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Basic Problem Setting

6. GPU Data Compaction

6.1. Basic Problem Setting

Além destes dois indutores, a pintura O rei sem rosto e a canção Átimo de pó, existiu ainda um terceiro, certamente mais complexo que os dois primeiros, porque atinge a dimensão das relações íntimas e afetivas de minha própria vida: trata-se da pessoa de meu pai, Eduardo Araújo e Silva, que também busquei identificar com o personagem de Rei Basílio.

Foto 22: Meu pai, Eduardo Silva.

Desde quando a memória me permite lembrar, meu pai sempre foi um homem que demonstrava austeridade, severidade e rigidez de pensamento – traços de uma personalidade que se materializavam fisicamente numa expressão sisuda e num tom de voz grave e ameaçador. Entre seus defeitos, o mais marcante, sem dúvida, era a prepotência, que o fazia achar-se frequentemente melhor que os outros e tornava-o o eterno “dono da verdade” – expressão pela qual tantas vezes fui obrigado a ouvir minha mãe me chamar, como o mais digno herdeiro na condição de filho primogênito.

Esse traço da personalidade de Eduardo Silva fica bastante evidente em alguns trechos de cartas enviadas a ele por seu pai, Alberto da Cunha e Silva, o avô de quem herdei (certamente entre muitas outras coisas) nada menos que o próprio nome. Numa dessas cartas, enviada do Rio de Janeiro a Belém em 19 de agosto de 1966 (três anos antes de eu nascer), aquele Alberto Silva pondera:

“Em que pese você se julgar infantilmente um HOMEM PERFEITO, você, como todos os seus semelhantes, variando de indivíduo, tem muitas (...) imperfeições. (...) Você precisa acabar com esse negócio de se achar PERFEITO e querer impor isso àqueles com quem convive e lida. Para princípio de conversa, ninguém é perfeito neste mundo.”

Não foi difícil perceber as muitas (e bastante inquietantes) coincidências entre as personalidades de meu pai e da personagem de Calderón conforme a interpretei. Neste outro trecho da mesma carta de meu avô, pode-se identificar uma crítica a meu pai que cabe perfeitamente às atitudes de Basílio em relação a seu próprio filho, e que o levaram, inexoravelmente, à desgraça que tentava evitar: “Você precisa ser menos egoísta e pensar, ainda que seja um pouco, na dor que seus erros possam causar aos outros.”

Foto 23: Eu no colo de meu avô Alberto da Cunha e Silva. (Arquivo pessoal)

Lendo essas cartas amareladas pelo tempo trocadas entre meu avô e meu pai – que certamente não por acaso Eduardo guardou de forma tão cuidadosa durante mais de 40 anos – pude perceber que sempre existiram, entre meu pai e o pai dele, os mesmos conflitos que depois vivi com meu pai, e que, provavelmente (se o tempo assim o permitir) viverei com meu filho, Pedro, que hoje tem apenas três anos – e que o avô, infelizmente, não conheceu.

Isso me leva a pensar que a trama de A vida é sonho pode ser compreendida, também, como uma metáfora sobre o conflito universal entre gerações, no qual descobrirmos que todos nós, em determinado momento, reproduzimos com nossos filhos o mesmo comportamento que nossos pais tiveram conosco – e o quanto isso pode nos ensinar sobre a natureza humana: hoje filho, amanhã pai.

Alguns fragmentos de Carta a meu pai, do escritor alemão Franz Kafka, servem como testemunhos dessa ideia, na medida em que, ao lê-los, não consigo definir se é Kafka que fala a seu pai, se eu a meu pai, ou se o próprio Segismundo a seu pai, Basílio:

Eu dividia o mundo em três partes: uma, onde eu vivia, o escravo, regido por leis inventadas exclusivamente para mim, às quais, além do mais, e não sei por que não podia adapta-me completamente; depois, um segundo mundo, infinitamente afastado do meu, no qual vivias tu, ocupado em governar, distribuir ordens e aborrecer-se porque não eram cumpridas; e, por fim, um terceiro mundo, onde vivia o povo livre e alegremente, sem ordens nem obediência. (KAFKA, 2002, p. 84)

Interpreto a “escravidão” de que fala o autor alemão como a subordinação imposta ao filho pelas ideias do pai, como se ser mais velho (e propriamente pai) representasse uma condição superior de sabedoria. Neste outro trecho, é possível identificar uma crítica de

personalidade muito semelhante àquela feita por meu avô a meu pai, sem falar na extrema (e porque não dizer, irônica) coincidência com a relação entre um príncipe e seu pai monarca:

Eras para mim a medida de todas as coisas. (...) De tua poltrona governavas o mundo. Tua opinião era correta; qualquer outra, absurda, exagerada, louca, anormal. Com tudo isso, era tão grande tua confiança em ti mesmo que não precisavas ser consequente. (KAFKA, 2002, pp. 81-82)

Mas de que maneira todas essas referências foram (ou poderiam ser) utilizadas em minha atuação como Rei Basílio?

Em primeiro lugar, convicto das semelhanças entre essas personalidades, percebi que poderia imaginar também para o personagem uma semelhança física com meu pai. Esse processo começaria com estímulos internos, capazes de construir a fisionomia de austeridade até atingir aspectos exteriores, tais como a enorme barba que cultivei durante quase um ano para compor minha atuação. Durante a curta temporada do espetáculo, que durou apenas dois dias, tudo foi complementado com uma caracterização que incluía traços de envelhecimento como calvície, além de cabelos e barba esbranquiçados – era importante enxergar-me como meu próprio pai.

Outro aspecto importante foi a descoberta da voz de Basílio e que foi profundamente inspirada na gravidade da voz de meu pai; isso me remete, inclusive, a uma memória da infância, quando apenas o timbre vocal amedrontava a ponto de inibir qualquer insistência na tolice cometida.

O mais importante, porém, habita a dimensão interior da personagem. Em certo momento da vida compreendi que meu pai, apesar da aparente austeridade, era “no fundo (...) um homem bondoso e terno” (Idem, 2002, p. 80), como revela Kafka sobre seu próprio pai. Toda aquela austeridade também servia para proteger um homem frágil e amoroso que, por alguma razão, teimava em ocultar essa natureza na relação com as pessoas – até mesmo as mais próximas. Penso que Basílio pode ser interpretado do mesmo modo: a imagem de exterior de gravidade esconde, na verdade, o verdadeiro e profundo desejo de amar e ser amado por seu filho.

Assim, interpretar Rei Basílio torna-se, para além de mera atuação cênica, um exercício do mais profundo e verdadeiro contato com minha natureza essencial, minhas raízes socioculturais, minha herança genética e minha ancestralidade. E realizar essa escrita, portanto, transforma-se também numa maneira, tal como o fez Kafka, de não me deixar morrer um dia sem dizer as coisas que, em vida, meu pai jamais escutou de mim.

De fato, como seria possível dimensionar, ao atuar Basílio, o que era manifestação da complexa relação que mantive com meu pai – e, sobretudo, aquilo que dessa relação eu mesmo desconhecia? Até onde minha atuação era uma personagem ficcional, eu mesmo ou a própria gênese herdada de Eduardo Silva e de toda a minha ancestralidade? Como diz Artaud, “eu sou meu pai, minha mãe e eu mesmo” (ARTAUD) e, conforme afirma Grotowski, “nosso corpo inteiro é uma grande memória” (GROTOWSKI, 1987, p. 172) de forma que:

É necessário dar-se conta de que o nosso corpo é a nossa vida. No nosso corpo, inteiro, são inscritas todas as experiências. São inscritas sob a pele, da infância até a idade presente e talvez também antes da infância, mas talvez também antes do nascimento da nossa geração. O corpo-vida é algo de tangível. (Idem, p. xx)

Ao reviver aqui esse processo percebi que existia uma busca minha como ator pelo conhecimento de si mim mesmo na vivência desses processos criativos – aquele ator como buscador de si, conforme a visão de Cacá Carvalho segundo Wlad Lima. Por fim, descobri também que essas subjetividades que apontam a busca de si, tornam-se uma espécie de devir- eu mesmo na atuação e ganham potência para dilatar a presença cênica do ator através do estímulo a um estado de mente dilatada.

4.3 DEVIR-CRIANÇA E INDUTORES SUBJETIVOS COMO FONTE DA MENTE