Não menos importante para o desenvolvimento do Projeto Feira de Matemática foi a infra-estrutura e os recursos materiais disponibilizados pelo financiamento da FAPESP. Neste trabalho, consideramos imprescindível destacar a importância dos recursos disponibilizados no Projeto Feira de Matemática pois isto nos reporta a uma reflexão sobre as reais condições de trabalho dos professores.
Não se constitui uma novidade ou uma realidade pouco conhecida a precarização do trabalho docente em nosso país. Contudo, somente nos inserindo no contexto real do trabalho docente, no interior das escolas, das salas de aula, é que podemos conhecer de fato o cotidiano do professor e então nos deparamos com a realidade vivida por ele. Realidade esta marcada pelas precárias condições de trabalho, tema que tem sido reconhecido e abordado pela literatura profissional (Nacarato et al., 1998; Sampaio e Marin, 2004; Lüdke e Boing, 2004).
Neste sentido, queremos mencionar uma importante discussão de Sampaio e Marin (2004) sobre a precarização do trabalho escolar expressa nas práticas curriculares desenvolvidas no interior da escola. Dentre os principais aspectos discutidos pelas autoras destacamos aqui a questão salarial e as condições de trabalho dos docentes.
Como bem coloca as autoras, o baixo salário recebido pelo tempo de dedicação às suas funções é uma das questões mais aparentes no que se refere à precarização do trabalho do professor e além disto as condições de trabalho, sobre a qual destacamos a sobrecarga horária de trabalho, o número excessivo de alunos por turma e a rotatividade de professores, é outro fator fortemente incidente sobre a precarização do trabalho docente (Marin e Sampaio, 2004).
Vale ressaltar que estes aspectos estão bastante relacionados entre si, afinal, para complementar sua renda, o professor precisa assumir jornadas de trabalho duplas e até triplas trabalhando em mais de uma escola e, além disto, o excessivo número de alunos por turma intensifica a sobrecarga de trabalho do professor. Evidentemente, quanto maior é o número de alunos numa classe, maior é trabalho do professor, por exemplo na correção de trabalhos e atividades. Além disto, a qualidade de trabalho docente em sala de aula é fortemente prejudicada, uma vez que o professor não tem condições de acompanhar efetivamente o trabalho de cada aluno, não consegue identificar as necessidades individuais dos estudantes e assim não pode realizar um trabalho de melhor qualidade.
Como descrito no capítulo 2, no Projeto Feira de Matemática os professores recebem uma bolsa e têm disponíveis materiais de consumo e equipamentos (computadores etc) para realização das atividades no Laboratório de Matemática. Tais condições foram fundamentais para que o projeto pudesse ser desenvolvido conforme podemos observar nos relatos dos professores:
(...) importantíssimo é o material que se tem, por exemplo, na escola você vai trabalhar, você não tem material. (...) Então, material muito limitado, você não tem assim, (...) é o caso da borrachinha que eu falei lá, né... por exemplo, se fosse aqui no projeto a gente iria fazer o que?: ‘bom gente, espera aí, vamos pegar um EVA, vamos pegar o papel quadriculado, vamos pegar os discos da torre de Hanói’, aqui a gente pega.. os dados, junta, faz um colorido ali, a gente brinca.. e a gente faz a coisa acontecer. (Ent. – Prof. Carlos)
Então os recursos que a gente tem ali, se você precisar fazer um gráfico, se você precisar de um material como foi a feira no final do ano... então isso é muito estimulante, você tem realmente condições de desenvolver um projeto a que você se propõe a fazer. Porque na sala de aula comum, é impossível? Não! Não é impossível, mas as dificuldades são presentes... e eu não garanto que um projeto, por exemplo, do nível que nós fizemos saísse em sala de aula. (Ent. – Prof. Fernando)
Como podemos ver nos trechos acima, é absolutamente evidente que a disponibilidade de recursos, equipamentos e material didático constituiu uma condição fundamental para o desenvolvimento do projeto pois eles possibilitaram a realização de um trabalho efetivamente diferenciado, ou seja, para que de fato se criasse um ambiente de exploração e investigação foi imprescindível a utilização dos recursos ali disponíveis: o caderninho de atividades fotocopiadas para os alunos, a possibilidade de acesso à internet para realização de pesquisas, computador para criação e exploração de gráficos, material para confecção dos jogos matemáticos etc.
Outro fator destacado pelos professores foi o número reduzido de alunos nas oficinas (aproximadamente 15 alunos). Como já descrevemos no capítulo 2, cada turma foi dividida em duas para participarem das oficinas, assim metade da turma participava das oficinas numa semana e a outra metade participava na outra, portanto quinzenalmente.
Para que os professores pudessem acompanhar e apoiar efetivamente o trabalho dos alunos, além dos recursos disponíveis, esta quantidade reduzida de alunos em relação à sala
de aula regular foi condição determinante, como descreve um dos professores no trecho a seguir:
A questão do número de alunos é importantíssimo, é simplesmente impossível você fazer um trabalho bem feito com 35 alunos de quinta série, é impossível! Porque eles são muito desassossegados, é próprio da fase né... são muitos interesses ali... Então o número de alunos, no máximo 15 que é o que nós temos tido isso é importantíssimo, isso é um ponto fundamental, né... que faz com que um trabalho que você se propõe a fazer realmente dê certo, e é a questão também dos recursos, né... o material, a assessoria (...) (Ent. – Prof. Fernando)
Além destes, outro fator foi imprescindível para a realização do projeto: a bolsa dos professores. É o que afirma uma das professoras no trecho seguinte:
Eu acho que, a questão da bolsa, tem gente que fala ‘ah, a bolsa não é importante’, mentira, a bolsa é importante, a gente vive um mundo capitalista né, a sociedade gira em torno do dinheiro (...) (Ent. – Profª. Helena)
A participação dos professores no projeto demanda um tempo considerável, pois além do trabalho com os alunos nas oficinas é necessário dedicarem tempo para preparação das aulas, elaboração de novas atividades, participação nas reuniões de equipe, nos encontros de grupo, enfim, se os professores não recebessem uma bolsa, que serve como uma ajuda de custos, dificilmente conseguiriam permanecer dedicando-se ao projeto.