Não só muito importante mas essencial para o desenvolvimento do Projeto Feira de
Matemática foram a confiança e o respeito mútuos na relação professor-pesquisador. Estas
foram características notáveis que permearam as relações em todo o trabalho do grupo no projeto.
Sobre isto, Boavida e Ponte (2002) reforçam com muita propriedade a necessidade da confiança nos processos colaborativos. De fato, em nosso projeto foi evidente a importância da confiança para que professores e pesquisadores pudessem efetivamente desenvolver um trabalho de equipe, em que estivessem presentes o diálogo e a troca de conhecimentos, experiências e opiniões e que para que isto fosse possível, o respeito mútuo foi um elemento primordial nas interações.
Desde o início do processo de implementação do projeto, tivemos o cuidado de, enquanto acadêmicos3 e pesquisadores, colocar-nos como colaboradores, oferecendo a nossa
contribuição, sempre sugerindo e não impondo, idéias, conhecimentos etc. Buscamos em todo o tempo incentivar os professores a questionarem, criticarem, modificarem as
3 Vale lembrar que ao iniciarmos o Projeto Feira de Matemática eu participava ainda como aluna de graduação
atividades que estavam sendo desenvolvidas nas oficinas4, pois contávamos com a
experiência e colaboração deles para que pudéssemos analisar e reformular essas atividades buscando adaptá-las ao contexto real da sala de aula. Assim, o reconhecimento do saber prático dos professores constituiu uma das principais características deste projeto, o que se expressa nos diversos exemplos de negociação entre os pesquisadores e os professores: um deles refere-se à decisão de iniciarmos o trabalho nas oficinas com apenas um projeto por turma sendo que a proposta inicial era que, em cada turma, os diferentes grupos de alunos desenvolvessem projetos distintos, o que foi considerado inviável pelos professores; também vale destacar que a elaboração de atividades complementares focadas em conteúdos matemáticos, embora proposta no início do projeto, ocorreu apenas a partir do seu segundo ano quando os próprios professores perceberam a relevância destas atividades e se propuseram a elaborá-las.
Também da parte dos professores o respeito e, inclusive a admiração, para conosco eram evidentes. Portanto, podemos dizer que o respeito mútuo foi um elemento sempre presente no grupo e com isto a confiança foi conquistada de maneira que os próprios professores explicitam isto, como vemos nos trechos a seguir:
O entrosamento foi muito rápido, não foi...? No começo assim, ainda mais ou menos com o Marcelo porque, sei lá o que ele vai pensar, né... Mas isso passou muito rápido e a gente passou a ter plena confiança de contar realmente, sem colocar nada em cima do que acontecia na aula, de perguntar quais eram as dúvidas, se deu certo, se não deu certo, se eu estou fazendo errado, sem medo, não tinha medo nenhum, nenhum, nenhum... (Ent. – Profª. Daniela)
(...) temos um grupo de professores excelente e compromissados e nosso orientador profº Marcelo é também nosso amigo o que nos deixa seguros para trabalhar. (Rel. – Profª. Daniela)
Ressaltamos aqui a relevância deste tema ao realizarmos investigações envolvendo o trabalho, a prática dos professores, pois como afirma Goodson (1995), é comum a ansiedade, e até mesmo a insegurança, para a maior parte dos professores com relação ao seu trabalho docente. Sendo assim, expor sua prática, seu próprio trabalho num contexto de pesquisa é bastante problemático para o professor. Portanto, evidentemente a confiança é primordial neste tipo de investigação. Aqui vale mencionar que por esta razão foi decidido que apenas
4 Naquele momento inicial, os projetos e atividades implementados pelos professores nas oficinas eram feitos por
os alunos de Iniciação Científica acompanhariam as oficinas do Projeto Feira de Matemática e não o coordenador.
Neste sentido, consideramos sobremaneira importante conhecermos a percepção dos próprios professores de nossa investigação a respeito da confiança desenvolvida entre nós, pesquisadores e professores. Do nosso ponto de vista, este aspecto é claramente evidente pelo fato de que, além de nos abrirem o espaço da sala de aula (as oficinas) permitindo que acompanhássemos suas práticas, e também interagindo com eles, para depois refletirmos juntos sobre o trabalho em sala de aula, esses professores se mostraram satisfeitos com isto, conforme podemos comprovar nos depoimentos a seguir:
(...) eu gostava muito quando você participava da aula, gostei quando o Marcelo entrou, (...), porque sentou ali com os alunos, discutiu com eles, então assim, eu percebi que... que a gente não é sozinho, a gente é uma equipe (...) a gente formou um grupo assim muito forte. (Ent. – Profª. Daniela)
Ah, eu gostava mais quando você vinha, era melhor ainda porque você trazia mais exemplos pra eles ali né, eles percebiam (...) pra mim foi ótimo... eu não tenho vergonha, eu não ficava acanhado (Ent. – Prof. Tiago)
Além de o respeito mútuo ter sido um elemento importante para conquistarmos esta confiança, assim como Boavida e Ponte (2002), acreditamos que ela “está, naturalmente, associada à disponibilidade para ouvir com atenção os outros, à valorização das suas contribuições e ao sentimento de pertença ao grupo” (p. 48). De fato, a partir das falas dos próprios professores, podemos dizer que estes elementos também estavam presentes em nosso grupo:
(...) aqui [no projeto] você tem abertura pra tudo que você quiser (...) se você não sabe você vai perguntar...tudo de novo que a gente fez, tudo que apareceu de novo pra que a gente fizesse, a grande maioria a gente não sabia fazer, então a equipe ajudou muito, você ajudou muito... (Ent. – Profª. Daniela)
Aproveitamos as reuniões para trocas de experiências e relatamos as nossas dificuldades. Também recebemos orientações para a próxima etapa do trabalho. (Rel. Maio/2003 – Profª. Helena)
(...) eu acho que o projeto dá essa liberdade pra gente, pra fazer... e se eu tiver alguma idéia também pra expor nas reuniões eu me sinto totalmente à vontade, sem constrangimentos. (Ent. – Profª. Kátia)