O presente projeto de investigação procurou recorrer à inteligência coletiva emanada pela maior comunidade virtual de Musicografia Braille [email protected], com aproximadamente 800 pessoas no googlegroups, para efetuar a produção de informação e verificação de dados recolhidos em diversos Estados Brasileiros, diferentes cidades em Portugal e alguns países da América do Sul, onde já se encontram matriculados músicos cegos nos cursos regulares de música.
Este é um instrumento de investigação particularmente importante, na medida em que o seu âmbito de aplicação inclui na referida pesquisa a propagação do software Musibraille desde o ano de 2009 nas principais capitais do Brasil e algumas cidades em Portugal.
A Internet é um cérebro coletivo, vivo, segundo Kerckhove (1995, p.91), que dá estalidos quando o estamos a utilizar. Imaginar esse cérebro para a comunidade de pessoas cegas, no que diz respeito à informação, quando a utilizam sem precisar literalmente de outrem para os auxiliar na comunicação imediata. Ainda segundo Kerckhove, a internet vem de baixo, do subterrâneo, do subconsciente da inteligência coletiva. Tal como o subconsciente, é constituída por mais informação do que a que pode ser filtrada para um nível consciente. É por isso que são necessárias cada vez maiores unidades de processamento e distribuição (1995, p.92).
Imaginamos que o conhecimento está distribuído e que em algum lugar, o saber, sendo conhecido por alguém, deverá estar acessível. Mas o que acontece quando o código está esquecido? Procuraremos o valor da interatividade, da colaboração e do apoio, e não há nada mais producente de se criar na inteligência coletiva do que um saber acessível.
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A proliferação das comunicações e a democratização das Redes estão chegando ainda com dificuldade aos músicos cegos no quesito musicografia braille e acesso a informações na pauta musical em braille. As musicotecas não proliferaram e nem mesmo foram conservadas no suporte em papel. O que tentaremos objetivar, através do conceito de inteligência coletiva na plataforma digital inclusiva da grafia em música, é a viabilidade dessa ponte de leitura e de escrita em tinta e em braille, acessível nas instituições musicais ditas inclusivas.
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CAPÍTULO IV - O MUSIBRAILLE: VIVIDO E CONCEBIDO
A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une
(MILTON SANTOS, 2007, p.30).
O ensino de música a alunos cegos tem sido dificultado pela ausência de ferramentas que permitam a criação partilhada de partituras utilizando o código braille. A musicografia braille enquanto conjunto de sinais utilizados no sistema braille para escrever, ler e interpretar a música (MARSAN, 2009) é portando, uma solução que se revela fundamental para viabilizar a criação, disseminação e expansão de tais ferramentas.
De acordo com Borges (2009), apesar de a técnica para a criação da musicografia braille ter sido desenvolvida entre 1829 e 1837, ainda hoje o material disponível é escasso, continuando na atualidade, muitos cegos dependentes da boa vontade dos que possuem visão normal e conhecem o código da música braille para desenvolvimento profissional.
Tal como indica Tomé (2003b), o cenário atual do estudo da música e seus contextos é fortemente marcado pela competitividade tornando-se necessário sensibilizar as pessoas com deficiência visual a estudar a signografia braille para que possam ter melhores oportunidades de trabalho. Também as instituições como os conservatórios, universidades e outras escolas inclusivas devem difundir a musicografia braille como recurso didático capaz de abrir novas oportunidades de formação para às pessoas cegas e no incremento da literacia musical em braille.
Importa ainda promover uma abordagem mais inclusiva do ensino destes alunos tal como refere Gonçalves (2014) em entrevista para a pesquisa: “houve um movimento no mundo, de ligar o ensino da música aos cegos com certos estereótipos do passado, com os institutos de cegos, da marginalização da cidade, das pessoas viverem em grupos separados e todas as tarefas que os cegos faziam ou que tinham gosto especial, em favor de se fazer porque deixou de haver esse tipo de abertura para se aprender música ou outras especificidades”.
Atualmente, apesar dos inúmeros esforços e resultados obtidos com as políticas da educação inclusiva, são ainda muitos os professores de música que, por
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falta de conhecimento da musicografia braille, recusam-se a lecionar para estudantes cegos por julgarem impossível partilhar com eles o conteúdo das partituras com eficácia. É neste cenário que se sustentam a inclusão de músicos cegos nas escolas de música (TOMÉ, 2003).
Nessa perspectiva, Borges (2012) sublinha a importância de desenvolver e disseminar softwares específicos para a aprendizagem dos deficientes visuais em musicografia braille, destacando a sua relevância na formação dos professores que atualmente não se encontra adequada ao trabalho com os cegos. Sendo a formação dos alunos deficientes visuais insuficiente, estes não têm condições de ingressar no ensino superior e posteriormente no mercado de trabalho em condições de igualdade com os demais profissionais da música.
4.1 CONTRIBUTO DE VIVÊNCIAS
Deste trabalho doutoral da tese da pesquisadora, desde criança tomou conhecimento do sistema braille, pois seu pai, João Tomé, falecido em 1971, era, como Louis Braille, cego e músico. Tal fato não impediu de ser professor de música para alunos sem deficiência visual na Escola de Música de Brasília – EMB, além de integrar a Orquestra da Rádio Nacional de Brasília, como violonista. Também utilizava o sistema braille para registrar suas centenas de composições musicais.
Com o aprendizado do sistema braille desde criança mesmo antes de entrar na escola regular de alfabetização em Brasília, a pesquisadora sempre escrevia cartas em braille para suas amigas cegas da cidade natal onde seu pai era professor do Instituto de Cegos de Uberaba - IBC, em Minas Gerais.
Em 1985, a pesquisadora Dolores Tomé (2003c) se formou em Educação Artística habilitação em Música e flauta transversal na Universidade de Brasília - UnB. No mesmo ano uma jovem que o destino tirara a visão, em visita a sua casa, empolgou-se com o ambiente musical e quis se matricular na Escola de Música de Brasília, onde João Tomé, seu pai havia sido professor desde a inauguração em 1963. Essa jovem tentou matricular-se na Escola de Música de Brasília - EMB, onde enfrentou sua primeira decepção como pessoa cega pela desinformação e preconceito. Alguns argumentavam e questionavam como uma pessoa cega poderia
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estudar música? Como os professores dariam as aulas teóricas? Será que existiam partituras em braille? Que instrumento um cego poderia tocar?
A partir destes questionamentos, iniciamos iniciou um trabalho de pesquisa em musicografia braille, utilizando, inclusive, as partituras das músicas compostas por seu pai, João Tomé.
Ingressou como professora de Musicografia Braille na Escola de Música de Brasília em 1986, com 30 alunos cegos e de baixa visão, desenvolvendo suas capacidades de criação pela música, onde exerciam sua aptidão utilizando a escrita e a leitura em musicografia braille.
Mesmo depois de ultrapassarem a etapa inicial do curso, os alunos que utilizavam o método braille continuavam sob seu acompanhamento na confecção do material transcrito para o código braille e assim participarem das turmas regulares de aulas teóricas e de instrumentos, por eles escolhidos.
A pesquisadora/ professora “manteve-se sempre atenta ao desenvolvimento desses alunos porque ainda existia certo preconceito na instituição em relação a esta comunidade” (TOMÉ, 2003c, p.18).
Apesar das dificuldades, muitas foram as conquistas. A professora conseguiu introduzir a partir de 1997, o curso de Introdução à Musicografia Braille no Festival Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília evento tradicional no calendário artístico-cultural do País, obtendo uma receptividade acima da média em relação aos outros cursos oferecidos na área de Educação Musical.
Descreve Tomé (2003c):
De acordo com os cursos que realizámos para professores de música de alguns conservatórios e universidades do País, os resultados foram além das expectativas, com um índice bastante elevado de aprendizado diante da complexidade que é a musicografia braille e da subjetividade que é a música. Estes professores finalizaram o curso aprendendo a ler, redigir e transcrever partituras musicais em braille (princípios básicos) (TOMÉ, 2003c, p.18).
No entender da autora, a carência de professores e a falta de divulgação da musicografia braille justificavam as realizações dos cursos, com o objetivo de ampliar o número de profissionais capazes de atuar na integração dos músicos cegos e na formação profissional.
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Os cursos incluídos no Festival Internacional de Brasília e disseminados para outros Estados se destinavam a educadores de música que tinham interesse em trabalhar com pessoas cegas e ou com deficiência visual e tinham ou por objetivo transmitir os conhecimentos básicos necessários para o ensino e tradução de sinais musicográficos de partituras em notação braille (idibem).
Como deveria ser do conhecimento geral, o atendimento e a possibilidade do acesso dos alunos cegos e deficientes visuais a uma educação global e plena passam diretamente pelo ensino e prática da música (TOMÉc).
Ainda nesta linha de ideias, Tomé (2003c) esclarece que a existência do núcleo de atendimento que participou na criação, na Escola de Música de Brasília foi mais uma iniciativa para adotar as modernas teorias e técnicas educacionais que pregam e estimulam a integração e inclusão das pessoas com deficiência nas escolas do ensino regular, propiciando-lhes assim uma chance de romper o isolamento a que, involuntariamente, são submetidas pela sociedade.
Após muitos anos como professora da Escola de Música de Brasília, Dolores Tomé inicia, no ano de 2005, uma parceria com o Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro - (NCE – UFRJ), e com o seu Coordenador e Professor José Antônio Borges no desenvolvimento do software Musibraille ( www.nce.ufrj.br ).
No ano de 2005, se consolida a parceria com seleção em edital público para concurso de projetos culturais no Brasil, sendo nesta data que se verifica o início concreto do projeto Musibraille, uma vez que se envolveram vários profissionais.
Em julho de 2009, o lançamento do software Musibraile se concretizou na Biblioteca Nacional de Brasília com o primeiro curso de capacitação para professores e alunos de música cegos e não cegos, com participação de 68 pessoas de todas as regiões do Brasil.
Na página oficial do projeto Musibraille: www.musibraille.com.br podemos obter informações sobre os cursos que aconteceram em todas as regiões do Brasil, a partir de 2009, e as duas formações em Portugal, em 2012 na cidade de Cuba do Alentejo e em Braga.
Fato de registro histórico com suporte interativo de contributo com a plataforma Musibraille aconteceu nos anos de 2005 e 2009, quando se deu a produção de dois CD, o primeiro “Piquenique” com músicas brasileiras (choros e valsas) e o segundo
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“Todos Sabem” de (sambas e baião), com composições de João Tomé e partituras para impressão em PDF e em braille. Registrou-se este fato como inédito no mundo da música uma vez que só existia CD no formato digital e em PDF com as partituras em tinta (negro). Contributo este, que deveria ser lembrado pelas gravadoras e editoras no acesso também irrestrito aos músicos cegos em impressão braille.
4.2 HISTÓRIA DE VIDA (JOÃO TOMÉ)
João Tomé nasceu em 03 de março 1920, em Uberaba (Estação de Irara), Estado de Minas Gerais. Seu pai chamava-se Antônio Thomé Ferreira e sua mãe Marinha Emília de Almeida. Ele, ferroviário, ela, do lar.
Tomé tinha cinco irmãos. Seu único irmão era o mais velho e as quatro irmãs, mais novas que ele. Por ter nascido cego, em local que não dispunha de escolas ou instituições que pudessem dar atendimento às pessoas com essa deficiência, ele nunca pôde frequentar a educação formal. Casou-se em 1947, aos 27 anos, e foi pai de seis filhos.
Tomé se tornou músico e compositor, deixando um acervo de mais de 800 composições. Foi professor de música do Instituto de Cegos do Brasil Central, em Uberaba, de 1946 a 1960. Como músico, atuou durante muitos anos na antiga PRE- 5 de Uberaba, hoje Rádio Sociedade. Também foi professor da Fundação Educacional do Distrito Federal, hoje Secretaria de Estado de Educação, e funcionário da Rádio Nacional de Brasília, do início da década de 60 até 1971, ano em que faleceu, aos 51 anos de idade.
Transcreveremos alguns relatos sobre a infância, adolescência e vida adulta de João Tomé:
“Minha mãe só percebeu que o João não tinha visão normal quando ele estava com, 2 anos de idade. Consultou, pelejou e não veio a visão. Ele continuou sem a visão, mas tudo que nós fazíamos ele fazia e sempre perguntava como fazia as coisas. Ele sabia fazer as tarefas de casa. Varria a casa, muito bem varrida, pois passava o pé para saber onde estava o cisco e depois o tirava com a vassoura. Quando queria fazer alguma outra atividade, pedia explicação e, assim, aprendeu a fazer café, refogar arroz e a passar sua roupa. Minha mãe o criou como se ele enxergasse. Tudo o que ensinava para nós, ensinava para ele”. (irmã 1)
“O João nunca freqüentou nenhuma escola. Primeiro, porque onde nascemos não existia escola para cegos. Segundo, porque até nós que enxergávamos tínhamos dificuldade de acesso à escola. Mas ele sempre foi muito ativo, muito inteligente. Quando estava com 12 anos, aproximadamente, pegou um pedaço de bambu, mediu
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o espaço onde deveriam ser feitas as perfurações e pediu ao nosso irmão mais velho para colocar o prego suspenso pelo alicate no fogo e fazer os orifícios sobre as marcações, porque ele tinha medo de se queimar. Insistentemente buscou tirar som daquele pedaço de bambu e, sozinho, começou a tocar flauta. Mais tarde, o senhor Antenógenes Magalhães o ensinou a tocar flauta de verdade. Com o passar do tempo, aprendeu a tocar outros instrumentos, entre eles, o violão, o cavaquinho e o piano. Nessa época, começou a compor e suas letras e melodias, que hoje somam mais de 500, estão guardadas com os seus filhos.” (irmã 1)
a) superação de barreiras na família:
“Minha mãe percebeu que o João não tinha visão quando ele tinha, aproximadamente, 2 anos. Éramos 8 irmãos, mas 2 morreram. Fomos criados juntos, o que um fazia o outro também. Minha mãe nunca criou o João como se ele não enxergasse.” (irmã 1) “Ele não parecia ser cego. Brincava conosco de pique e puxava a gente numa carroça quando íamos buscar água na bica. Além disso, ele ajudava em todas as tarefas domésticas, inclusive tinha o seu dia de lavar a louça, de recolher água, de recolher a lenha.” (irmã 2)
“Ele tinha 12 anos quando surgiu a oportunidade de ser levado, por um parente, para o Instituto Padre Chico, uma escola para cegos de São Paulo. Mas essa idéia foi rejeitada pelos seus pais.” (esposa)
“Meu pai queria que ele ficasse tocando um instrumento musical em um transporte ferroviário para ganhar alguns trocados. Mas o João não aceitou e disse que não ia precisar disso.” (irmã 1)
“Minha família não queria o nosso casamento. Meu pai achava que ele não daria conta de sustentar a família.” (esposa)
“Conheci toda a sua família, a esposa e os seis filhos. Seu modo de educar era disciplinado, mas uma disciplina com a energia apoiada pelo amor. Era grande o esforço que fazia para que todos os filhos estudassem ou tivessem um conhecimento que ele formalmente não pôde ter.” (ex-aluno 1)
b) superação de barreiras na educação:
“Ele não frequentou escola porque, naquela época, não existia escola para cegos na cidade onde morávamos. Mas ele falava melhor do que eu que fiz o primário. Ele pedia para as pessoas lerem vários livros para ele e pedia explicações sobre o que não entendia.” (irmã 1)
“Ele nunca frequentou a escola, mas tinha muita vontade de ler. Aprendeu o alfabeto passando os dedos nas letras em alto relevo que traziam a marca ou nome de produtos nas garrafas ou vidros de medicamentos como, por exemplo, o Biotônico Fontoura.” (esposa)
“Apesar de nunca ter frequentado uma escola, ele nos ensinava a fazer as contas dos deveres de casa.” (irmã 2)
“Considero-o um músico de primeira estirpe porque, não tendo uma educação formal, procurou estudar, criando, dentro da música, a sua maneira própria de aprender a tocar vários instrumentos.” (ex-aluno 1)
“Aos 20 anos ganhou de uma deficiente visual que estudava em São Paulo uma reglete, punção e cópia do alfabeto braile. A partir daí foi autodidata: aprendeu a escrever por meio do braile e mais tarde aprendeu a escrever música nesse sistema.” (esposa)
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“Ele era um autodidata. Não teve professor, não teve orientador e fazia várias atividades. Talvez, se ele tivesse frequentado uma escola, não teria aprendido tanto quanto ele sabia sem ter frequentado escola alguma.” (ex-aluno 2)
“Adquiria dicionários e gramática e pedia para as pessoas lerem para ele. Dessa forma, dominava a Língua Portuguesa e enriquecia seu vocabulário, conforme pode ser observado nas letras das suas composições.” (esposa)
“Quando estávamos lendo um livro em braille, juntos bastava aparecer uma palavra nova para que ele pedisse a alguém para olhar o seu significado no dicionário.” (ex- aluno 2)
“Frequentemente ouvia a Voz do Brasil, programas do Mobral e outros com objetivo de aprender.” (esposa)
Mesmo sem ter beneficiado do ensino formal, João Tomé demonstrou ter adquirido vários tipos de capacidades, que, de acordo com a Teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner (1994, p. 51-52), podem ser obtidas por mais de um sistema sensorial. Conforme relatos dos entrevistados, o sujeito principal deste trabalho demonstrava aptidões nos domínios das seguintes inteligências:
1. Inteligência linguística (própria dos poetas, escritores):
“Conversava corretamente, sempre utilizava as frases de uma maneira lógica e ordenada, não dando nenhuma impressão de que não conhecia o idioma. Pelo contrário, demonstrava ser uma pessoa conhecedora, estudada dentro, tanto da área da música, como da linguagem e do conhecimento em geral.” (ex-aluno 1)
“Mesmo não sabendo ler, João Tomé tinha um discernimento único de toda a cultura que havia em torno dele, porque tinha amigos muito capacitados e nunca foi incapaz de entender qualquer nuance discutida pelos escritores ou pessoas cultas que discutiam a doutrina espírita no aspecto filosófico. Qualquer tema abordado, João Tomé tinha algum ensinamento a acrescentar. Era o que mais admirávamos naquele ser incapaz de enxergar com os olhos as belezas da vida, mas, sempre, possível ainda de alcançar as delicadezas de todas as florescências do pensamento, não somente no ensino que desenvolveu no Instituto dos Cegos de Uberaba, onde criou a escola de música, onde formou os primeiros conjuntos e os primeiros alunos nesse campo.” (amiga 1)
2. Inteligência musical (habilidade em cantar, tocar, compor):
“Apaixonado pela música desde criança, junto com seu irmão mais velho, vendeu mangas para comprar um cavaquinho. Mas se encantou por outros instrumentos e, como morava em uma chácara, arranjou um pedaço de bambu e depois de muito lixá- lo, esquentou a ponta de um pedaço de ferro e indicou para uma de suas irmãs os locais certos que deveriam ser furados. Começou a tirar o som da sua primeira flauta. Soube que o pai de um amigo tocava sax. Ao procurá-lo, levou sua flauta de bambu, o que causou risos no referido músico. Queria aprender a escala. Aprendeu e chegou a animar muitos bailes com esse pequeno e rude instrumento. Mais tarde, foi presenteado por um tio com uma flauta transversal. Além da flauta e cavaquinho, tocava violão de 6 e 7 cordas, bandolim, pandeiro, bateria, saxofone e, por isso, ganhou vários codinomes como o “homem dos sete instrumentos” e o “homem que
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enxergava com a alma”. Além de musicista, foi compositor de vários gêneros musicais.” (esposa)
“Como músico, ele fazia as coisas de uma maneira correta sem ter-se valido de uma metodologia conhecida nas escolas de música. Ele criava os próprios dedilhados para os instrumentos que inclusive podiam ser conferidos com os que eram traçados nos próprios métodos. Nessa área, ele acabou por criar um esquema não só para trabalhar, mas para ensinar.” (ex-aluno 1)
“Tomei algumas aulas de violão com João Tomé. Em um de nossos encontros, ele me mostrou um álbum enorme de composições suas e tocou várias músicas. Aí nasceu um compromisso, uma afinidade com aqueles fraseados musicais impregnados de romantismo, de lirismo e eu disse a ele que gostaria de colocar letra naquelas peças musicais. Em várias dessas peças, ele tocava e eu ia compondo as letras para que houvesse um verdadeiro acasalamento da letra com a melodia. Muitas dessas peças, de acordo com a Vera, sua esposa, foram gravadas para a posteridade.” (amiga 2) “Comecei a estudar acordeom com o João. Depois passei a estudar violão por meio