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A biotecnociência na atualidade se constituiu um paradigma científico. O termo paradigma de acordo com Kuhn (1991) se refere a modelos, representações e interpretações de mundo universalmente reconhecidas que fornecem problemas e soluções modelares para a comunidade científica. É por meio dos paradigmas que os cientistas buscam respostas para os problemas colocados pelas ciências.

Schramm (2010, p. 192) afirma que a biotecnociência é um paradigma científico que:

cria as condições de possibilidade e orienta o conhecimento dos fenômenos e processos vivos, assim como as intervenções que visam a seu controle e transformação. Do paradigma biotecnocientífico derivam as biotecnologias, que devem ser consideradas os produtos originados graças à vigência desse paradigma.

Quanto a sua definição Schramm (2010, p. 191) afirma ser um neologismo bio e techne ambos de origem grega e pelo termo cientia, esse já de origem latina que indica:

a interação entre sistemas complexos – como são os seres e ambientes vivos – graças ao sistema técnico e de informação que permite agir sobre tais sistemas e aos dispositivos que visam a orientar tais intervenções sobre o mundo da vida (Lebenswelt). O paradigma biotecnocientífico refere-se, em particular, às atividades da medicina e da biologia amplamente entendidas, dos sistemas de informação e comunicação, da biopolítica, e a suas interações.

A pesquisa e desenvolvimento tecno-científicos (PDTC) possui como explica Hottois (2003) algumas características: o pragmatismo como quadro filosófico mais apropriado; aspectos e consequências econômicas que suscitam problemas éticos, sociais e políticos. A partir desses problemas levanta-se a questão da responsabilidade que se estende das sociedades nacionale internacional ao gênero humano sobre as condições atuais e futuras de sobrevivênc ia e existência e o seu futuro em longo prazo.

Além disso, a PDTC está em constante interação com o meio em que ela se desenvolve : o meio simbólico que compreende os meios cultural, social, psicológico, institucional dentre outros. No entanto, da interação da PDTC com o meio simbólico decorrem esperanças, fantasmas, angústias, assim como novos modos de vida (HOTTOIS, 2003).

Para Cardoso, Alvarenga e Albuquerque (1999) o paradigma biotecnocientífico nos direciona para a necessidade de uma reavaliação de condutas morais da sociedade frente aos efeitos da bioindústria, que apresenta alguns benefícios frente as expectativas humanas.

Entretanto, a biotecnociência nem sempre é vista como algo benéfico a serviço do bem-estar humano. Para muitos representa ameaça e perigo, gerando uma polarização da

percepção pública. Desse modo, aparecem dois extremos, os tecnofílicos para os quais qualquer nova tecnologia e biotecnologia é, em princípio, bem-vinda, sem se preocupar com seus eventuais efeitos negativos presentes ou futuros, e os tecnofóbicos, que se preocupam com os efeitos negativos e com os prejuízos às gerações futuras (SCHRAMM, 2010).

Entre os dois extremos, Schramm (2010, p. 194) destaca três vertentes principais.

(a) A primeira é aquela dos adeptos do “princípio de precaução”, um princípio híbrido que tem um componente moral e outro, pragmático, pois implica se abster de uma ação quando essa tem alguma probabilidade de ter consequências daninhas para os envolvidos, como poderia ser o caso do uso precipitado e incauto de uma determinada biotecnologia, como a transgenia aplicada ao humano [...]. (b) A segunda posição é aquela defendida pelos adeptos do “princípio de responsabilidade”, de acordo com uma proposta inicial de Hans Jonas de 1979, que se preocupa com o futuro da espécie humana e com o impacto das ações humanas sobre os processos naturais e sociais, considerados cada vez mais ameaçados e ameaçadores, isto é, “em risco” e “de risco” [...]. [...] Em particular, esse finalismo intrínseco pode implicar que tudo aquilo que é natural seria em princípio bom, e a biotecnociência, na medida em que ela afetaria tal finalismo, algo reprovável, embora Jonas admita que, sem os progressos da ciência, nossa qualidade de vida seria provavelmente e sensivelmente pior. (c) A terceira posição tenta evitar as objeções às posições anteriores e considera que a biotecnociência pode ser, sob determinadas condições, benéfica para os humanos presentes e futuros, podendo até ser um meio ao serviço dos ideais morais e políticos de justiça, igualdade e emancipação, desde que as escolhas de civilização sejam debatidas livre e publicamente, para se chegar a acordos razoáveis.

Hottois (2009) afirma que com exceção a alguns filósofos existe uma grande convergência de intelectuais voltados ao que ele denominou de “naturalismo conservadorista”, dentre eles são citados: Francis Fukuyama, Jürgen Habermas e Hans Jonas. O naturalismo conservadorista está de acordo com o seguinte postulado:

existe uma “natureza humana” e ela é exposta ao perigo pelas tecnociências biogenéticas; só são legitimas as intervenções e manipulações simbólico-linguísticas sobre essa natureza humana por que o homem é, por natureza (ou por essência), o ser vivo “falante (pensante); ” as raras intervenções tecnofísicas eventualmente aceitáveis devem ter uma intenção e uma eficácia exclusivamente terapêuticas. A natureza humana e – com uma insistência mínima segundo os filósofos – a natureza terrestre devem ser fundamentalmente protegidas e preservadas, de igual forma. (HOTTOIS, 2009, p. 116).

Nesse sentido, percebeu-se que o naturalismo conservadorista apontado por Hottois (2009) é uma forma de tecnofobia, pois apresenta uma reação negativa diante das tecnociênc ias em interação com os ambientes naturais e sociais. Hottois (2009, p. p. 129-130) tece críticas a essa forma de naturalismo, apontando principalmente a recusa das potencialidades emancipatórias que a biotenociência pode trazer para a humanidade e aponta à necessidade de identificação das esferas de maior responsabilidade onde o poder e a força prevalecem sobre

outras considerações e interesses. Essas esferas são as hierarquias políticas, econômicas e financeiras.

A seguir serão apresentados os procedimentos investigativos a partir da caracterização da abordagem metodológica utilizada, dos instrumentos utilizados para a coleta de dados e realização das análises

Neste capítulo serão apresentados os procedimentos investigativos desta pesquisa. Para tanto, serão destacadas as questões de pesquisa, o contexto do seu desenvolvimento, os instrumentos utilizados na construção dos dados e sua análise. Inicialmente, a conceitualização de pesquisa participante será revisada.