Uma organização, como é o caso de um hospital, pode ser definida como um sistema composto por actividades humanas aos mais diversos níveis, constituindo um conjunto complexo e multidimensional de personalidades, pequenos grupos, normas, valores e comportamentos, ou seja um sistema de actividades conscientes e coordenadas de um grupo de pessoas para atingir objectivos comuns (Chiavenato, 1995).
Verifica-se, assim, que as organizações hospitalares são sistemas complexos compostos por diversos departamentos e profissões, tornando-as sobretudo uma organização de pessoas confrontadas com situações emocionalmente intensas, tais como vida, doença e morte, as quais causam ansiedade e tensão física e mental (Furtado & Júnior, 2010).
Segundo Júnior, Alchieri & Maia (2009), num estudo realizado em Hospitais do Brasil, a classe dos profissionais de saúde é classificada como uma das de alto risco de tensão e de adoecimento. Se o trabalho pode ser considerado como desencadeador de desgaste e tensão, o stress ocupacional pode acontecer quando há um desequilíbrio resultante da relação entre as exigências do trabalho e a habilidade efectiva do trabalhador enfrentar as situações stressantes. O sofrimento psicológico do trabalhador pode dar-se quando ele já não consegue transformar o seu trabalho, no sentido de conseguir adequá-lo às suas necessidades psíquicas e fisiológicas.
A lista de factores desencadeadores de riscos no trabalho destes profissionais é ampla, conferindo-lhes condições laborais inadequadas, destacando-se negativamente: a rotina das tarefas; as interrupções permanentes; o ritmo intenso; os conflitos interpessoais com os colegas da mesma equipa ou organização ou até mesmo as chefias; a dificuldade em dar resposta às dificuldades dos pacientes e dos seus acompanhantes e familiares; o contacto com a dor e a morte; a falta de pessoal nos quadros dos serviços; a falta de tempo livre para actividades extra laborais; e a não participação na tomada de decisão à cerca de mudanças institucionais (Felli, 2012).
Com base no conhecimento entre as dificuldades psicológicas do trabalho e o controlo auto referidos pelos trabalhadores do contexto hospitalar, podem ser sugeridas medidas de flexibilização na organização do trabalho de forma a reduzir a sobrecarga psicossomática e, consequentemente, evitar doenças resultantes das agressões sofridas neste ambiente (Furtado & Júnior, 2010).
Muitos profissionais deste contexto consideraram que no seu trabalho têm pouca liberdade para decidir como devem fazê-lo. No entanto, se tivermos em conta a real dinâmica do trabalho destes profissionais, talvez consigamos, em parte, explicar o porquê. Existe todo um planeamento de actividades no decorrer dos turnos de trabalho destes, porém, muitas vezes, eles não conseguem colocar em prática esse planeamento devido a possíveis inúmeras situações (como situações de emergência, interrupções inesperadas, falta de pessoal, entre outras), causando o sentimento de impotência e de pouco controlo (Campos & David, 2011).
No desenvolvimento do trabalho, além da modificação da natureza, o homem modifica-se a si próprio, na medida em que o trabalho proporciona o desenvolvimento de suas potencialidades latentes. É enfatizada a importância da natureza do trabalho e das condições em que é exercido no desenvolvimento das capacidades dos trabalhadores (Weber & Grisci, 2010).
Há a constatação que a prática dos profissionais de prestação de serviços de assistência à saúde sofre o impacto das políticas sociais e económicas capitalistas do país. Um desses impactos é constatado pelas más condições de trabalho, o que é inquestionável tendo em conta o número crescente de situações constrangedoras que afectam a saúde dos trabalhadores, como por exemplo, o intenso ritmo de trabalho, a necessidade de dar resposta a várias coisas ao mesmo tempo ou o ter de adoptar posturas penosas, desencadeando-se, muitas das vezes, em doenças profissionais (Magnago, Lisboa, Griep, Zeitoune & Tavares, 2010).
Dado o número de horas que estes profissionais tem de trabalhar seguidas, faz com que se torne mais intenso o impacto das condições de trabalho. Existem casos de falta de trabalhadores que implica na intensificação do ritmo de trabalho e de um aumento de tarefas, levando, portanto, ao seu desgaste. Juntando a isto a queixa que tem sido frequente destes profissionais relativamente à remuneração que lhes é aplicada, também acaba por agravar as situações de desânimo e desmotivação destes. Apesar disso, não deixa de ser frequente vermos que muitos destes trabalhadores acabam por dar muitas horas extra à casa, acabando, muitas vezes, por serem horas que trabalham mas, que não são pagas (Campos & David, 2011).
Como consequências, além dos possíveis casos de doença, as condições de trabalho e a exposição dos trabalhadores a estas cargas implicam ainda: a diminuição da capacidade para o trabalho - apesar de muitos destes profissionais terem restrições das suas actividades, realizam as suas tarefas com dor, desgastados, exauridos da
energia vital mas, demonstram que têm um comprometimento com os colegas e com os pacientes, acabando por só se afastarem quando atingem uma situação de “pico”; o absentismo – é cada vez mais frequente a ausência dos trabalhadores por motivos de doenças relacionadas com a sua prática laboral; a implicação e os custos dos afastamentos – tendo em conta que as remunerações destes não se têm demonstrado as melhores, presenciamos cada vez mais casos de profissionais a exercerem a sua actividade mesmo estando doentes, pois não querem deixar de trabalhar não só pelo comprometimento com os colegas e os pacientes mas, também, pelo impacto que esse afastamento poderá ter no salário ao final do mês, apesar de ser sabido que, os trabalhadores têm direito a x dias mas, também com a procura de vários profissionais para estes lugares, acaba por levar também ao receio destes perderem os seus lugares a longo prazo (Weber & Grisci, 2010).
O meio hospitalar é também definido como a possibilidade diária e ininterrupta de ter como objecto de trabalho uma pessoa gravemente doente, que precisa de cuidados imediatos e que corre o risco de vida. Para que o processo de trabalho possa acontecer, são necessárias condições adequadas que incluem desde o ambiente, o pessoal, ao material necessário para desempenhar as devidas actividades (Felli, 2012).
Nos dias de hoje, é cada vez mais visível a percepção destes profissionais quanto à realidade dos seus contextos laborais, o que tem levado à desmotivação, à insegurança e ao baixo rendimento dos mesmos. O processo e organização do trabalho é configurado hoje em dia por uma carga de trabalho excessiva, um ritmo intenso de trabalho, um controlo rigoroso das actividades, a pressão temporal, a necessidade de ter profissionais polivalentes, entre outras (Magnago, Lisboa, Griep, Zeitoune & Tavares, 2010).
Os trabalhadores do meio hospitalar não são passivos diante das imposições organizacionais e, por isso, procuram proteger-se dos efeitos nocivos, utilizando a sua inteligência, a prática, a personalidade e a cooperação (Weber & Grisci, 2010).
O hospital tem sido objecto de estudo de inúmeros estudos que envolvem: os pacientes, os tratamentos e a sua relação com a equipa de profissionais; as práticas médicas mais eficientes e eficazes; o controlo de infecções; a organização hospitalar como espaço de disciplina, onde interactuam relações de saber-poder, saúde-doença; e a objectificação dos pacientes vs humanização da assistência. Assim, o hospital também tem sido alvo de interesse enquanto espaço de trabalho que, paradoxalmente
ao seu produto – que é a saúde, tem produzido condições potenciais de adoecimento dos seus trabalhadores (Campos & David, 2011).
Com efeito, nos últimos anos, muito se tem falado de "humanização hospitalar", verificando-se que os estudos desenvolvidos sobre esta temática têm como objectivo primordial a qualidade de serviços prestados a quem procura e necessita de cuidados hospitalares, ou seja, os seus utentes. As condições de trabalho, a motivação e, em consequência, o bem-estar dos profissionais de saúde tem sido deixados para segundo plano, ou até mesmo completamente descurado (Weber & Grisci, 2010).
De salientar, que o próprio Ministério da Saúde, embora se preocupe com as duas dimensões fundamentais do trabalho na organização hospitalar (o utente e o trabalhador da instituição), em relação à dimensão humana dos trabalhadores hospitalares, esta não parece ser contemplada, interessando, sim, os aspectos técnicos, o saber e o saber fazer. Sendo assim, o ser, o saber ser, o saber estar e sobretudo o bem-estar dos profissionais de saúde, são aspectos que não foram fonte de preocupação até há bem pouco tempo (Cardo, 2004).
Historicamente isto é visível, pois os profissionais de saúde não eram considerados como uma categoria de alto risco para acidentes e doenças profissionais. Só no final da década 40 do séc. XX, é que o trabalho hospitalar começou a ser visto de outro modo, face ao agravamento da saúde de um profissional, após se ter picado com uma agulha, sendo este um dos primeiros casos bem documentados sobre a transmissão de Hepatite “B”. No entanto o primeiro plano para a diminuição da exposição aos riscos inerentes ao trabalho hospitalar, só foi elaborado na década de 80, do séc. XX, com o aparecimento do Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA), tendo sido só a partir daqui que se começou a dar um maior ênfase aos riscos de natureza hospitalar (Figueiredo, 1992).