A grande questão da nossa pesquisa é: “Como Promover a Infocomunicação e Inclusão no Acesso a Partituras Braille, em Contexto Lusófono?”
A tiflotecnologia37 em rede tem convertido a Internet numa ferramenta de trabalho para instrutores de pessoas cegas, em muitos âmbitos profissionais, apresentando diferentes dispositivos específicos, tais como, o braille falado, impressoras braille, software de adaptação (dosvox, jaws, zoomtezt, nvda, linha braille) que facilitam as tarefas que desenvolvem em diferentes contextos, no trabalho, na educação, no lazer, no entretenimento.
Produtos distribuídos pelos Centros de Investigação Desenvolvimento e Aplicação Tiflotécnico – CIDAT – de quase todos os países da Europa Ocidental, dão resposta a uma ampla diversidade de necessidades: sistemas de reprodução em relevo; máquina de escrever perkins; impressoras braille; instrumentos de cálculo; instrumentos de medida e controle médico; relógios e avisadores de tempo; bengalas para mobilidade; mapas; jogos e instrumentos eletrônicos de leitura e acesso à informação e comunicação.
Sendo a Internet uma via de acesso à informação e comunicação, e um meio de busca do desenvolvimento em geral, é de grande relevância que aqueles que desenham as páginas na Web tenham presente normas da tiflotecnologia para o desenvolvimento integral da pessoa cega na realização de tarefas que até há pouco
37Conjunto das teorias e conhecimentos tecnológicos para auxílio de pessoas cegas e com
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tempo eram impensáveis ou muito difíceis de realizar, como por exemplo: ler um jornal, consultar bibliografia, escolher um produto ou imprimir uma partitura em braille. Neste sentido, o acesso às modernas tecnologias não deve mais ser considerado supérfluo e os cegos não podem continuar a ser descuidados pela acessibilidade de ferramentas educacionais e culturais, devendo ter acesso irrestrito à informação.
A “Infocomunicação em Harmonia com a Musicografia Braille”, sob a forma de uma proposta de plataforma digital inclusiva é um avanço fundamental ao nível informacional e tecnológico para que a pessoa cega possa, cada vez mais, obter independência e autonomia na área da música.
No nosso entender, para que haja infocomunicação em harmonia com a musicografia braille, é necessário dispor de um suporte em partitura para os músicos cegos, com a informação em braille integrada no circuito eletrônico através de um sistema inteiramente adaptado às exigências do tato, conforme Louis Braille mostrou ao mundo no século XIX. A necessidade de uma partitura tecnológica é evidente.
Como descreve Silva (2006), na sua Terminologia Essencial:
Suporte em Ciências da Informação é um conceito utilizado para significar o «veículo» material ou meio físico onde se encontra ou através do qual acedemos às representações mentais e emocionais codificadas (informação). Em Ciências da Comunicação canal e meio suporte tendem a ser sinônimos pois significam o que permite transportar a mensagem entre emissor e receptor de acordo com o esquema básico da comunicação. Estejamos a falar do papel ou de um circuito eletrônico suporte é a infra-estrutura física (material e tecnológica) pela qual passa ou fica registrada a informação recebida (SILVA, 2006, p.164).
3.2 OBJETIVOS
3.2.1 OBJETIVO GERAL
Estudar e validar estratégias e metodologias de apoio à infocomunicação e inclusão, que permitam promover e sustentar uma comunidade Lusófona inclusiva procurando fomentar o acesso e a utilização partilhada de partituras braille.
173 3.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
a) Analisar as tecnologias e produtos existentes para apoio à pessoa cega que visam facilitar o acesso partilhado e respectiva utilização à musicografia braille:
Contribuir para o conhecimento na área da musicografia braille; Analisar e comparar ferramentas digitais de apoio a pessoas cegas
que atualmente se acham disponíveis, aferindo especificamente a sua portabilidade, facilidade de uso, acessibilidade, funcionalidade e requisitos mínimos de instalação e utilização;
Proceder a estudos de caso, pela análise de atividades em curso que ocorram online e offline na área da musicografia braille.
b) Identificar e contribuir para o desenvolvimento e fortalecimento de laços numa comunidade lusófona que promova a inclusão pelo recurso partilhado e acesso a partituras braille com as seguintes ações:
Realizar estudos de caso e atividades em plataformas inclusivas, em contexto lusófono;
Propor um conjunto de estratégias e metodologias que promovam e sustentem a comunidade lusófona inclusiva, com um elenco das principais características, requisitos, dimensões, agentes e contextos;
Validar a proposta pela promoção de um lançamento piloto da comunidade lusófona inclusiva com apoio infocomunicacional e plataforma digital.
174 3.3 TIPOS DE ABORDAGEM
3.3.1 ESTUDO DE CASO
O estudo de caso é o relato de um fenômeno construído a partir de observações ou informações extraídas de entrevistas, pesquisas de documentos e outras referências que servem como provas.
A característica que melhor identifica e distingue esta abordagem metodológica, segundo Coutinho (2013) é o fato de se tratar de um plano de investigação que envolve o estudo intensivo e detalhado de uma entidade bem definida: o “caso”.
Chizzotti (2008, p.135) explica que o estudo de caso é visto como estratégia, como modalidade e até como metodologia de pesquisa. Como estratégia de pesquisa, tem como objetivo coletar dados relevantes de um “produto, evento, fato ou fenômeno social complexo”, com o propósito de obter conhecimento aprofundado do objeto de estudo de forma clara e esclarecedora. Como modalidade de pesquisa, o estudo de caso deve levantar dados de “eventos, processos, organizações, empresas, grupos e comunidades” utilizando-se recursos diversos para a coleta de informações que representem fielmente a temática do estudo. Como metodologia de pesquisa, o interesse do estudo de caso recai na coleta de informações a respeito de “uma pessoa particular, uma família ou um conjunto de relações ou processo social” com o objetivo de saber como são ou foram e como agem ou agiram em um contexto real.
Porém, não há unanimidade entre os autores quanto a essa abordagem. Para Moroz (2006, p. 12-13) a metodologia difere da estratégia e da modalidade de pesquisa por seu real propósito, que é o de fazer com que o pesquisador registre e explique, passo a passo, as etapas do processo que o levaram a chegar ao conhecimento que se deseja tornar público.
Neste trabalho optou-se, assim, pelo termo “estratégia” de pesquisa dado seu caráter “sistêmico, amplo e integrado” (COUTINHO, 2013, p. 335).
Partindo do contexto que a investigadora tem conhecimento do Sistema Braille há muitos anos, especificamente com a ferramenta Musicografia Braille na vida profissional, verifica-se o caso escolhido, naturalmente reconhecendo-se sua
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abrangência para recorrer aos métodos que se revelem apropriados (GÓMEZ, FLORES & JIMENEZ, 1996; PUNCH, 1998; YIN, 1994).
Escolheu-se o caso da Faculdade de Música da Universidade do Rio Grande do Norte, capital Natal, situada no Nordeste Brasileiro. Esta escolha justifica-se pelo uso da plataforma musical inclusiva no Curso de Graduação em Música, que oferece o Curso de Musicografia Braille como disciplina optativa aos alunos da faculdade em geral.
Em súmula, o estudo de caso é uma investigação empírica (YIN, 1994) que: se norteia no raciocínio indutivo (GÓMEZ et al., 1996); precisa imprescindivelmente do trabalho de campo (PUNCH,1998); não é experimental (PONTE,1994); se baseia em fontes de dados múltiplas e variadas (YIN, 1994).
3.3.2 HISTÓRIA DE VIDA
A história ou narrativa de vida consiste em relatar a experiência pessoal de um indivíduo ou a trajetória de um grupo de pessoas que fazem ou fizeram parte de uma realidade histórica e social. Além de se apoiar em entrevistas e documentos, a história de vida também pode tomar como referência outras fontes que contenham informações sobre “os fatos, o contexto e a própria pessoa”. (CHIZZOTTI, 2008, p. 101)
Na história de vida (BOGDAN e BIKLEN, 1994, pp. 92-93) uma pessoa passa por entrevistas exaustivas a respeito da sua vida, desde o berço até o momento atual, o que permite ao pesquisador identificar aspectos básicos do comportamento humano, forma de pensar do indivíduo, tipos de experiências pessoais, profissionais e outros aspetos que julgar necessários.
Para Laville & Dionne (1999) nos relatos das histórias de vida é possível descobrir detalhes das experiências pessoais e a oportunidade de:
(...) compreender como as pessoas representam esses fenômenos e acontecimentos históricos, sociais ou culturais, como passaram por eles, vividos na indiferença ou em uma participação mais ativa; é uma maneira de recolocar o indivíduo no social e na história: inscrita entre a análise psicológica individual e a dos sistemas socioculturais, a história de vida permite captar de que modo indivíduos fazem a história e modelam sua sociedade, sendo também modelados por ela (LAVILLE & DIONNE, 1999, p.159).
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A história de vida não se limita a focar apenas o “vivido de um sujeito”, mas interessa-se, sobretudo, pelo “relato” e pela “história da vida em sociedade” (HOULE, 2008, p. 320-327), o que pressupõe a forma de comunicação do sujeito com as pessoas que fizeram ou fazem parte do mundo que o rodeia.
Nesta pesquisa a história de vida selecionada (João Tomé) teve como propósito a caracterização de um sujeito que ao longo da sua existência, desenvolveu e construiu sua autonomia e independência em diferentes situações ou contextos, sem a interferência da educação formal. Para a reconstituição da sua história de vida, foram realizadas entrevistas com familiares, amigos, alunos e coleta de documentos pessoais, profissionais e oficiais.
A intuição fenomenológica eidética de Edmund Hussel (1859-1938) foi o método escolhido para orientar a análise e discussão dos resultados da pesquisa. O que destaca a fenomenologia relativamente a outras formas de investigação qualitativa é o fato de pôr a tônica sobre o “individual” e sobre a “experiência subjetiva”. O investigador pretende conhecer e compreender um fenômeno – o seu problema de investigação – interpretá-lo, analisá-lo e extrair aquilo que Hussel chamava a essência do fenômeno, ou seja, o seu significado profundo e invariante (CRESWELL, 1998), a sua verdadeira natureza (GOMÉZ et al.,1996).
Alguns contributos do método fenomenológico para a investigação qualitativa em Ciências Sociais e Humanas:
a) A primazia dada à experiência subjetiva imediata como base do conhecimento;
b) O estudo dos fenômenos desde a perspectiva dos sujeitos individuais; c) O interesse por conhecer como as pessoas experienciam e interpretam
o mundo social que constroem em interação.
Em complementação à reflexão fenomenológica do método husserliano, utilizou-se também uma reflexão ontognoseológica proposta por Reale (2002), na medida em que nos mostra a importância fundamental da cultura da música entre os cegos em relação à história e a axiologia na concepção do mundo e do conhecimento.
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3.4 OS INSTRUMENTOS DE RECOLHA DE DADOS UTILIZADOS