Dando continuidade então a essa “dissecação”, podemos supor uma relação, não só de características físicas, mas de personalidade e atitudes entre as protagonistas de ambas as franquias.
Em Matrix, por exemplo, Trinity, por mais que seja a personagem feminina predominante no filme, desde o começo mostra sua atitude “agressiva” e nem um pouco frágil, em meio a situações adversas. Na cena de abertura do primeiro Matrix, Trinity enfrenta sem hesitações uma serie de policiais armados,
74 foge dos agentes entre os telhados dos prédios, e consegue escapar com sucesso de uma morte quase certa. Isso tudo sem auxílio de ninguém. Com isso, os Irmãos Wachowski conseguiram caracterizar claramente para o espectador o perfil e a importância que a personagem teria ao longo da trama. Mais além, a participação crucial de Trinity na transição e adaptação de Neo para o mundo real. No começo, comparado a ele, Trinity se destaca com sua experiência e astucia, por assim dizer, sobre os macetes da Matrix e do mundo real. Ela acaba sendo uma peça chave nessa transição da qual Neo depende não só dos conhecimentos, mas também dos sentimentos e energias que Trinity proporcionava a ele.
(Figura 40 – extraída do DVD – Matrix, 2000)
Paralelamente, se pensarmos na personagem feminina predominante em Tron
Legacy, temos Quorra. Uma protagonista que aparentemente possui traços de
inocência e inexperiência, em relação a determinados assuntos, ao mesmo tempo ela exerce um papel similar ao de Trinity com relação a Sam Flynn. Quando Sam se encontra em uma situação de perigo eminente, após enfrenta CLU na arena, Quorra interfere em uma das batalhas, impedindo que Sam de ser ferido e mostrando para ele uma alternativa para sair de situações adversas. Em uma única cena ela consegue mostrar sua destreza e atitude, ao interferir em um programa tão perigoso para salvar um desconhecido inexperiente, consegue mostrar seus conhecimentos e experiências sobre o terreno, os caminhos e principalmente os atalhos fora da arena, e também suas intenções que, até então, se mostram as melhores possíveis.
75 (Figura 41 - Cena extraída do DVD Tron Legacy – 2011 – Disney)
Em questões temporais, com relação à estrutura narrativa, Tron viria antes de
Matrix, pois o mundo real apresentado em Tron Legacy, ainda continuava
intacto e sem grandes interferências das maquinas no cotidiano humano. Agora, pesando nas relações de convergência, seria intrigante supor que, ao sair do universo digital, Quorra pode ter sido a chave que os programas/ maquinas precisavam para descobrir uma maneira de integrar o mundo real e com isso, concluir a obra inacabada de CLU. Ainda mais intrigante seria supor que Quorra poderia ter alguma relação hereditária com Trinity, como avó ou mãe da personagem, por possuir traços tão similares e, dentro do contexto geral, possuir o mesmo destino: o de auxiliar “o escolhido” em sua jornada de descobertas e desafios ao longo da trama.
Ainda sobre a perspectiva dos protagonistas, a convergência entre as franquias pode ocorrer sobre outros dois personagens que, juntamente com a personalidade feminina citada anteriormente, formam a trindade do filme. Em
Matrix apresentada por Morpheus, Neo e Trinity e em Tron Legacy, Kevin, Sam
e Quorra.
A analogia sobre as personagens pode ser considerada como uma proposta de convergência transmidiática construída através das características das protagonistas e sua trajetória fílmica. Assim com Trinity e Quorra, Morpheus e Kevin Flynn possuem relações de personalidades e presença muito similares. Ambos possuem esse ar de “profeta”, aquele que seria o responsável por espalhar a vinda do “escolhido”, ou simplesmente a uele ue seria o
76 responsável por ajudar a trazer o equilíbrio ao universo, tanto digital quanto real.
Morpheus porém, possui uma característica mais ativa e revolucionaria, como aquele que participa ativamente de todo esse processo e inclusive se sacrifica para que o objetivo seja alcançado.
Flynn também se sacrificou para que Sam pudesse concluir sua fuga junto com Quorra, porém ele possui uma característica mais passional de evitar o confronto e, de maneira bem simplória, abusa do ditado “em time ue est ganhando não se mexe”. sso por ue a sua primeira reação ao receber Sam em sua casa e descobrir os planos de CLU ele revela que só ficou preso no
Grid porque, para ele, arriscar ações agressivas ó trariam a ruína de tudo
aquilo que ele havia construído, então, a solução que pare ele era a mais sensata, seria a de não reagir de maneira alguma. Ele deixa isso bem claro em uma fala específica en uanto argumenta com Sam sua decisão: “Its his game
now... The only way to win is not to play...” (É o Jogo dele agora... A única
maneira de vencer é não jogar).
Mas essas divergências entre os personagens de ambas as franquias, não são fatores de interferência na produção de convergência de mídias. O próprio Jenkins afirma que a convergência acontece principalmente através do imaginário do espectador e com todos esses elementos compostos nos mínimos detalhes da franquia permitem que os espectadores, pelo menos os mais ativos e participativos no processo transmidiático de um produto, tentem criar novos parâmetros para aquela estrutura, fortalecendo assim ainda mais a construção dessa peça.
Embora possa parecer muito improvável essa convergência entre Tron e
Matrix, a proposta é justamente instigar a criação de projetos ousados e
potencialmente inovadores que, aparentemente, não se mostram tão claramente compatíveis, porém, tem um grande potencial transmidiático.
De acordo com Jenkins, “os mercados midi ticos estão passando por mais uma mudança de paradigma.”. A ideia ue as novas mídias vão absorver as antigas não é um conceito atual. Todo surgimento de uma nova mídia
77 inovadora vem acompanhado da premissa que alguma mídia similar, porém não tão potente em termos de funcionalidade, praticidade e/ou tecnologia, sucumbirá. Aconteceu com os livros online, que supostamente acabariam com as bibliotecas e toda mídia impressa, com o CD que acabaria com todos os vinis, com a internet e a ameaça que ela proporcionava perante a radiodifusão. Porém, tendo em vista o repertorio que os diversos públicos possuem em determinadas plataformas, fica difícil dizer que mídias com propostas aparentemente similares, podem se sobrepor perante as massas.
Uma pessoa que aprecia uma boa música, por exemplo, sabe que o áudio gerado pela reprodução do vinil é muito melhor do que aquele gerado por um CD ou uma música em MP3 baixada da Internet. Um bom apreciador de mídia impressa, prefere muito mais ter o prazer tátil de ler um livro, folhear página por página, do que ter a praticidade de um Kindle. Isso é claro em linhas gerais, não é possível quantificar em escala mundial esse tipo de preferência.
Se o paradigma da revolução digital presumia que a novas mídias substituiriam as antigas, o emergente paradigma da convergência presume que novas e antigas mídias irão interagir de formas cada vez mais complexas. (Jenkins, 2006)
Com isso já podemos supor certas estratégias que sejam eficazes na construção de uma produção ousada quando dissertamos sobre transmidialização e convergência. Portanto, no processo de convergir Tron e
Matrix, podemos pensar at mesmo em trabalhar o processo “inverso” da
disseminação do produto entre as diversas mídias, ou seja, em vez de somente buscar o que está em ascensão e o que possivelmente se tornara uma tendência, pode-se pensar em resgatar certas mídias que por si só garantem credibilidade e agregam valor ao conjunto da obra. Muitos filmes estenderam seu universo para os livros e quadrinhos, como Star Wars, por exemplo. Isso pode proporcionar um resultado ainda mais eficaz e satisfatório, não somente do ponto de vista transmidiático, mas também do ponto de vista rentável que, como já mencionado anteriormente, é um dos grandes incentivos para esse tipo de criação.
78 Pensando nisso, qual seriam as plataformas que mais se encaixariam no perfil transmidiático e convergente entre Tron e Matrix? Arrisco dizer que todas, mas podemos partir da premissa daquelas que já consagraram ambas as franquias.