5. Hierarchical GPU Image processing
5.2. Hierarchical Feature Clustering
5.2.1. Feature Detection
Ainda na fase inicial do processo, mas quando já estava definido que eu interpretaria
Rei Basílio, cheguei a um dos ensaios trazendo uma imagem que apresentei ao grupo como um possível indutor imagético para a construção de meu personagem. Tratava-se de uma pintura de Anibal Pacha intitulada O rei sem rosto, que integrou a exposição individual
Personagens do imaginário, realizada pelo autor em 1996 no antigo Núcleo de Artes da UFPA (prédio que atualmente abriga o Instituto de Ciências da Arte – ICA).
Foto 21: O rei sem rosto, pintura de Anibal Pacha.
Vou começar pela minha interpretação pessoal da imagem expressa na tela pelo artista. A pintura de Anibal mostra um monarca sentado em seu trono, ao mesmo tempo em que parece ter seu corpo fundido ao próprio acento real, como se daquele objeto fizesse parte indissolúvel – ou dele não pudesse se livrar. Paradoxalmente, a posição de seus pés (o esquerdo à frente e o direito fazendo um apoio atrás) indica que ele poderá se erguer a qualquer momento. O homem adota uma atitude corporal retraída, fechada, pela qual aparenta querer ocultar-se de algo; nada em sua postura remete à autoridade e segurança de que goza um verdadeiro rei. A figura ostenta um farto manto vermelho e, sobre a cabeça, a coroa –
símbolo máximo e inquestionável de sua posição social. Enigmaticamente, porém, abaixo dela, onde nossos olhos deveriam encontrar seu rosto, a tela mostra apenas um inquietante espaço negro, vazio, como se sua face estivesse oculta pela ausência de luminosidade; ou, se preferirmos, como se seu rosto de fato não pudesse ser revelado. Ao lado da figura do rei aparece pendida por uma linha tênue uma enigmática maçã: seria o símbolo de alguma tentação que perturba aquele monarca?
A partir da contemplação dessa imagem, tão rica em possibilidades de leitura e significados, comecei a procurar estabelecer relações com a interpretação que fizera de
Basílio, com o objetivo de extrair dessa reflexão elementos que pudessem contribuir concretamente para a construção da personagem. E, de fato, não são poucas as associações possíveis entre a pintura e o ser ficcional; a mim me pareciam, na verdade, feitos um para o outro. Em determinado momento, já era o próprio Basílio que eu via naquela pintura; projetava na imagem a dimensão subjetiva da personagem que procurava fazer viver em mim.
Começo pela postura corporal. Assim como o rei pintado por Anibal, o rei criado por Calderón tem muito motivos para sentir-se retraído, para querer se ocultar; omitir-se, talvez, da necessidade ética e moral (e, ao mesmo tempo, do profundo desejo pessoal) de revelar o terrível segredo que, há vinte anos, lhe corrói a alma de pai. Dizendo de outra maneira, por trás da aparente figura imponente, austera, inquebrantável e segura de si como o grande e poderoso monarca que é, habita um homem que parece querer se esconder dos outros e, sobretudo, de si mesmo. O ato que praticou contra o próprio filho não cessa de se confrontar, impiedosamente, com os valores de integridade moral e de humanidade que defende no exercício de sua majestade. O maior enfrentamento de Basílio, nesse sentido, é com ele mesmo. Esse contexto me parece adequado à ideia de uma “tragicidade da individualidade e da consciência” a qual se referiu Peter Szondi (2004, p.99), na medida em que a ausência do rosto pode ser compreendida como uma potente metáfora dessa condição.
Indo além, posso dizer, então, que o ato não foi praticado apenas contra o próprio filho. De fato, é Segismundo o jovem mantido encarcerado por decisão do monarca, mas não seria Basílio o verdadeiro prisioneiro de si próprio por ter tomado uma decisão e determinado uma ordem que fere todos os seus princípios éticos e morais – ou, pelo menos, aqueles que ostenta publicamente como seus? E então volto outra vez à metáfora do rei sem rosto da pintura de Anibal: não seria o próprio Basílio um homem incapaz de verdadeiramente enxergar – não diria sua verdadeira face, porque esta é resultado inexorável de tudo aquilo que pratica – mas daquela face que aparenta ter perante seus súditos – sua máscara de rei?
Em síntese: Basílio pode ser interpretado como um rei sem rosto, porque se sente fragilizado em sua consciência e inseguro de sua própria individualidade em razão dos atos que praticou – ainda que estes tivessem como objetivo evitar a consumação das profecias nas quais, inadvertidamente, acreditou.
Agora, veja-se: essa constatação é extremamente instigante para o ator que possui a missão de interpretar esse personagem. Como expressar cenicamente um homem sem rosto, ainda que metaforicamente, na medida de sua própria individualidade e consciência abaladas, fragilizadas? Ou, se preferirmos, que estímulos subjetivos essa imagem fixada pode ativar no corpo do ator no exato momento em que atua Basílio? E ainda nem sequer falei na maçã enigmaticamente pendida ao lado do monarca na pintura que induziu essa criação.
Ao considerar a influência do mito cristão sobre a obra de Calderón, e partir da ideia de que a maçã simboliza nesse contexto o pecado original, ou melhor, a própria tentação do desejo, pode-se deduzir que o rei sem rosto que aparece na pintura de Anibal Pacha (e que já identificamos com a personagem Rei Basílio de Calderón de La Barca) tem diante de si duas fortes tentações, capazes de mover a personagem no curso da ação dramática da peça: primeiro, a tentação de revelar o terrível segredo guardado há vinte anos; em seguida, depois de ver consumados os atos tiranos do filho liberto, a tentação de acreditar que possui o poder de ter controle sobre a própria realidade a ponto de tentar transformá-la com seu plano de fazer o príncipe pensar que tudo não passou de um sonho. Creio que pensar assim revela-se uma potência para a cena, na medida em se cria uma sequência de motivações para a personagem, capaz de movê-la nas suas atitudes concretas (seus atos) e dinamizando, desta maneira, tanto a ação dramática da peça quanto a própria presença cênica do ator.
Sem dúvida, não posso afirmar que fiz exatamente essa interpretação da pintura O rei
sem rosto naquele momento da montagem do espetáculo A vida é sonho, até porque nem os registros do processo e nem a memória são capazes de atualizar essa informação para revelar como, de fato, se deu esse processo de indução. Mas, independentemente disso, posso afirmar que a imagem pintada por Anibal habitou minha imaginação e, provavelmente, meu inconsciente, durante todo o longo período em que estive imerso naquela criação. Parte da interpretação da imagem que escrevi aqui certamente foi semelhante a que fiz naquele momento; outra parte nasce do reencontro com esse universo criativo que volto a acionar em mim no exercício desta escrita.