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Discussion and conclusions: Problems on different levels and of different kinds

Durante o início do período republicano, a questão da imigração via-se permeada pelo problema do povoamento e da introdução de uma mão de obra que se acreditava melhor qualificada, associando-se ainda os interesses do projeto positivista civilizador, impregnado de

darwinismo social e, é claro, à questão racial, motivada pelas vozes que defendiam a necessidade do branqueamento da população.

Durante as três primeiras décadas do século XX a questão da imigração esteve profundamente ligada à consolidação de um projeto de povo e nação que colocava em contraposição o projeto de branqueamento e europeização da população ao projeto de valorização da brasilidade mestiça. Opunham-se, portanto diferentes perspectivas de compreensão da identidade nacional76.

Em 1930, embora a questão da ocupação do território estivesse, ainda àqueles tempos, na ordem do dia, para o governo revolucionário de outubro, as preocupações em relação à construção de uma nova nação passavam, fundamentalmente, pela questão da formação de uma identidade nacional.

2.2.1 O Brasil e a questão da identidade

O tema da identidade nacional estava na pauta do dia no Brasil dos anos de 1920 e 1930, desde a Semana de Arte Moderna. Entender nossas particularidades e encontrar o que nos fazia brasileiros, era o exercício de acadêmicos, literatos e jornalistas. No texto, O Brasil e a raça, de Batista Pereira, para a abertura da edição de janeiro de 1929 da Revista O Cruzeiro, lia-se um longo texto apologético, que descrevia os tipos regionais brasileiros, ou como expressava o autor “as raças brasileiras”, destacando-lhes o caráter e seu papel como “energia” da nação. No texto, o sertanejo do Sudeste, é descrito da seguinte forma: “O matuto e o caipira de Minas e S. Paulo, menos épicos e mais utilitários, com as facilidades de comunicação dos dois grandes estados quase desapareceram, mas são a mesma falange de desbravadores de sertões, que estão fazendo no norte do Paraná um novo S. Paulo”. (Revista O Cruzeiro, 12 de janeiro de 1929, p. 03)

Ressaltando-lhes o ímpeto transformador, o autor destaca a obra do caipira de São Paulo e Minas Gerais, e prossegue, adiante, descrevendo o nordestino:

O sertanejo baiano, que desce dos rincões nataes para vir, a pé, fazer a colheita dos cafezais paulistas e volver alegremente aos lares, como se fossem um brinquedo as centenas e centenas de léguas de

76 Esta questão está minuciosamente discutida em O caráter nacional brasileiro. Dante Moreira Leite. São Paulo: Editora Ática, 1992.

ida e volta; o nordestino, que prefere a todas as outras, a sua terra ulcerada de sol, que só a sabe abandonar no auge das seccas, e que às primeiras chuvas repudia todos os interesses para volver ao seio materno, onde o refrigério das aguas curou as chagas solares. (Revista O Cruzeiro, 12 de janeiro de 1929, p. 03)

Acompanhando os dois excertos percebe-se que, enquanto o caipira do Sudeste é entendido a partir de sua obra transformadora, o baiano tem por característica sua presteza em realizar a migração sazonal para o trabalho da colheita do café, que não é descrito como uma viagem dura e penosa, em tempos em que a linha Central do Brasil ainda não ligava o Rio de Janeiro à Monte Azul, no sertão mineiro, próximo à divisa com o estado da Bahia, sendo a viagem feita à duras penas por terra e por mar, sem contrato de trabalho, ou quaisquer outras garantias. O homem do semi-árido, é definido como “nordestino”, desprovido de indicação de pertencimento a um estado específico, esse personagem é identificado somente por sua persistência em permanecer numa terra em que, para o autor, não possui e nenhum atrativo, e nada produz, além de tristeza e esperanças vãs, trazidas pela chuva.

Se na década de 1920 e ainda até meados dos anos de 1930 o debate sobre uma identidade nacional buscava resolver uma equação de múltiplas variáveis, exposta pelo problema da mestiçagem e das identidades regionais, na década de 1930, com o fortalecimento do nazi- fascismo, seria a perspectiva totalitarista, de uma identidade construída a partir da instituição da uniformidade, que ditaria as regras. Em Sobre História, Hobsbawn aborda a questão do uso do discurso sobre uma cultura de identidade como instrumento característico de regimes nacionalistas, lembrando o historiador francês do século XIX, Ernest Renan, destacando que:

“Esquecer, ou mesmo interpretar mal a história, é um fator essencial na formação de uma nação, motivo pelo qual, o progresso dos estudos históricos muitas vezes é um risco para a nacionalidade”. As nações são entidades historicamente novas fingindo terem existido durante muito tempo. É inevitável que a versão nacionalista de sua história consista no anacronismo, omissão, descontextualização e, em casos extremos, mentiras. Em um grau menor, isso é verdade para todas as formas de história de identidade, antigas ou recentes. (HOBSBAWN, 1998, p. 285)

A reflexão de Hobsbawn nos chama a atenção para um ponto fundamental: a busca por uma identidade nacional, pela valorização de símbolos nacionais, fazia parte de um projeto de consolidação do poder político de um grupo, que lançava mão do discurso amparado em princípios como o tempo, a história e a tradição, para forjar para si um passado para ilusoriamente, transformar o seu presente na continuidade de um projeto fictício de passado. Todavia, para além dos interesses do Estado, outros grupos também tinham a questão da compreensão de nossas

identidades, nacional e regional, como um tema de grande apelo, pois durante os anos de 1920 e início dos anos 1930, tanto a partir da perspectiva da brasilidade dos modernistas paulistas, quanto a partir da perspectiva de outros grupos e de outros movimentos a identidade cultural brasileira estaria na ordem do dia. Embora tenham projetado sua leitura sobre a questão da identidade nacional de maneira impactante, não podemos afirmar que os modernistas paulistas representassem uma leitura de consenso entre a intelectualidade brasileira77. Nome de peso entre os intelectuais brasileiros, já àquela época, Gilberto Freyre, líder dos regionalistas - intelectuais do Nordeste que também desenvolviam um projeto de reinterpretação da cultura e do perfil nacional - achava que a verdadeira modernidade não deveria ser importada, mas atingida a partir da renovação das próprias tradições nacionais e regionais.

A questão regional tomou forma, e em 1926, com o objetivo de debater a questão da identidade cultural brasileira, realizou-se o 1º Congresso Brasileiro de Regionalismo, na cidade do Recife. Na ocasião, Gilberto Freyre, o principal idealizador do evento, apresentando um manifesto, criaria o Movimento Regionalista, Tradicionalista e, ao mesmo tempo, Modernista, do Recife. O movimento, referendado por pensadores tanto de esquerda, quanto de direita, dizia-se apolítico e embora enfatizasse as diferenças entre as sub-regiões do Nordeste, seus participantes, negavam qualquer caráter separatista; como é possível observar no texto do Manifesto:

A maior injustiça que se pode fazer a um regionalismo como o nosso seria confundi-lo com separatismo ou bairrismo. Com anti-internacionalismo, anti-universalismo ou anti-nacionalismo. Ele é tão contrário a qualquer espécie de separatismo que, mais unionista que o atual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do estadualismo, lamentavelmente desenvolvido aqui pela República – este sim, separatista – para substituí-lo por novo e flexível sistema em que as regiões mais importantes que os estados se completem e se integrem ativa e criadoramente em uma verdadeira organização nacional. Pois são modos de ser – os caracterizados no brasileiro por suas formas regionais de expressão – que pedem estudos ou indagações dentro de um critério de interrelação que ao mesmo tempo amplie, no nosso caso, o que é pernambucano, piauiense ou até maranhense, ou alagoano, ou cearense em nordestino, articule o que é nordestino em conjunto com o que é geral e difusamente brasileiro ou vagamente americano. (FREYRE, 1996, p. 48)

77Albuquerque Jr tece sua crítica ao modernismo paulista, afirmando que: “O que o modernismo fez foi incorporar o elemento regional a uma visibilidade e dizibilidade que oscilavam entre o cosmopolitismo e o nacionalismo, superando a visão exótica e pitoresca naturalista. Esses elementos são retrabalhados ora para destruir sua diferença, ora para ressaltá-la, apagando aquela distância produzida pelo olhar europeizado. [...] o cacto, por exemplo, passa a ser um signo de brasilidade, do primitivismo, da aspereza de nossa realidade nacional, nos quadros de Tarsila do Amaral, surgindo em paisagens que nada têm a ver com as paisagens naturais da caatinga nordestina onde é predominante.” A

A leitura culturalista de Freyre, exposta no Manifesto, aponta para uma dimensão ampla do que seja identidade e brasilidade. O autor, com extrema perspicácia aponta para uma questão crucial: a necessidade de perceber-se que, se por um lado era inegável a existência de vários e não apenas um Nordeste, por outro, era igualmente importante reconhecer-se quais seriam os elementos que indicam pontos de contato entre essas culturas, permitindo o vislumbre de um conjunto que poderíamos chamar de identidade nordestina; bem como pontos de contato dessa com as culturas das outras regiões do Brasil, possibilitando aí a compreensão de uma brasilidade. No discurso de Freyre, o regionalismo - esse regionalismo não-estadualista - teria um papel decisivo, para promover uma verdadeira unidade nacional a partir de uma compreensão das complexidades e também das semelhanças dos elementos culturais que compunham a sociedade brasileira, defendendo ainda as tradições culturais regionais das influências externas. Justamente por isso, diverge do modernismo antropofágico paulista, fortemente marcado por elementos estéticos do modernismo europeu.

Ainda sobre a questão do território, ao contrário de Oliveira Viana que, em sua obra Populações Meridionais do Brasil, via nas dimensões continentais do país um empecilho para a formação de uma identidade nacional – além de considerar os “estados do Norte” condenados à decadência em função da raça e do clima78, conforme Albuquerque – Gilberto Freyre (2004), procurou valorizar a extensão do Nordeste, mostrando-lhe a riqueza e a diversidade cultural, demonstrando em seus trabalhos o caráter heterogêneo da cultura nordestina e por extensão, de toda a cultura brasileira, defendendo a compreensão da identidade a partir da relação entre particularidades e semelhanças, ligadas às constituições não somente da geografia física, mas

78 ALBUQUERQUE JR. Durval Muniz. A invenção do Nordeste e outras artes, p.58. Diferentemente de Freyre, Viana, em sua obra de 1920, apresentava o caráter mestiço do povo brasileiro, e também as dimensões continentais do país, como fatores negativos para o desenvolvimento de uma sociedade dita civilizada. Contudo, o pensamento de Viana traria também, elementos de originalidade que foram observados mais à frente, na obra pensador de Apipucos. Viana, distanciando-se das teorias de ufanistas como as de Ellis Júnior, entendia que mesmos princípios teriam norteado a formação das sociedades brasileiras, principalmente no que se refere ao sistema senhorial e patriarcal, ideia com a qual concordará Freyre. Apresentamos esta discussão, mais detidamente em O Olhar de quem faz. O paulistismo sob a ótica

do operariado paulista durante a Revolução Constitucionalista de 1932. ALMEIDA, I.B.S. Dissertação de mestrado,

principalmente humana da região, sugerindo assim uma nova regionalização do país, a partir de uma diferenciação interna do Nordeste e também entre este e a região Norte79.

O fato é que com o fortalecimento do discurso nacionalista de Vargas, ganharia força, cada vez mais, uma ideia de nacionalismo que pretendia alcançar uma homogeneização da cultura e não a compreensão ou a valorização de seus diferentes atores sociais e suas respectivas singularidades culturais. No quadro internacional, era essa visão totalitarista que ganhava força com a ascensão dos governos nazi-fascistas, que logo despertaram a simpatia de grupos da sociedade brasileira que revisitavam a antiga ideia da migração estrangeira como forma da melhoria da raça. Durante a guerra, o governo brasileiro havia passado a autorizar a entrada, não de qualquer europeu que desejasse para cá imigrar, entrariam somente os “melhores”, mais adaptáveis. Além das preocupações com o elemento humano, nos projetos de crescimento econômico e segurança nacional, os tempos de guerra haviam recuperado também, o discurso sobre a necessidade do povoamento para viabilizar o desenvolvimento.