5. General introduction
5.4. Feed efficiency
5.4.1. Factors contributing to feed efficiency
Uma possibilidade de discussão relacionada com o tema do altruísmo, na Filosofia, consiste na busca pelo seu oposto, isto é, o egoísmo. Alguém poderia até mesmo ser tentado a pôr fim ao debate sobre o genuíno altruísmo, alegando que este não existe ao cabo e ao final, pois debaixo das aparências haveria sempre alguma motivação egoísta nas ações humanas. Porém, ao mesmo tempo em que o egoísmo é reprovado pelos códigos morais e pelas religiões, a busca do interesse próprio pode ser constatada, com freqüência, nos indivíduos, correspondendo a uma espécie de instinto de auto-afirmação, além de funcionar, às vezes, como motor da história pessoal. Sua erradicação parece impossível, o que leva a pensar que a melhor estratégia talvez seja enclausurá-lo, para que o bem próprio possa ser buscado concomitantemente ao bem coletivo. Por isso, as diversas formas de negociação, de acordos, tratados e alianças pretendem equilibrar os interesses individuais frente às exigências da vida em sociedade.
Aristóteles (1987, p.167) apresenta o assunto, reprovando o centramento em si mesmo, nos seguintes termos:
(...) São criticados aqueles que amam a si mesmos mais do que a qualquer outra coisa e dá-se-lhes o nome de ególatras, que é considerado um epíteto pejorativo; e um homem mau parece fazer tudo no seu próprio interesse, e isso tanto mais quanto pior ele for. É acusado, por exemplo, de não fazer nada espontaneamente, enquanto o homem bom age tendo em vista a honra, sacrificando os seus interesses pessoais, e isso tanto mais quanto melhor ele for.
Ora, nesta acepção a crítica é dirigida ao “culto de si mesmo”, a egolatria. A rigor, nem mesmo os homens bons estão isentos de alguma forma de motivação pessoal, já que têm em mira a honra, quando agem mesmo abrindo mão de outros interesses. Desta forma, não seria possível pensar em um conceito de altruísmo como sendo o outro extremo do egoísmo, a partir de Aristóteles, pois ele é condescendente com a legitimidade de o homem bom procurar a honra. Assim, o homem bom, oposto ao ególatra, não é alguém totalmente desprovido de amor por si mesmo. Porém, é alguém que apresenta uma tendência a chegar cada vez mais perto do ponto em que se encontra o extremo oposto à egolatria.
Nas palavras deEisenberg(1986,p.7):
Among philosophers, the label “psychological egoism” customarily is used to identify any theory that implies that no human action is genuinely unselfish or truly altruistic. Ethical egoism refers to the argument or belief that is unreasonable and unjustifiable for people to behave in a manner contrary to their own interests, even
if they are able to do so.3
Tal distinção filosófica apresenta uma certa resignação ligada às teorias do “egoísmo psicológico”, como sendo algo impossível de não ocorrer e, por isso, o “dar de ombros” é inevitável. A humanidade teria que se conformar com o fato de que nenhum dos indivíduos nela contidos é completamente altruísta. As boas ações na verdade ocorrem sob o signo da ilusão ou da ignorância acerca de quem é o autêntico beneficiário, na situação eventualmente examinada. Esboça-se aí, também, uma suposta racionalidade verificada no egoísmo ético, que justificaria as ações centradas no interesse individual. Isto é, um comportamento que despreza os interesses próprios do agente é desprovido de razão e de defesa.
Na Idade Moderna, Thomas Hobbes (1979, p.77) parece ser um dos mais inflamados defensores da idéia de que os seres humanos agem por egoísmo, já que cada um é auto-
3 Tradução sob responsabilidade do autor:
Entre os filósofos, o rótulo “egoísmo psicológico” é costumeiramente usado para identificar qualquer teoria em que apareça que nenhuma ação humana é genuinamente isenta de egoísmo ou verdadeiramente altruísta. Por egoísmo ético entenda-se o argumento ou crença de que é irracional e injustificável para as pessoas se comportarem de uma maneira contrária aos seus próprios interesses, mesmo quando eles são capazes de assim o fazer.
suficiente, capaz de satisfazer suas necessidades. A ameaça representada pelo outro é que faz com que se chegue à convicção de que sem um pacto os humanos se matariam e se destruiriam mutuamente. É o medo de que o outro me destrua que constitui a base do Pacto Social. Hobbes discorda de Aristóteles, para quem o homem é um animal social, afirmando que, ao contrário de abelhas e formigas que podem cooperar entre si como algo natural, os seres humanos estabelecem contratos que não existem na natureza, claro. Quando a preservação da vida individual está ameaçada, o ser humano abre mão de sua liberdade com esperança de que obtenha segurança, em troca. Na situação natural, os homens são predadores uns dos outros. O Estado surge de um contrato social e torna-se meio de preservação da humanidade, ao recorrer à ameaça da espada. Isto é, as imposições resultantes da instituição do Estado só são aceitas porque há uma inclinação egoísta que poderia culminar com a destruição humana. Infere-se, daí, que os diversos acordos entre seres humanos são levados a termo somente por atenderem interesses recíprocos, sem evidências explicitas de generosidade das partes envolvidas.
O nome de Friedrich Nietzsche deve também ser lembrado entre as vozes contrárias ao altruísmo, na filosofia. Limitando nossa investigação a apenas uma de suas obras, “Além do bem e do mal” (NIETZSCHE, s.d.), tem-se uma amostra de sua concepção de que o egoísmo é algo justo por permitir a ascensão de pessoas com características como força, coragem e individualismo, tidas por Nietzsche como sendo “virtudes nobres”. Sua argumentação começa por criticar a admiração que a sociedade devota às pessoas bondosas, que dedicam parte significativa de seu tempo a serviço dos outros. Tais ações são compreendidas comumente como revestidas de beleza, a que Nietzsche rechaça, nos seguintes termos:
É irremediável: é necessário responsabilizar e julgar sem piedade, os sentimentos de dedicação e sacrifício pelo próximo, toda a moral da abnegação, com a estética da “concepção desinteressada” pela qual a desvirilização da arte tenta, mui sutilmente, conseguir uma boa consciência.Os sentimentos que pretendem existir ‘para os demais’ e ‘não para mim’ possuem um encanto excessivo e uma dulçura que, por serem muito insinuantes, nos tornam desconfiados. (NIETZSCHE, s.d., p.53)
Seu repúdio aos sentimentos altruístas desqualifica as pessoas que os experimentam, como sendo próprios do indivíduo ordinário, demasiadamente comum, a quem ele rotula de “homem do rebanho”, conforme se segue:
Hoje, por outro lado, o homem do rebanho, na Europa, mostra-se como única espécie autorizada, glorificando suas qualidades, graças às quais é domesticado, tratável e útil ao rebanho, e tendo estas como as únicas virtudes humanas, virtudes como a sociabilidade, benevolência, alteridade, aplicação, moderação, modéstia, indulgência, piedade. (NIETZSCHE, s.d., p. 121)
Para Nietzsche, a moral tradicionalmente privilegia os interesses da coletividade, classificando os comportamentos conforme a conveniência desta última. Ele argumenta que atos generosos para com as demais pessoas não devem ser obrigatoriamente compreendidos como bons ou maus, podendo até mesmo ser desprezados, em certas épocas da história da humanidade. Assim ele declara:
Não pode haver moral do “amor ao próximo” enquanto o olhar permaneça fixo na observação da humanidade, enquanto se considere imoral apenas o que parece ameaçar a sobrevivência da coletividade; enquanto o utilitarismo das avaliações morais permanecer subordinado unicamente à utilidade do rebanho. Na época romana mais florescente um ato caritativo não se qualificava nem como bom nem como mau, nem como moral ou imoral. Ainda que se o louvasse, seu elogio era concedido com uma espécie de desprezo involuntário quando se comparava esta ação com outra que servisse ao interesse da comunidade, da res publica. Ainda que tenha existido em outras épocas uma prática limitada e constante da compaixão, da igualdade, da ajuda recíproca, estavam entretanto à margem da moral. Em resumo, o “amor ao próximo” é quase sempre coisa secundária, convencional por um lado, e arbitrária por outro, se comparado com o medo ao próximo. (NIETZSCHE, s.d., p.122)
Suas baterias se voltam também às tentativas de se encontrar uma moral que seja universal, aplicável a todas as situações e a todos os tempos da história humana. Além disso, para Nietzsche a filantropia, isto é, o conjunto de ações em direção às pessoas com alguma necessidade, não passa de uma máscara que encobre alguma espécie de feiúra que os seres humanos não gostam de reconhecer em si mesmos, como se nota, a seguir:
Toda moral altruística que, por querer ser incondicionada, quer abarcar a tudo sem distinções, não peca somente contra o bom gosto, mas além disso e bem mais que isso, é um incitamento aos pecados de omissão, uma sedução a mais sob a máscara da filantropia. (NIETZSCHE, s.d., p. 157)
Desprezando a bandeira da igualdade e da cooperação entre os seres humanos, Nietzsche pontua que a alma aristocrática não deve nutrir qualquer sentimento de culpa por ser diferente e por não se contentar em fazer as coisas no mesmo compasso seguido pelos demais, como se nota nas passagens a seguir:
Ainda que com o risco de não ser bem aceito por orelhas inocentes, sustento: o egoísmo é parte essencial da alma aristocrática, e por egoísmo denomino aquela fé inamovível de que a seres como “nós somos”, os outros seres devem estar sujeitados e devem se sacrificar ao nosso ser. A alma aristocrática aceita este fato constatado de seu egoísmo sem pontos de interrogação, sem sentir nenhuma repugnância, constrição, arbítrio, aceita apenas como algo que tem fundamento nas leis mais primitivas das coisas, se quisesse dar-lhe um nome a chamaria “a própria justiça”. (NIETZSCHE, s.d., p. 225)
E ainda, quando provoca: “A alma aristocrática venera a si mesma” (NIETZSCHE, s.d., p. 239).
O pensamento dos filósofos citados oscila entre uma aparente constatação de que os seres humanos são naturalmente egoístas, conforme Hobbes, e a admissão de que indivíduos supostamente superiores são ou deveriam ser egoístas, como prega Nietzsche. As ações benevolentes em que o outro é considerado recebem, comumente, as qualificações de que são boas, o que é um adjetivo moral, ou belas, o que é um adjetivo estético. Continuam, portanto, inseridas no universo da cultura, da civilidade, da parte humana distinta do que é natural. Representam, de algum modo, que há um reconhecimento das dificuldades para a convivência social se os comportamentos individuais visassem exclusivamente à satisfação do agente. Não eliminam, entretanto, a desconfiança acerca de sua essência, isto é, de que mesmo ações em benefício dos outros podem envolver compensações individuais, o que é algo tolerável, já que é assim mesmo que as relações sociais são desenvolvidas.
1.2.5 Modernidade e Contemporaneidade – Ética das Virtudes, Deontologias e Éticas