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Crossing affordances: Hybrid music as a tool in intercultural music practices

No século XVIII, o Vocabulario Portuguez e Latino, do padre londrino radicado em Portugal, Raphael Bluteau, trazia a seguinte definição: “Sertaõ. Regiaõ apartada do mar, & por todas as partes, metida entre terras[...]”30; atribuindo simplesmente uma conotação geográfica ao conceito. Porém, será no discurso sobre o semi-árido e no uso do termo, que perceberemos o peso das representações associadas ao sertão.

No século XIX, tanto durante o Segundo Reinado quanto na Primeira República, algumas preocupações frequentavam o discurso oficial, que demonstrava grande preocupação em transformar o Brasil numa nação civilizada e, para isso um dos pontos que se colocava em questão era o da formação racial do povo brasileiro. Nessa perspectiva, o sertão estaria na contramão do processo civilizatório, não só por estar mais distante do modo de vida europeu, mas também por ter uma população fortemente mestiça. Nos escritos de Paulino José Soares, Ministro do Império – Visconde do Uruguai lia-se que: “A população do sertão não participava dos benefícios da nação [...]”. E seguia, afirmando que “era preciso distinguir a rebelião do Sul e as dos sertões. No Sul os crimes são políticos; no sertão os crimes são frutos de outras paixões que não a política”.

Em sua tese, Célia Nonata Silva define sertão como “mestiço”, a autora identifica-o como um espaço propício para o fenômeno da mestiçagem por apresentar uma cultura de fronteira. Porém, objetivando distanciar-se de trabalhos que reafirmam a oposição litoral versus sertão, ou seja; civilização versus barbárie, a autora busca por uma compreensão endógena do sertão; no entanto, acaba frequentemente por recorrer aos mesmos mecanismos da comparação entre Nordeste e Sudeste para caracterizar o sertão:

O ritmo do sertão, que não será o mesmo das vilas urbanas – centros de poder da metrópole –, estruturou um modo de vida sertanejo, uma cultura tradicional e concentrou um processo de poder de mando peculiar, dando origem a uma cultura política particular no setecentos mineiro. O sertão, então, esboçou já no século XVIII uma tradição cultural sertaneja mestiça que lhe outorgaria uma forma de poder de mando sustentada numa prática costumeira do uso da valentia, das mostras da honra e no resguardo da vingança. (SILVA, 2004, p. 173)

30 Conforme o verbete “Sertão” em Vocabulario Portuguez e Latino, hospedado no site do IEB: Disponível em <http://www.brasiliana.usp.br/pt-br/dicionario/edicao/1 >. Acesso em 05 de maio de 2008.

Silva, em sua tese, discute algumas características próprias desse ambiente cultural e que dentre as quais se destacam a “valentia” e a “defesa da honra”, observadas como integrantes de um jogo de poder típico do mundo rural, pois a cultura política do mandonismo local31 não fora abafada pelas pretensões centralizadoras das câmaras municipais (SILVA, 2004, p. 173-4).

Observemos, contudo que a imagem do sertão e do sertanejo são indissociáveis, sendo que as imagens e ideias que se remetiam ao sertão, e por extensão, ao sertanejo, tendiam sempre a estabelecer uma relação de completa oposição entre os valores do litoral-civilizado e do sertão- bárbaro. Ocupação-urbanização e missão civilizadora estariam assim definitivamente associadas, donde, durante os primeiros cinquenta anos da república, ocupar os vazios do território brasileiro constituía-se em uma prioridade, não somente para garantir a integralidade do território, mas também e principalmente para alcançar a diluição da presença e da influência dos elementos étnicos indesejáveis. Ou seja, o que podemos concluir é que, embora o sertão fosse descrito como “o não-lugar”; “como o espaço em oposição à”, tanto no período colonial, quanto no segundo reinado e também da Primeira República; as questões que se apresentavam eram distintas: inicialmente temos o sertão como lugar de ausência, em oposição ao litoral no confronto entre civilização e barbárie; enquanto que, no segundo momento, há o acréscimo da questão racial, a condição de civilização não estaria sinalizada somente pelo modo de vida, mas pelo tipo de indivíduo; no caso do sertão, como colocara Euclides, o homem seria o produto, o espelho do meio sendo, portanto, o sertanejo, o resultado dos efeitos do espaço bárbaro e brutalizado dos sertões sobre a natureza humana.

Sobre a questão do valor da civilização, segundo Zimmermann (2008), para Norbert Elias, o conceito de civilização nasce no Ocidente associado a diferentes variáveis, como o desenvolvimento das técnicas, o desenvolvimento das ciências, a transformação dos costumes, as transformações na visão de mundo e também, as transformações na compreensão da intervenção divina na vida dos homens.

Primeiramente, expressava o sentimento de superioridade das chamadas classes superiores sobre as consideradas inferiores e depois passou das nações ocidentais como um todo sobre as demais regiões no mundo com vistas à legitimação da colonização. Essas sociedades procuravam caracterizar-se pelas suas especificidades e com aquilo que lhes conferia orgulho [...]. Essas

31 Sobre esta questão ver também o artigo de JESUS, Alysson Luiz Freitas de. O sertão e sua historicidade: versões e representações para o cotidiano sertanejo – séculos XVIII e XIX. In História e Perspectiva, Uberlândia, nº 35, p. 256-259, Jul-Dez 2006.

especificidades, tais como atitudes, sentimentos e modos de conduta, eram tidas como “naturais”. (ZIMMERMANN, 2008, p. 2)

Chama-nos a atenção, o fato de que, nesse processo, tanto as sociedades ditas civilizadas, assumem a posição e a missão civilizadora, quanto àquelas ditas não-civilizadas, em grande medida aceitam a rotulação imposta. Portanto, quanto mais distante do modo de vida europeu, mais bárbaro.

Embora Durval Albuquerque (1999) discuta em A invenção do Nordeste a redução do Nordeste à seca, tal qual dissera Freyre em Nordeste, acreditamos que no caso das imagens difundidas nos manuais ou pela imprensa, não se trate de reduzir o Nordeste ao sertão, pois, como apresentaremos em nossa tese, as imagens de sertão, desenvolvimento e exotismo circulavam concomitantemente. Trata-se, todavia, de questionarmos a representação limitada do sertão; o que se coloca em questão aqui nesta etapa é, portanto, não a redução do Nordeste ao sertão, mas a redução do sertão à seca, à miséria, à barbárie e ao sofrimento.

Portanto, enquanto os valores de civilização e modernidade fossem significativos - para o Estado e para a imprensa - o sertão seco pouco apareceria, pois representava justamente aquilo que se desejava eliminar no projeto de construção de um novo Brasil republicano e moderno.