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CUALQUIER EDAD

1.2.4 FACTORES DE RIESGO CARDIOVASCULAR

Em proporções difíceis de precisar, os negros originários de regiões situadas ao sul do Saara colaboraram para a formação dessa civilização. Havia grande número deles no Marrocos e em todo o Magreb. A mestiçagem, contra a qual não existia preconceito, era frequente e teve naturalmente alguma influência biocultural, difícil, no entanto, de se indicar com exatidão1. Também havia negros na Espanha, princi-

palmente em Sevilha e Granada. Como escravos por um tempo, ou homens livres, tiveram participação considerável no exército e na vida econômica, introduzindo alguns costumes de seus países de origem2. Alguns deles, como João Latino, pro-

fessor universitário na Espanha, atingiram o nível mais elevado da vida intelectual e deram à civilização ibero -magrebina um sentido mais amplamente africano.

A arte

Na época que nos interessa, o centro dessa civilização situava -se na metade ocidental do Magreb. O declínio de Kayrawān era evidente, e a IfrĪkiya já havia perdido sua primazia. É preciso observar que o século dos Almóadas foi tam- bém o dos Almorávidas (1061 -1147). Afora os aspectos religiosos, no plano da civilização, não houve um corte entre as duas dinastias3. A arte almóada em

particular foi apenas o florescimento e o resultado final de processos elaborados ou introduzidos na Espanha pelos Almorávidas.

Os Almorávidas foram grandes construtores. Pouco sobreviveu de sua arqui- tetura civil, mais exposta à fúria dos homens e aos danos do tempo. Nada se conservou dos palácios erguidos em Marrakech e em Tagrart; há poucos vestí- gios de suas fortalezas; e sabe -se muito pouco a respeito das obras de utilidade pública, principalmente no campo da irrigação. Mas ainda é possível admirar os mais belos monumentos consagrados ao culto. Os mais característicos situam -se na atual Argélia. A grande mesquita de Marrakech infelizmente desapareceu, levada pela maré almóada. Em Fés, a mesquita de al -KarawiyyĪn não é total- mente almorávida: trata -se de um edifício de meados do século IX alterado e aumentado. Já a grande mesquita de Argel, construída por volta de 1096, é uma fundação almorávida autêntica, que não sofreu muito com as alterações introduzidas no século XIV e depois, durante o período turco. Pode -se também citar a mesquita de Nedroma. Mas, sem dúvida, o edifício mais belo é a grande mesquita de Tlemcen, monumento imponente de 50 m por 60 m, iniciado por

1 Ver BRUNSCHVIG, 1947, v. 2, p. 158. 2 Ver, mais adiante, capítulo 26. 3 Ver capítulos 2 e 5 deste volume.

volta de 1082 e terminado em 1136. Alia o vigor e a majestade dos edifícios saarianos ao requinte e à delicadeza da arte andaluza.

Não é necessário – escreve G. Marçais4 – enfatizar a importância da grande mes-

quita de Tlemcen. As peculiaridades de seu projeto e, mais ainda, o fato de estarem reunidos, e até mesmo estreitamente associados, a cúpula com nervuras andaluzas e o consolo de mukarnas [estalactites] de origem iraniana (...) conferem -lhe lugar de destaque entre as obras muçulmanas.

A arte almóada deu continuidade e desenvolveu a arte almorávida. Pela majestade das proporções, equilíbrio dos volumes e riqueza da decoração, acrescentou -lhe nobreza e graça. Foi o apogeu da arte muçulmana do Ocidente. Sua maior expressão é KutubiyyĪn, a mesquita dos Livreiros em Marrakech, uma das criações mais belas do Islã, construída, como a de TĪnmallal, pelo fundador da dinastia, ‘Abd al -Mū’min ben ‘AlĪ (1133 -1163). Seu minarete de seis andares, com salas cobertas por abóbadas variadas, eleva -se a mais de 67 m do solo. Cinco cúpulas de estalactites, “que podem ser consideradas como o ponto alto da história das mukarnas” 5, ornam a nave transversal. Mais do que

em Tlemcen, em KutubiyyĪn os arcos lobados ou festonados, enriquecidos com motivos decorativos, estendem -se sobre as 17 naves e sete traves, cruzando -se no infinito, dando a impressão de amplitude e espaço. A grande mesquita de Sevi- lha, outra joia da arte almóada, foi obra do filho e sucessor de ‘Abd al -Mū’min, Abū Ya‘kūb Yūsuf (1163 -1184). Depois da Reconquista, foi substituída por uma catedral; dela só restou o minarete, a famosa Giralda, terminado por Abū Yūsuf Ya‘kūb al -Mansūr (1184 -1199) e coroado, a partir do século XVI, por um lanternim cristão. O monumento mais grandioso, a mesquita Hasan, iniciado em Rabat por al -Mansūr, nunca chegou a ser acabado. É possível, no entanto, admirar -se ainda hoje sua floresta de colunas, que se elevam de uma superfí- cie de 183 m por 139 m, e seu minarete imponente, a famosa torre Hasan, que brota majestosamente do meio da fachada. A mesquita da kasaba de Marrakech, também fundada por al -Mansūr, foi por demais alterada em tempos posteriores para poder refletir fielmente a arte almóada.

Pelas mesmas razões e da mesma forma que a almorávida, a arquitetura civil almóada foi menos preservada. Nada resta de seus palácios nem do grande hos- pital que havia em sua capital. Rabat, fundada por al -Mansūr, conserva duas portas de sua antiga muralha de taipa, que se estendia por mais de 5 km:

4 MARÇAIS, 1954. p. 196. 5 Ibid., p. 237.

Bāb al -Ruwāh (ou Bāb er -Ruāh) e Bāb -Udāya. Deve -se também aos Almóadas, entre outras obras, a kasaba de Badajoz, a Alcalá de Guadaira – cidadela construída a 15 km de Sevilha – e a célebre Torre do Ouro, de forma dodecagonal, que controlava a navegação no Guadalquivir. Finalmente, deve -se observar que a arte almóada alia a majestade e a força à leveza vaporosa da decoração e a cores iridescentes graças, principalmente, ao uso da faiança policrômica (zallīdj). É uma arte de maturidade, poder e grandeza.

As letras

O século XII também foi um período de brilhante atividade literária. A reserva inicial dos Almorávidas e dos Almóadas em relação aos poetas e às obras profanas em geral logo se dissolveu sob o sol quente da Espanha. Levando adiante a tradição segundo a qual os soberanos árabes eram mecenas inte- ressados e ilustrados, os príncipes das duas dinastias favoreceram a cultura e protegeram os homens de letras.

Também nesse plano o lugar de honra foi ocupado pela parte ocidental do conjunto ibero -magrebino; a IfrĪkiya não se destacou. Pode -se, quando muito, citar Ibn HamdĪs (c. 1055 -1133), poeta autêntico e de grande renome, mas mesmo este era nascido na Sicília. Jovem, teve de deixar sua “pátria siciliana”, conquistada pelos normandos, e a partir de então não cessou de evocar suas lem- branças com cativante nostalgia. Após rápida estada na corte de al -Mu‘tamid ‘ala ’llāh (ou, mais propriamente, Muhammad ben ‘Abbād al -Mu‘tadid) em Sevilha, instalou -se na IfrĪkiya, onde passou a maior parte de sua vida.

No extremo Magreb, e sobretudo na Espanha, sabia -se cortejar melhor as musas. Entre os artistas que mais se valeram de seus favores, citemos: Ibn ‘Abdūn (morto em Evora em 1134); Ibn al -Zakkāk al -BalansĪ (morto por volta de 1133); Ibn BakĪ (morto em 1150), que passou toda a sua vida em peregrinações entre a Espanha e o Marrocos, e cujas muwashshah – gênero no qual era exce- lente – acabam com khardja (êxodo ) em romance; Abū Bahr Safwān ben IdrĪs (morto em 1222); Abu ’l- Hasan ‘AbĪ ben HarĪk (morto em 1225); Muhammad ben IdrĪs Mardj al -Kul (morto em 1236); Ibn Dihya, que, saindo da Espanha, morreu no Cairo após ter percorrido todo o Magreb e residido algum tempo em Túnis; Ibn Sahl (morto em 1251), sevilhano de origem judaica, de grande sensibilidade poética, que passou a servir o governador de Ceuta após a queda de sua cidade natal nas mãos de Fernando III (1248); Abu ’l -Mutarrif ben ‘AmĪra (morto por volta de 1258), que, nascido em Valencia, serviu os últimos Almóadas em várias cidades do Marrocos e no final de sua vida participou da corte dos Haféssidas de Túnis.

Dois literatos tiveram brilho excepcional: Ibn Khafādja (1058 -1139), tio de Ibn al -Zakkāk, e principalmente Ibn Kuzmān (nascido d. 1086 e morto em 1160). O primeiro, sem ser exatamente poeta de corte – vinha de família abastada de Arcila (Asilah), na província de Valencia –, submeteu -se à tradição e exaltou os poderosos da época, entre eles, o príncipe almorávida Abū Ishāk IbrāhĪm ben TāshfĪn. Mas alcançou a posteridade como inimitável poeta da natureza. Em seus versos canta, com sensualidade e toques românticos, a alegria de viver, a água dos rios e lagos, os jardins e as flores, os frutos e os prazeres da existência. Foi cognominado al -Djannān (o campestre) e toda antologia antiga ou moderna contém uma seleção de seus poemas. É um clássico da poesia árabe.

Ibn Kuzmān foi, indiscutivelmente, o “príncipe da poesia popular” (imām

al -zadjdjālīm) – abandonando a linguagem erudita, exprimiu -se com virtuosismo

no hispano -árabe coloquial. Grande e muito feio, com barba ruiva, olhos peque- nos e estrábico, levou vida escandalosa, libertina e licenciosa, com muita bebida e sem respeitar qualquer proibição sexual (adultério e sodomia). Sempre sem dinheiro, errava de cidade em cidade – sem jamais sair da Espanha – à procura de protetores generosos e de casos de amor. Naturalmente não deixou de ser preso e só escapou à morte a chicotadas pela intervenção de um dignitário almorávida, Muhammad ben SĪr. Sem recursos, inspirado e vagabundo, chega a lembrar -nos, em seu arrependimento – provavelmente sincero com a idade –, o destino atípico de um Abū Nuwās ou de um François Villon. Seus zadjal, dedicados na maioria a seus protetores, são como que baladas ora muito breves (três estrofes), ora muito longas (42 estrofes), onde o poeta, rompendo com a arte poética clássica, cria novos metros e varia as rimas. O panegírico final, espécie de posfácio dos poemas com dedicatória, é um trabalho bastante banal. A arte do poeta desabrocha nos

zadjal sem dedicatória – que cantam o amor e o vinho – ou nas “brincadeiras”

que introduzem as obras com dedicatória: o poeta se deixa levar por sua inspi- ração, e esboça quadros impressionantes e burlescos de seus contemporâneos, reproduzindo brigas de bêbados, problemas de maridos enganados e outras cenas cômicas da existência cotidiana. Descreve os cantos e danças e adora a natureza civilizada dos jardins e piscinas, cenário onde evoluem belas banhistas. É rude, mas raramente obsceno. Enfim, sua arte tem inspiração autenticamente popular, e é enriquecida por um raro dom de observação e incansável brio. A tradição que sedimentou e da qual foi mestre teria continuidade com seu compatriota MadghalĪs e seria imitada por muito tempo até no Oriente.

Não há literatura viva sem críticos e antologistas. Ibn Bassām (morto em 1148), que vez por outra fazia versos, preocupava -se sobretudo em defender e ilustrar as letras de sua pátria espanhola. Sua Dhakhira, vasta e inteligente anto-

logia ditada pelo orgulho nacional contra a pretensa superioridade do Oriente, é a melhor fonte sobre a atividade literária na Espanha do século XI e começo do século XII. Deve -se a seu compatriota Ibn Bashkuwāl (filho de Pascual, morto em 1183) o Kitāb al -Sila (terminado em 1139), que, concebido como continuação do Ta’rīkh de Ibn al -FaradĪ (morto em 1013), reuniu 1400 biografias de celebridades da Espanha muçulmana.

Dois eminentes especialistas representaram a filologia: Ibn Khayr al -IshbĪlĪ (morto em 1179), autor da Fahrasa (catálogo), que nos informa sobre as obras ensinadas em seu tempo, e principalmente Ibn Madā’ al -KurtubĪ (morto em 1195), que, muitos séculos antes dos atuais partidários da simplificação da gra- mática árabe, criticou severamente e denunciou no Kitāb al -Radd ‘alā ’l -nuhāt6

sua excessiva e desnecessária complexidade.

Não nos é possível citar todos os bons historiadores e geógrafos da época, mas um, geógrafo, não podemos deixar de mencionar, “talvez o maior do mundo islâmico”7, al - IdrĪsĪ (1099 -c. 1166), que viveu na corte de Rogério II das Duas

Sicílias. Uma edição científica de sua obra está sendo preparada na Itália8.