Criado em março de 1878, O Bezouro, jornal do editor e caricaturista Raphael Bordallo Pinheiro, surge como uma folha ilustrada humorística e, assumindo uma postura crítica, em abril de 1878, lança o artigo “A seca do Ceará”, onde descreve de forma sarcástica o socorro dado pela Companhia de Feno Nacional aos animais que morriam de fome, enquanto os retirantes permaneciam sem socorro (ANDRADE, 2004, p. 189-190).
Em maio, o jornal enviava para uma cobertura da seca, o jovem José do Patrocínio, que já no caminho registrava suas impressões, que seriam enviadas e publicadas pela A Gazeta de Notícias:
Criancinhas nuas e seminuas, com os rostos escaveirados, cabelos emaranhados sobre crânios enegrecidos pelo pó das longas jornadas, com as omoplatas e vértebras cobertas apenas por pele ressequida, ventres desmesurados, pés inchados, cujos dedos e calcanhares foram disformados por parasitas animais, vagam sozinhas ou em grupo, tossindo a sua anemia e invocando, com a voz fraquíssima, o nome de Deus em socorro da orfandade. (ANDRADE, 2004, p. 191)
Essa descrição seria potencializada pela força das imagens captadas pelas lentes de J. A. Correa, fotógrafo cearense que, em formato de carte-de-visite, registra as imagens dos flagelados das secas.
O formato em carte-de-visite sugere que as fotos não circularam somente no meio jornalístico, mas devem ter ido além, circulando por diferentes ambientes, comercializadas em casas em cujas prateleiras, as imagens da seca partilhavam o espaço, com imagens de panoramas da Baia de Guanabara ou talvez de tipos humanos característicos, como aqueles fotografados durante as expedições de Marc Ferrez. Observando a imagem do meio (figura 10), nota-se a presença de suportes atrás da nuca do fotografado, tal aparato teria por função garantir que o
fotografado não sairia da pose combinada, facilitando o trabalho do fotógrafo, mas também produzindo uma realidade construída: o que era publicado como um registro espontâneo, um flagrante da realidade era, de fato, não uma mentira, mas uma representação, uma recriação da verdade. Assim, embora a seleção do fotografado, dos trajes e da pose, indiquem o desejo de criar uma imagem chocante, isso não diminui o valor da denúncia, posto que até então, embora as secas sempre tenham existido, os leitores cariocas não tivessem referencial visual sobre o que de fato seria essa calamidade. As matérias escritas por José do Patrocínio e ilustradas por J. A. Corrêa, na leitura de Andrade constituem-se no primeiro passo do “sistema que seria conhecido como fotorreportagem, ou seja, uma reportagem na qual as fotografias constituem a parte mais importante, acompanhadas de legendas ou textos explicativos” (ANDRADE, 2004, p. 199).
Embora possamos encontrar ainda nos anos de 1930 e a representação atemporal das capitais nordestinas como centros urbanizados, a partir das narrativas de José do Patrocínio, Rodolfo Teófilo e das fotografias de A. Correia, as paisagens do sertão seco, natureza inóspita, aos símbolos de morte – como a imagem que encontramos em um manual de Geografia de 1935, em que vemos urubus espreitando um retirante passariam timidamente a surgir.
Na comparação entre a ilustração do homem no livro de Espinheira, de 1935, e a fotografia de Corrêa, (figura 11) podemos observar além das semelhanças físicas – até mesmo nos traços do rosto – entre ambos, uma semelhança na dinâmica do gestual, ambos se encontram acocorados, braços apoiados nos joelhos, mirando, de frente o seu observador. Tradicionalmente reconhece-se no texto de Euclides a gênese das representações que iriam constituir o imaginário coletivo sobre o Nordeste e o sertanejo nordestino. O impacto e a importância de seu trabalho, tanto como relato jornalístico de seu tempo, quanto como uma narrativa elaborada e inovadora, transformaram suas palavras em tradução do sertão. Em seu trabalho, Odair Paiva (2004) vê na obra de Euclides da Cunha o momento de criação das representações sobre o retirante. Ao contrário dele, Ferreira e Dantas, pensam na inauguração dessas representações numa data anterior.
Figura 10. J. A. Correa. Foto para O Bezouro.
Fonte: No original em modelo carte-de-visite, 1877-1878 e Reprodução das fotos de Correa na página de
O Bezouro, In: O design brasileiro antes do design. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, 3ª reimpressão, p. 192-
193.
Figura 11. Retirantes.
Fonte: (à esquerda) Retirante. ESPINHEIRA, Viagem através do Brasil, 1935, p. 20. (à direita) J. A. Correa. Foto para O Bezouro. No original em modelo carte-de-visite, 1877-1878.
Apoiados na análise dos jornais da época, defendem que, dada a larga divulgação do fenômeno emigratório durante a grande seca de 1877-187935, teria ocorrido, naquele momento, o nascimento de um novo sujeito coletivo: o retirante. Identificado com o homem derrotado pela natureza e sendo obrigado a abandonar sua terra, em busca de um novo lugar, mas também associado à desestabilização da ordem de jovens centros em processo de urbanização, como as cidades como Mossoró, Aracati e, principalmente Fortaleza; cidades que entre 1877 e 1878 receberam cerca de 110 mil retirantes, alojados em colônias de recepção improvisadas. O retirante, como representação, nasceria, portanto, como fruto de um contexto de sofrimento e caos urbano, binômio que por sua vez, o acompanhará sempre que sua presença for descrita nas páginas das revistas ilustradas36. Faz necessário ainda, observar que, no caso dos jornais, o sertão e o retirante foram lentamente passando da situação de invisibilidade para a de uma pequena e ainda incompleta visibilidade, como é possível observar na fala de Oswald de Andrade, que em vigem ao Recife, em 1925, “[...] falara da ignorância dos sulistas em relação àquela cidade, embora fosse uma das maiores do país. As primeiras imagens do Norte para a maioria dos sulistas eram aquelas trazidas pelos jornais sobre seu flagelo” (ALBUQUERQUE, 1999, p. 69). Mas a imprensa foi fundamental para alterar essa realidade. A veiculação de textos e imagens foi, mesmo que lentamente, atualizando a população do Sul sobre as secas.
No início dos anos 50, em viagem pelo Nordeste, registrada em Visão da Sêca do Nordeste, Carlos Lacerda, registra suas impressões, afirmando que o Sudeste não entende as secas:
35 Sobre esta questão, Albuquerque Jr, afirma que a seca de 1877-1879 fora a primeira a ter grande repercussão nacional pela imprensa e a atingir setores médios dos proprietários de terras. Albuquerque Jr, D.M. A invenção do
nordeste e outras artes. Ed. Cortez: São Paulo, 1996, p. 68. Em consonância com a leitura de Albuquerque Jr, temos
a obra de Rodolfo Teófilo A Fome, publicada pela primeira vez em 1890, na qual, em forma romanceada o autor mostra, justamente, a jornada de um proprietário de terras de posses medianas e que se vê obrigado a migrar com sua família, a pé, do sertão para a cidade, assistindo, pelo caminho perecerem a vida e os princípios que nos tornam humanos, todavia, insistia Teófilo que, o que embrutece não é a seca, mas sim, a fome. TEÓFILO, Rodolfo. A Fome. Cenas da seca do Ceará. Organização e notas de Waldemar Rodrigues Filho; posfácio de Lira neto. São Paulo: Tordesilhas, 2011. Quanto à visibilidade conferida aos retirantes a partir da cobertura realizada sobre a seca de 1877, é compartilhada também por Lima, Ariza Maria Rocha. A seca, o sertanejo e a ginástica sueca na batalha da borracha
(1942-1945). In: Cavalcante, Maria Juraci Maia et al. História e Memória da Educação no Ceará. Fortaleza: Imprensa
Universitária, 2002. Disponível também em EFDEPORTES – Revista Digital. Buenos Aires – Año 8 – nº 58 – Marzo de 2003. Ver também Neves, Frederico de Castro. A memória do Nordeste e o Nordeste na memória. Comunicação datilografada. Acervo do Centro de Estudos Migratórios.
36 FERREIRA, A.L.A. e Dantas, G.A.F. Os indesejáveis na cidade: as representações do retirante da seca
(Natal, 1890-1930). Scripta Nova – Revista Eletrônica de Geografia y Ciências Sociales. Universidad de Barcelona, nº 94, Migración y Cambio Social, 01 de agosto de 2001.
O que existe hoje no Nordeste e confunde os que estão distantes, é que, antigamente, o Sul só tomava conhecimento do flagelo da sêca no segundo ou terceiro ano. Então, toda a gente se espantava quando sabia que por lá morriam, de fome e de outras consequências, milhares de pessoas. Hoje, a grita surge logo no começo do flagelo, e muitos pensam que isso é exploração, que não existe, que intriga da oposição. [...] Cada sêca que vem retira um pouco da capacidade de resistir, da capacidade de esperar para ver como fica o tempo. (LACERDA, [195-], p. 57)
Embora a visibilidade parcial dos jornais já suscitasse o questionamento de alguns, quanto às notícias e imagens do Nordeste, no caso específico da revista O Cruzeiro, campeã de vendagem do período, o sertão e a seca permaneceriam invisíveis até a década de 1940.