• No results found

8. Main results and general discussion

8.4. Nutrient and energy metabolism

A noção de Inconsciente constitui aquilo que a psicanálise possui de mais próprio e radical. Inegavelmente, tal palavra encerra em si o cerne da descoberta freudiana. Ainda que outros pensadores tenham usado tal termo, anteriormente, eles não o fizeram com o sentido que Freud lhe atribuiu. Na linguagem corrente, “inconsciente” é utilizado adjetivamente com o intuito de qualificar ações humanas em que a “consciência” não está no controle total. Isto é, o uso pelo senso comum não discrimina o sentido topológico que Freud lhe conferiu e que designa um dos sistemas da sua primeira teoria do aparelho psíquico, conhecida como “Esquema Topográfico”. Ali, o Inconsciente aparece ao lado do “Consciente” e do “Pré- Consciente”. O Inconsciente é constituído por conteúdos aos quais foi barrado o acesso ao Pré-Consciente e ao Consciente. Conforme Laplanche & Pontalis (1991, p.235), suas características principais são:

a) Os seus conteúdos são representantes das pulsões;

b) Estes “conteúdos” são regidos pelos mecanismos específicos do processo primário, principalmente a condensação e o deslocamento.

c) Fortemente investidos pela energia pulsional, procuram retornar à consciência e à ação (retorno do recalcado); mas só podem ter acesso ao sistema Pcs-Cs nas formações de compromisso, depois de terem sido submetidos às deformações da censura.

d) São, mais especialmente, desejos da infância que conhecem uma fixação no inconsciente.

O conceito foi forjado a partir da experiência de Freud com o tratamento de pacientes com transtornos psíquicos, dentre os quais a histeria. Essas situações de tratamento mostraram que o funcionamento psíquico não se reduz ao consciente e que há mesmo uma resistência

que barra o acesso de determinados conteúdos à consciência. Os sintomas das histéricas eram, na verdade, emanações dos pensamentos censurados e mantidos no Inconsciente.

No artigo “O inconsciente”, de 1915, Freud (1974b, pp. 183-245) nomeia os conteúdos presentes no Ics de “representantes da pulsão”. A pulsão, por sua vez, situa-se na fronteira entre o somático e o psíquico. Apesar de nunca poder vir a ser objeto da consciência, só se faz presente no inconsciente por seus representantes (representante-representação). Tais representações inconscientes “são dispostas em fantasias, histórias imaginárias em que a pulsão se fixa e que podemos conceber como verdadeiras encenações do desejo”. (LAPLANCHE;PONTALIS,1991,p.236)

Em “A interpretação de sonhos”, de 1900, Freud (1972a) aponta um das vias de acesso ao inconsciente, já que este não se presta ao exame direto ou por meio de instrumentos criados pelos humanos, como acontece com os astros ou micro-organismos, por exemplo, passíveis de observação mais acurada com o uso do telescópio ou do microscópio, respectivamente. No sonho, os mecanismos de condensação, deslocamento e simbolismo, constitutivos do processo primário, re-encontram-se em outras manifestações do inconsciente, como o são os atos falhos e os lapsos, por exemplo. O processo primário caracteriza o sistema inconsciente, ao passo que o processo secundário caracteriza o sistema pré-consciente/ consciente, sendo que a oposição entre um e outro é correlativa da oposição entre princípio do prazer e princípio de realidade. Uma das afirmações mais contundentes de Freud acerca dos sonhos é que eles são a realização de desejos que não o podem ser, na vida desperta. O desejo no sonho, entretanto, aparece distorcido pela elaboração onírica, o que gera duas “camadas” no sonho: a) aquela expressa no relato do sonho, conhecida como “conteúdo manifesto do sonho”; b) a “censurada”, impedida de ser articulada racionalmente por meio de relato e que encerra o “conteúdo latente do sonho”.

O que fica evidente, nesta concepção, é que o ser humano, como compreendido por Freud, não tem o controle total sobre suas ações, pois é guiado por pulsões originadas no Inconsciente. Assim, o comportamento acaba sendo a resultante de processos e deliberações não tão racionais quanto o orgulho humano poderia reivindicar. Deriva deste pressuposto uma discussão importante sobre intenções e ações efetivas, quando a ética ou a moral são invocadas, pois a intenção de fazer algo pode não ser efetivada, ou ainda que a intenção tenha sido boa, a ação resultante pode não ter alcançado os objetivos pretendidos.

Na teoria psicanalítica, a instância moral da personalidade – o Superego- não é inato, o que significa que ele se desenvolve ao longo dos processos de socialização do ser humano.

Enquanto os desejos surgem no Id, o Ego é o responsável por buscar no ambiente satisfação, sendo freqüentemente limitado, contudo, pelas restrições impostas pelo Superego. Isto é, as convenções e expectativas sociais se sobrepõem aos desejos individuais, o que pode acabar gerando questionamento acerca das motivações para os comportamentos, que, em algumas situações parecem altruístas, mas que encobrem uma busca por satisfação de desejos encobertos pelo sujeito.

Ao tratar do Inconsciente, Lacan (2005, p. 19) diz que é próprio dele ser traduzível, “mesmo ali onde não pode ser traduzido, isto é, num certo ponto radical do sintoma, designadamente do sintoma histérico, que é da natureza do indecifrado, portanto do decifrável, ou seja, ali onde o sintoma só é representado no inconsciente caso se entregue à função daquilo que se traduz”. Tal fórmula, enigmática, chama a atenção para o fato de que, apesar de ser possível a expressão do Inconsciente, tal expressão se dá freqüentemente por uma linguagem que não se mostra composta por um léxico em que uma palavra corresponde sempre quase que obrigatoriamente a uma mesma coisa. O Inconsciente é o lugar no qual o desejo adquire voz. Para cada indivíduo, há uma linguagem própria no Inconsciente e que vem à tona por meio do que se chama “sintoma”, aquilo para o qual se aponta quando se diz “sinto...uma...dor, angústia, tristeza, etc” ou que chega como pedido de tratamento, e que constitui a função “sinto-mal”.