• No results found

4. Results

4.3 Fatty acid composition of phospholipid subclasses in brain

4.3.4 Fatty acid composition of PE

Inicialmente foi efetuado um diálogo com autores da saúde coletiva que discorrem sobre o processo de trabalho em saúde, entendendo que, uma vez que o ACS é um profissional da saúde, faz-se necessário contextualizar tal trabalho no âmbito da saúde pública.

Mendes-Gonçalves (1992) realiza uma análise do trabalho de forma geral e aponta as especificidades do trabalho em saúde que, segundo ele, não visa à produção de valor e seus resultados não contemplam a produção de mercadorias, mas objetiva a satisfação de necessidades. Acrescenta que o objeto do processo de trabalho em saúde é o homem, apreendido em sua subjetividade.

Ayres (2001) concebe a subjetividade como sendo relacional e aponta que a mesma envolve uma contínua reconstrução de identidades que ocorre através da relação com o outro, ou seja, é na alteridade vivida que constituímos a nós mesmos como sujeitos.

Neste contexto, a mudança do modelo assistencial em saúde depende de uma reorientação do processo de trabalho em saúde e de uma análise do trabalho em saúde a partir da micropolítica dos processos de trabalho (MERHY, 2002). O autor afirma que para analisar os possíveis efeitos da transição tecnológica na saúde é necessário voltar o olhar para o momento do ato de cuidar e sua organização no interior do serviço de saúde.

No trabalho em saúde, o ato de produção do produto e seu consumo ocorrem ao mesmo tempo, numa relação que Merhy (2002) denomina de “interseçora”, ou seja, no interior de um processo de trabalho dirigido para a produção de atos de cuidar. Estabelece-se, assim, um espaço interseçor entre trabalhador e usuário que sempre existirá nos seus encontros, mas só nos seus encontros, e em ato.

Para dizer da possibilidade de atuação em saúde, Merhy (2002) utiliza-se da expressão “caixas de ferramentas tecnológicas” (p.63) – que conceitua como conjunto de saberes que se dispõem para a ação de produção de atos de saúde e que inclui: a) tecnologias leves, referentes às relações que permeiam o encontro entre subjetividades, a saber: produção do vínculo, autonomização e acolhimento; b) tecnologias leve-duras que compreendem os saberes estruturados que operam no processo de trabalho em saúde; c) tecnologias duras que envolvem as máquinas-ferramentas, ou seja, os equipamentos tecnológicos (MERHY et al., 1997).

32 | Introdução

O referido autor pontua que quanto maior o endurecimento dos processos produtivos em torno de saberes tecnológicos muito bem definidos, maior a interdição à possibilidade de, no espaço interseçor, o mundo do usuário penetrar como capturante das finalidades dos processos produtivos em saúde, em outras palavras, o espaço relacional usuário-profissional constitui-se no momento singular de produção do cuidado que pode, quando centrado em tecnologias duras (produção de procedimentos), perder seu potencial de “trabalho vivo em ato” (p. 120).

Para Merhy (1997) o foco da atenção em saúde é o usuário, e o serviço busca intervir a partir dos problemas e necessidades do mesmo, visando à melhoria da saúde entendida como ganhos de autonomia no seu “modo de andar a vida” (p. 79). Sendo assim, Merhy (2002) concebe que o objeto do campo da saúde não é a cura ou a promoção e proteção da saúde, mas sim a produção do cuidado, por meio do qual se pode atingir a cura e a saúde.

Merhy (1997) aponta que no espaço relacional (interseçor), tanto usuário quanto profissionais são instituintes de necessidades, atuando no referido espaço expondo suas intencionalidades e desejos. As forças instituintes do trabalho morto (cristalizado nos meios de produção e no processo já institucionalizado do modo de trabalhar) podem “capturar” o trabalho vivo em ato, caso tal trabalho não provoque ruídos, fissuras e linhas de fugas nos processos de trabalho instituídos, que possam implicar na busca pelo sentido desta “captura” sofrida pelo trabalho vivo.

Dar visibilidade às práticas relacionais envolve também lançar um olhar para o princípio da integralidade que configura, juntamente com a universalidade e a equidade, um dos princípios do Sistema Único de Saúde. A adoção de tal princípio representa uma tentativa de mudança dos processos de trabalho em saúde.

Pinheiro (2001) aponta o caráter polissêmico do termo integralidade e descreve como um dos sentidos da integralidade o fato da mesma ser uma

ação social resultante da permanente interação dos atores na relação demanda e oferta, em planos distintos de atenção à saúde (plano individual – onde se constroem a integralidade no ato da atenção individual e no plano sistêmico – onde se garante a integralidade das ações na rede de serviços), nos quais os aspectos subjetivos e objetivos sejam considerados (p.65). Mattos (2001) descreve três conjuntos de sentidos da integralidade. O primeiro deles refere-se à integralidade como atributo das práticas dos profissionais de saúde, sendo valores ligados ao que se pode considerar uma “boa prática”. O autor defende que a integralidade é “um valor a ser sustentado e defendido nas práticas dos profissionais de saúde, ou seja, um

Introdução | 33

valor que se expressa na forma como os profissionais respondem aos pacientes que os procuram” (p.48).

O autor acrescenta, ainda, que a integralidade relacionada aos encontros entre usuários e profissionais de saúde implica na capacidade do profissional de compreender, além do sofrimento manifesto do outro, o risco de sofrimento futuro no contexto do modo de andar a vida deste sujeito. Além disso, implica compreender os significados das ofertas de cuidados que se fazem necessárias e o significado mais imediato de suas ações e palavras no momento do encontro com esse outro. Para que tais compreensões sejam viáveis, é necessário que o profissional se coloque no lugar do outro. (MATTOS, 2009).

O segundo conjunto de sentidos atribuídos à integralidade refere-se à forma de organizar as práticas em saúde. Nesse sentido, Mattos (2001) propõe a articulação entre assistência e práticas de saúde pública. A integralidade implica na organização dos serviços de saúde de tal forma que os mesmos consigam realizar uma apreensão ampliada das necessidades da população que atendem.

O terceiro conjunto de sentidos da integralidade está relacionado às configurações de políticas especiais para dar respostas a certos problemas de saúde ou às necessidades de certos grupos específicos. A integralidade seria “uma recusa por parte dos que se engajam na formulação de uma política em reduzir o objeto de suas políticas, ou melhor, de reduzir a objetos descontextualizados os sujeitos sobre os quais as políticas incidem” (MATTOS, 2001, p.59).

O referido autor acrescenta que a “integralidade implica numa recusa ao reducionismo, uma recusa à objetivação dos sujeitos e talvez uma afirmação da abertura para o diálogo” (MATTOS, 2001, p.61). Segundo o autor, a integralidade envolve o estabelecimento de relações entre sujeitos, onde há uma abertura para o diálogo e a possibilidade de estar com o outro sem transformá-lo em objeto de intervenções e/ou de práticas de saúde. É entender que esse outro é sujeito de direitos e, consequentemente, tem o direito ao atendimento de suas necessidades de saúde (MATTOS, 2001).

Lacerda e Valla (2005) pontuam que a integralidade do cuidado envolve a apreensão ampliada das necessidades e a consequente incorporação da dimensão psicossocial, lidando com o sofrimento não apenas em seu aspecto biomédico.

De acordo com Camargo Júnior (2003) o modelo da biomedicina, centrado nos aspectos biológicos, fragmentado e hierarquizado, é contraditório à proposta da integralidade, e a prática em saúde, baseada nas intervenções individuais e privatista, também é um obstáculo para a conquista da integralidade.

34 | Introdução

Pensando a integralidade a partir da dimensão do cuidado, Pinheiro e Guizardi (2005) entendem como ação integral o “entre-relações” de pessoas, produto “de interações positivas entre usuários, profissionais e instituições, que são traduzidas em atitudes como: tratamento digno e respeitoso, com qualidade, acolhimento e vínculo” (p.21). As autoras assumem a integralidade como prática social, pressupondo o olhar ampliado para as diferentes visões de mundo dos usuários.

A criação da Estratégia Saúde da Família e a consequente inserção do ACS representam um passo importante para se consolidarem práticas pautadas pela integralidade, uma vez que buscam através de seus princípios um olhar ampliado para o processo saúde- doença, priorizando processos de trabalho pautados no cuidado. Por outro lado, não se espera que a criação da ESF dê conta por si só de consolidar tais práticas já que a instituição de princípios não garante o cumprimento dos mesmos, sendo necessário voltar o olhar para o que Merhy (1997) chama de espaço interseçor usuário-profissional na tentativa de entender se tal ato de cuidar está pautado pelos princípios da integralidade.

Refletindo sobre as ações dos Agentes Comunitários de Saúde, Guizardi e Pinheiro (2005) apontam que as mesmas têm o potencial diverso ao modelo hegemônico de assistência pela proximidade, pela fala e vivências compartilhadas com os usuários, pela disponibilidade para estar junto e conhecer o cotidiano das famílias. O ACS, segundo os autores, pode ser a voz das experiências e saberes do usuário, apesar de, em alguns momentos, isso poder ser angustiante pela ausência de um saber institucionalizado – o que faz com que muitas vezes o ACS recorra ao discurso científico, na tentativa de consolidar um lugar profissional.

Na perspectiva do processo de trabalho em saúde, levando em consideração o novo modelo de atuação, pautado pelo cuidado, pela integralidade e pela produção do vínculo, a Psicologia Social da Saúde, como um campo da saúde coletiva, tem importantes contribuições a oferecer. Camargo-Borges e Cardoso (2005) apontam que a Psicologia Social da Saúde traz conceitos potentes e propostas de ações que compartilham com pressupostos da ESF, tais como: a construção de um fazer coletivo; a contextualidade e a interação com ações construídas coletivamente a partir da imprevisibilidade do cotidiano; a produção do vínculo; e a construção de espaços mais democráticos de convivência. Neste sentido, Camargo-Borges (2002) aponta que trabalhar com a proposta da ESF requer uma inversão da lógica do cuidado – menos técnico e mais relacional – tanto entre equipe-usuário quanto entre os membros da equipe – e nesse âmbito a Psicologia detém conhecimentos que podem contribuir para a superação do modelo biomédico.

Introdução | 35

1.2. Do visitador sanitário ao agente de saúde: a inserção de um novo profissional da