Nesse ponto há uma radical ruptura entre o pensamento de Tiãozinho e o de Debord, quando este afirma que:
A discussão vazia sobre o espetáculo – isto é, sobre o que fazem os donos do mundo – é organizada pelo próprio espetáculo: destacam-se os grandes recursos do espetáculo, a fim de não dizer nada sobre seu uso. Em vez de espetáculo, preferem chamá-lo de domínio de massa. Com isso querem designar um simples instrumento, uma espécie de serviço público que gerenciaria com imparcial “profissionalismo” a nova riqueza da comunicação de todos por mass media, comunicação que teria atingido enfim a pureza unilateral, na qual se faz calmamente admirar a decisão já tomada. O que é comunicado são ordens; de forma altamente harmoniosa, os responsáveis por essas ordens são os mesmos que vão dizer o que pensam delas (DEBORD, 1997, p. 170).
Debord parece endossar o pensamento adorniano de que os donos da mídia de massa são as grandes trustes mundias, as corporações multinacionais, que nada tem a ver com a arte, como petrolíferas e bancos que apenas se interessam por dinheiro.
Porém, o que Tiãozinho defende implicitamente é que o povo criou a mídia de massa, e não os grandes capitalistas. Para ele o grande público é quem decide pela contratação ou não de uma atração, devido a sua força política, traduzida em apoio ao contratante final, seja por meio de votos, dinheiro ou favores. Dessa forma, mesmo que o representante de um grupo não simpatize com um artista qualquer, será praticamente obrigado a contratá-lo, se essa for a vontade da maioria que ele representa. A esse respeito ele lembrou de uma conversa com o proprietário de uma grande empresa de formaturas :26
No caminho da Disney o Mário me disse assim: “Eu queria que você 27
estivesse no mercado hoje, você ia ver comigo!”. E a gente estava indo pra Disney, para o azar dele (risos). “Eu não ia pagar essa fortuna que você cobra!”. Aí eu falei: “Olha, Mário, você acha que quem é a atração aqui na Disney, é o cerimonial, que está organizando as filas, ou são os bichos, os artistas?”. Depois de um silêncio ele respondeu: “Os artistas.” [Tiãozinho disse]: “Pois é, eu sou o artista. Eu saberia como cobrar de você. E saberia o que fazer pra você me pagar”.
E em vários momentos de nossa convivência ele afirmou que nunca tocou para cerimoniais, empresas de formatura, e sim para o povo. A esse respeito seu filho, João Paulo, comentou:
As empresas de formatura se especializaram, como o próprio nome sugere, em eventos de formatura
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acadêmica. Normalmente organizavam um pacote, que incluía o álbum de fotos individual, a aula da saudade, a missa (para os católicos), o culto (para os evangélicos), a colação de grau e o baile, e facilitavam o pagamento para o formando em muitas parcelas mensais, devendo a quantia total ser quitada antes da realização dos eventos. A clientela inicial era composta por graduandos, mas posteriormente foi expandida para formandos do ensino médio e fundamental. Para estes a formatura era marcada apenas com o baile, que por vezes era tão luxuoso quanto ao de um graduando.
Eu estive em uma reunião onde o dono de uma empresa de formatura, um cerimonial..., o cara se achava muito à época..., e achar que podia mandar e desmandar..., e um dia do meu pai ficar puto, dar um tapa na mesa e falar assim: “Quantos bailes eu tenho com você? Porque eu não toco pra você nunca mais! Agora você vai me falar quantos bailes que tem, não tem problema, eu pago todos os bailes, são dez, vinte? Me dá a caneta, que eu faço um cheque aqui, agora, mas eu não toco mais pra você!
Essa atitude parece ter diminuído a prepotência do referido cerimonialista, pois, além de um episódio assim não ter mais se repetido, a banda continuou a trabalhar com ele, mesmo que a seu contra gosto, segundo João Paulo.
Tiãozinho se orgulha também de ter sido responsável pela expansão do calendário festivo de Brasília, em virtude de, segundo ele, “todos” quererem o Squema Seis. Conta, por exemplo, que os bailes de formatura e as festas juninas se realizavam em períodos específicos, e como a procura pela banda era grande, sua agenda de eventos sazonais começou a ser totalmente preenchida com mais de um ano de antecedência, o que obrigava os contratantes a buscarem alternativas para obterem os serviços do grupo. Uma delas era a escolha de meses e dias da semana pouco procurados ; outra seria a reserva de datas com bastante antecipação. 28
Quanto à possibilidade de destrato de um contrato, para a assunção de outro mais vantajoso, João Paulo diz que o pai jamais utilizou essa prática, apesar de várias vezes ter sido assediado nesse sentido, caracterizando-o como um “homem de palavra”: “Ele já deixou de fazer um baile em Seul , na embaixada brasileira lá, e ganhar uma grana! (enfatiza), porque tinha feito 29
um contrato que ele iria tocar num baile aqui, numa satélite ”. 30
Até em relação ao preço cobrado pelas apresentações, Tiãozinho declarou que dependia do nível de aceitação do público:
Com relação ao preço eu devo..., devo ter comparado inicialmente a minha banda com a melhor banda daqui, e achado que ela valia um pouco menos, porque ela não tinha o nome daquela banda, e à época eu acho que era o
Raulino ... Achava que ela não valia, porque ela não fosse tão boa..., talvez 31
até fosse, mas ela não tinha tradição (…) E eu fiquei tocando uns dois anos até chegar no padrão do Raulino (…) E os diretores dos clubes também não
Quando tocava no conjunto, lembro de festas “juninas” realizadas em maio, julho ou até agosto.
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Capital da Coreia do Sul.
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Cidade Satélite. Região administrativa de Brasília similar a um bairro da periferia. Essa capital não possui
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bairros.
Raulino e seus big boys.
queriam me contratar pelo mesmo preço do Zuza, da Banda do Sol (…) E 32
um outro critério, que eu acho que é o número de pessoas que você leva na portaria... A portaria deu tanto, sobrou tanto pra te pagar, e sobrou tanto de lucro pro cara... Se essa banda custar dez mil, e só der oito, e eu constatar que o cara fez um grande trabalho de divulgação, não choveu, não teve catástrofe, e não teve razão..., que a banda mesmo não chamou a atenção, a banda não custa dez, ela custa menos, porque só deu oito na portaria.
Como todo o equipamento de som e luz pertencia à banda, Tiãozinho fez muitas festas sem cobrar cachê do contratante, apenas assumindo o risco do lucro obtido com a venda de ingressos na portaria, principalmente na periferia de Brasília. Ele fazia questão que sua banda fosse conhecida e querida por todos, o que rendeu alguns problemas com contratantes da elite social:
Um diretor de clube um dia me falou:“Olha, Tião, eu ouvi no rádio que ontem vocês tocaram em Santa Maria , não é?”. [Tiãozinho disse: É.] 33
“Então eu queria te pedir para não fazer mais isso, por que se não pode pegar mal. Já pensou se um de nossos associados fica sabendo que ontem vocês tocaram num lugar daquele, e hoje está tocando aqui?” [Ô Fulano..., alguma vez minha banda deixou a desejar em algum evento de vocês?]. “Não.” [Algum associado reclamou disso?] “Não.” [Então me perdoe a franqueza, mas nós vamos continuar a tocar na periferia, pois eu preciso dar trabalho para meus músicos e alegrar o povo.]
A competência em levar diretamente ao público uma apresentação musical de altíssima qualidade, apesar de um número reduzido de artistas no palco, diferenciou o Squema Seis das demais bandas de show, permitindo que se apresentasse frequentemente na região sudeste, localidade dominada por bandas show, com bailarinos, troca constante de figurino e cenários, como já dito