3.2.1. Águas referenciadas
Para além dos Recursos Classificados na bacia em estudo registaram-se ainda outras captações referenciadas no Novo Aquilégio como “águas especiais” (Bastos et al., 2002). Neste sentido foram identificadas as nascentes de Sezures em Penalva do Castelo (sulfúrea), a da Fonte do Loreto em Santa Comba Dão (não sulfúrea), a da Fonte de São Francisco em Viseu (não sulfúrea) e a Fonte do Fail (não sulfúrea, nas imediações da cidade de Viseu).
3.2.1.1. Sezures- Penalva do Castelo
Na margem direita do Rio Dão, junto à povoação de Campina ocorre entre um batólito de granito “muito são” ocorre uma pequena nascente. Ao longo do trajeto da “captação” a água deposita “biogeleia” similar à das sulfúreas (Figura 3.7).
Figura 3.7 – Nascente de Sezures, captação de pequeno caudal.
O acesso à nascente é possível apenas de forma pedonal e na povoação não existe qualquer indicação da nascente. A chegada à nascente foi graças a um habitante que teve a gentileza de nos acompanhar e que no trajeto ia melhorando o acesso (corte de arbustos e vegetação alta).
Em Bastos et al. (2002) a água de Sezures surge classificada como sulfúrea sódica. Segundo informações populares, algumas pessoas usam a água para problemas do aparelho digestivo, mas também da pele (popular-guia que indicou a nascente).
Em termos de caudal na recolha de campo realizada em 29-7-2014 registou-se um caudal de aproximado de 180 L/h (0,05 L/s), a leitura efetuada enquadra-se entre os caudais referenciados por Morais (2012) que indica caudais de 252 L/h (0,07 L/s) e de 140 L/h (0,04 L/s). Naquela data após colheita de amostra de água, registaram-se também os valores de pH (de 7,42) e de Condutividade (de 602,4 µScm–1 para temperatura de 15,7ºC).
Tendo em conta a ordem de grandeza dos parâmetros obtidos da leitura portátil, foi feita a recolha para análise mais aprofundada/detalhada do recurso. Neste sentido, foi feita uma análise físico-química no Laboratório do LNEG, por forma a clarificar a tipologia do recurso em que os resultados constam no Item 3.4.
3.2.1.2. Fonte do Loreto – Santa Comba Dão
No centro da cidade de Santa Comba Dão surge uma água referenciada na bibliografia por Francisco Tavares em 1810 (in Teixeira, 2015) entre “Calçada do Calvário e a Capela da Senhora do Loreto”, uma água de “tão mau gosto que não se aproveita para uso de bebida”. Na realidade a água da “Fonte do Loreto” (Figura 3.8) é pouco utilizada pelos habitantes de Santa Comba Dão, não só pelo seu parco caudal, mas porque “não presta, desarranja a barriga menina”- informa uma moradora na vizinhança do alto dos seus 90 anos.
A construção da “captação”- bica com data inscrita de 1873, é pouco anterior a captação do Granjal (1877), o que pode ser indicador do interesse à época, de se criarem infraestruturas que facilitassem a captação e uso das águas (nas proximidades da Fonte do Loreto, num raio de 300 metros, foram construídas pelo menos mais 3 captações na mesma época que permanecem até aos dias de hoje).
Salienta-se ainda que contrariamente às “termas a céu aberto” do Granjal, a Fonte do Loreto não dispõe de “tanques” para “banhos”, o que desde então se entenderia que o tipo de aplicações das águas seria distinto.
Em termos das características do recurso, do levantamento feito in loco os parâmetros de pH (6,2) e Condutividade (266,4 µScm –1) não indicaram para um recurso com extenso circuito,
contudo também não se enquadra nas águas freáticas “clássicas”, pelo que para referência futura foi feita a colheita e análise detalhada em termos físico-químicos.
Relativamente ao fluxo que acorre na captação, à data de 03-05-2015 registou-se um caudal de 0,03 L/s.
Figura 3.8 – Fonte do Loreto- Santa Comba Dão.
3.2.1.3. Fonte de S. Francisco - Viseu
A Fonte de S. Francisco (Figura 3.9) está classificada como Monumento Nacional. Alguns moradores informaram que em outros tempos a Fonte era muito frequentada e o caudal mais pronunciado, mas desde a construção do Centro Comercial na envolvente a fonte “nunca mais foi a mesma, nem no sabor”.
Modelo geohidráulico das águas sulfúreas da bacia do Rio Dão
47 Figura 3.9 – Fonte de São Francisco em Viseu- detalhes arquitetónicos.
Ainda que se tenha consideração a “contaminação” do recurso, julga-se útil a inclusão dos dados para os mapas desenvolvidos nos itens seguintes, ainda que a recolha de amostra para análise detalhada tenha sido descartada.
3.2.1.4. Fonte do Fail - Viseu
A aldeia do Fail é uma das povoações do concelho de Viseu. Junto à Estrada Nacional n.º 2, foi construído um fontanário para facilitar a recolha da água que ali acorre (Figura 3.10).
Figura 3.10 – Imagem geral da Fonte do Fail em Viseu (a partir de Google Earth, 2017)
A Fonte do Fail é referenciada por Bastos et al. (2002) como sendo muito procurada pelos transeuntes para se abastecerem pela sua leveza e “frescura”.
Em 12 de julho de 2014, quando foi feito o levantamento dos pontos de água da bacia, registaram-se os seguintes parâmetros: caudal de 0,15 L/s, condutividade de 108,50 µScm-1,
pH de 5,16 e temperatura de 17 °C. A fonte do Fail corresponde ao ponto de água n.º 125 cujas características estão expressas na Tabela A1.III em Anexo.
Morais (2012) apresenta uma análise físico-química de uma “nascente usada em abastecimento público” que se julga corresponder à Fonte do Fail. Assim como Calado (2001) faz referência aos dados de uma “água comum” no Fail (com base nos dados de Almeida
Almeida, 1975) que em comparação com os registados no levantamento entende-se que será o mesmo ponto de água. Neste sentido, dada a limitação de recursos, entendeu-se não proceder à recolha de amostra para análise detalhada utilizando os dados publicados por aqueles autores.
3.2.2. Outros pontos de água
Na bacia foram cartografados 143 pontos de água que afloravam em “bicas” ou fontanários com caudal perene (nunca secam, mesmo em época de estio severo). Na Figura 3.11 apresentam-se detalhes de algumas captações.
Figura 3.11 – Registo de captações efetuado ao longo da Bacia do Rio Dão: a) exemplo de captação reabilitada; b) resultados da análise bacteriológica; c) aproveitamento do recurso para atividades paralelas (lavagens); d) captação em Mundão com caudal considerável; e) poesia popular inspirada na qualidade da água (Abraveses); f) captação parcialmente abandonada (quase revestida de vegetação); g) a i) transformação de captações em elementos arquitetónicos de referência (Esmolfe- Penalva do Castelo; Tondela e Vila Jusã- Tondela, respetivamente).
Para cada ponto, foi feita uma análise expedita com recurso a um instrumento de medição portátil, com registo dos valores de temperatura, pH, condutividade (C), total de sólidos dissolvidos (TDS), potencial redox (Eh) e resistividade (res).
d) e) f)
g) h) i)
Modelo geohidráulico das águas sulfúreas da bacia do Rio Dão
49 Em algumas zonas da bacia, as entidades locais suprimiram os recursos naturais, resultando que em vários fontanários acorre água de abastecimento púbico (principal motivo aponta para o cumprimento da legislação em matéria de água para consumo humano, reduzindo-se os custos com as análises necessárias); nesta situação, não foi feito o registo do ponto de água. A rede de abastecimento público está concessionada a empresa intermunicipal “Águas do Planalto”, que é concessionária da rede nos seguintes concelhos: Carregal do Sal, Tondela, Mortágua, e Santa Comba Dão.