1.1 FUNDAMENTOS DE SALUD LABORAL
1.1.1 Conceptos básicos
Na Andaluzia, a situação tornava -se cada vez mais inquietante. Um dos
maiores senhores andaluzes, Ibn MardanĪsh105, sublevara -se contra a autoridade
almóada e ameaçava todo o levante; o último representante da Dinastia Almo-
rávida, Ibn Ghāniya106, sustentava o movimento antialmóada; finalmente, os
cristãos ganhavam terreno multiplicando suas incursões ao norte da Andaluzia. De volta ao Marrocos, ‘Abd al -Mū’min empenhou -se nos preparativos de sua intervenção na Espanha. O exército almóada, graças aos reforços enviados – que incluíam contingentes árabes –, conquistou vitórias em Badajoz e Beja. Dirigindo -se a Marrakech, ‘Abd al -Mū’min recebeu inúmeros kumiyya de seus contribuintes, destinados, ao que parece, à constituição de sua guarda pessoal, e em 1163 tomou o caminho de Sala’ para dirigir grande expedição à Espanha. No entanto, a morte o surpreendeu antes que seu projeto se concretizasse; transpor- tado a TĪnmallal, foi inumado perto do túmulo do mahdī Ibn Tūmart.
102 Sobre a conquista da IfrĪkiya por ‘Abd al -Mū’min, ver IDRIS, 1962, v. 1, p. 384 et seq. 103 Ver MERAD, 1957, p. 154 -5, a respeito do número de tropas segundo as diferentes fontes. 104 Ver detalhes em ‘INāN, 1964, v. 1, p. 289 -302.
105 Ver a Encyclopaedia of lslam, nova ed., v. 1, p. 84 -5; os detalhes sobre os negócios da Espanha ver em ‘INāN, 1964, v. 1, p. 304 -411.
Não é preciso insistir sobre as qualidades de ‘Abd al -Mū’min como chefe militar e estrategista; cabe, no entanto, sublinhar que empreendeu a conquista de maneira metódica, dando mostras de grande capacidade de organização e de profundo conhecimento da região e da ciência militar. Mas o mais notável é o fato de sua política de conquista visar, também, objetivos econômicos: o Marrocos atlântico, que sob os Almorávidas passara a participar das grandes relações com o Saara, é desligado de seus contatos africanos, e ‘Abd al -Mū’min assegura -se do controle de um eixo que une o Dar‘a (Dra) a Orã, doravante rota de caravanas que trazem ouro e demais produtos do Sudão ocidental.
Por outro lado, o califa não podia deixar de olhar para o norte e para o leste, já que o Mediterrâneo era essencial para o Magreb, sobretudo num momento em que a cristandade passava à ofensiva em todas as frentes. Assim, podemos entrever as dificuldades que teria de enfrentar a empresa almóada unitarista, para a qual devia ser virtualmente impossível conservar tanto a Andaluzia quanto a IfrĪkiya.
Desfrutando de unidade cultural e econômica já bastante antiga, o Magreb adquiriu com ‘Abd al -Mū’min também unidade política. Rompendo com a tra- dição almorávida, por sua vez inspirada na organização hispano - omíada, ‘Abd al -Mū’min estruturou um sistema administrativo que levava em conta tanto as necessidades políticas impostas pela grande extensão do império, quanto o desejo de não ferir a suscetibilidade de sua entourage, constituída por berberes almóadas dos primeiros tempos. Muitas regras desse sistema subsistem na organização do Makhzen do Marrocos moderno. A estrutura administrativa almóada combinou as preocupações de ordem técnica – recorrendo, por exemplo, a andaluzes ou magrebinos formados, na escola andaluza – às de natureza política, expressas pela dualidade saiyid mumínidas/xeques almóadas, e ideológica, representadas pelos
talaba e pelos huffās; verdadeiros “comissários políticos” do regime.
Esta organização, muito mais diferenciada que a dos Almorávidas, era financiada por um novo sistema fiscal. Conta -se que ao retomar da IfrĪkiya, em 555/1160,
‘Abd al -Mū’min mandou executar uma agrimensura107 de todo o Magreb, desde
Barka, na Tripolitânia, até Nul, no sul do Marrocos; um terço foi deduzido como montanhas e terras improdutivas, e o resto submetido ao kharādj (imposto territo- rial), pagável em dinheiro ou gêneros. ‘Abd al -Mū’min foi o primeiro a estabelecer um cadastro desde a época romana; pode -se, assim, imaginar os consideráveis recursos de que dispunha o califa. Este fez com que todos os habitantes – exceto a comunidade almóada – pagassem o kharādj, assimilando -os, desse modo, aos
não muçulmanos, uma vez que não eram verdadeiros muwahhidūn (unitaristas). É provável que os hilalianos tivessem instituído um imposto semelhante no Magreb
oriental, e que ‘Abd al -Mū’min tenha se limitado a generalizá -lo108, utilizando
esses mesmos hilalianos como coletores. Só os territórios dos Almóadas não eram submetidos ao kharādj; assim, o Magreb central e a IfrĪkiya eram considerados terras de conquista. Como se vê, a unidade deu -se em proveito do vencedor, o que tornou mais difícil a unificação do Magreb, com o agravante de a ideolo- gia almóada, não obstante as reformas de ‘Abd al -Mū’min, ter permanecido por
demais sectária para poder “acalmar os espíritos”109.
‘Abd al -Mū’min parece ter contado mais com seu exército e sua frota que com uma real política de unificação, a despeito da ampliação do núcleo Mas- muda original. Graças ao seu sistema fiscal e à sua sólida moeda, os Almóadas puderam constituir exército e marinha bastante poderosos. Conhecido por sua organização, disciplina e qualidades de combate, o exército nunca foi, entretanto, unificado, ponto fraco que iria se agravar com o correr dos anos.
É importante mencionar, ainda, outro aspecto do reinado de ‘Abd al -Mū’min – difícil de ser apreciado nos limites do presente trabalho – trata -se do processo conhecido como “deportação” hilaliana. A transferência dos beduínos obedeceu a muitas variáveis e teve muitas consequências para poder ser julgada em poucas
palavras, tal como fez Le Tourneau110, que, levado pelos preconceitos do recente
período colonial francês, qualificou -a de “calamidade”.