desapareceram do templo fugindo para um lugar ignorado, deixando de dar apoio a seus partidários.
5 Primeira pessoa a experimentar o fenômeno do êxtase do falar em línguas estranhas em solo brasileiro,
segundo relato de Gunnar Vingren, confirmado por Almeida. A congregação da Igreja Batista do Pará se reunia na casa de Celina Cardoso de Albuquerque. A congregação era conhecida como Congregação da Igreja da Cidade Velha.
O irmão Antunes pediu a todos que aderiram ao movimento pentecostal que se manifestassem para a Igreja exclui-los por incompatibilidade doutrinária. Levantaram-se 13 pessoas: José Plácido da Costa, que ocupara o cargo de moderador até aquela sessão; Manuel Maria Rodrigues, ex-secretário, José Batista de Carvalho, ex-tesoureiro; Antonio Mendes Garcia, todos estes diáconos: Lourenço Domingos, João Domingos, Maria dos Prazeres Costa, Maria Pinto de Carvalho, Alberta Ribeiro Garcia, Manuel Rodrigues Dias, Jerusa Rodrigues. O irmão secretário depois de anotar os esses nomes, deixou para o fim os nomes das irmãs Celina Cardoso de Albuquerque e Maria de Jesus Nazaré, que ao mencioná-los fez com este aditivo: “as profetizas” e os chefes da seita, Gunnar Vingren e Daniel de tal, que não compareceram a sessão (Almeida, 1977, p. 56).
Um mês depois, em julho, a Igreja Batista no Pará expulsou mais três membros e reconheceu que quatro congregados que freqüentavam a congregação na Cidade Velha também haviam aderido às doutrinas pentecostais. Com esses excluídos Vingren e Berg tinham, então, seus correligionários para fundar o movimento pentecostal Missão de Fé Apostólica, embrião da Igreja Assembléia de Deus. A partir do dia 18 de julho de 1911 os cultos pentecostais sob direção de Gunnar Vingren passaram a ser realizados na casa de Celina e Henrique Albuquerque, na ex-congregação da Primeira Igreja Batista do Pará.
Almeida (1977, p. 57) denuncia que, mesmo depois do cisma, Vingren e Berg continuaram a “assediar” os membros da Igreja Batista do Pará. Das incursões conseguiram arrebanhar, ainda, mais dez membros para o movimento pentecostal recém criado. Na seqüência a Igreja Batista perdeu mais duas congregações: Vila Coroa e Vila Teta. Almeida considera que Vingren e Berg enganaram a PIBPA, tal afirmação justifica-se porque:
1. Vingren apresentou-se, para fazer parte como membro da Primeira Igreja Batista do Pará, na qualidade de irmão em Cristo da mesma fé e ordem, afirmando ser pastor Batista na América do Norte. Portanto, omitiu seu desligamento e não apresentou credenciais, carta de apresentação ou carta demissionária da igreja de origem. De acordo com a ata n. 2166 de 03-03-1911 a sessão ordinária aprovou o pedido de
inclusão de Vingren como membro da PIBPA por unanimidade, mas ressaltou que a igreja aguardaria a carta demissionária de Gunnar que viria da América do Norte. Daniel Berg foi admitido como membro da PIBPA, somente nove dias após, em sessão extraordinária, registrada na ata n. 217 de 12-03-1911. Lê-se, na ata 217, a mesma ressalva feita para a aceitação de Gunnar Vingren. Ambos ocultaram que
estavam no Brasil por conta própria e que não traziam suas cartas porque haviam rompido com a igreja local. Não eram batistas que professavam a mesma fé, mas, desde o encontro com Justus Nelson, se apresentavam como tal.
2. Como missionários, que se diziam ser, deveriam iniciar seus trabalhos “através de evangelização pioneira, como era aconselhável, como fizeram as demais denominações no Brasil, que tiveram uma luta heróica para conseguir os primeiros frutos e assentarem as bases de suas igrejas” (Almeida, 1977, p. 52).
3. Agiram na ausência do pastor Eurico Nelson, que viajara no mês de abril de 1911 para o Piauí, cerca de um mês depois que a igreja recebeu Vingren e Berg. A igreja estava em um clima de aparente paz depois de muitas divergências e substituições consecutivas de suas lideranças. Não havia o menor indício de que os recém-chegados tinham planos de converter a Primeira Igreja Batista do Pará em uma igreja pentecostal. Com Eurico Nelson distante da igreja e com a persuasão do moderador e o secretário da igreja à doutrina pentecostal, Vingren e Berger conseguiram espaço para atuarem nos cultos, nas reuniões de oração e nos trabalhos da congregação da Cidade Velha.
Eurico Nelson só tomou conhecimento do cisma e dos graves prejuízos para a obra batista no Pará no final de agosto, quando já funcionava uma nova igreja pentecostal onde antes era a congregação batista na Cidade Velha. No saldo, a Igreja Batista sofreu uma perda considerável da liderança: dos 09 diáconos, 04 mais o moderador se converteram ao pentecostalismo, mas a maioria dos 170 membros permaneceu no primeiro momento. Em 1913 o número de membros da Primeira Igreja Batista do Pará decresceu para 132 enquanto os da Assembléia de Deus cresceu para 140 (Almeida, 1977, p. 59; cf. Vingren p. 71). Após o cisma na PIBPA, os protestantes da região despertaram para o potencial perigo que o movimento pentecostal poderia trazer às suas igrejas. Outra fonte de oposição ao movimento pentecostal vinha da igreja católica.