3.8 R software
4.1.5 Factor screening using a projection based method
O método científico clássico nos ensinou que só é possível conhecer uma realidade que for decomposta, olhada aos pedaços, ao criar um cenário de especialização e separação sujeito-objeto: de um lado, o sujeito que investiga e, de outro, o objeto do conhecimento. Todavia, as mudanças paradigmáticas na ciência pós-moderna abriram um novo leque de possibilidades teóricas e metodológicas, que têm contribuído para as ciências humanas como um todo. Compartilhamos com a posição de Esteves de Vasconcellos (2002), ao dizer que o objeto de estudo da psicologia é um ser complexo, que só pode ser compreendido à luz de seu contexto. Assim, encontramos uma nova alternativa de relacionamento com a realidade, pois mesmo que explicar seja também simplificar, não podemos eliminar a tessitura complexa do mundo (Demo, 2000). Surge, neste cenário, a necessidade de um princípio de explicação mais rico que o da simplificação (disjunção-redução), estabelecendo a comunicação entre o objeto e o ambiente, o que é observado e o seu observador.
Esta pluralidade de olhares e escutas é a proposta da Complexidade e seu método. Para Morin (1991), é preciso olhar o indivíduo inteiro, em seu contexto:
Por toda parte o sujeito se reintroduz no objeto, por toda a parte o espírito e a matéria chamam um pelo outro em vez de se excluírem, por toda a parte cada coisa, cada ser reclama a sua reinserção no ambiente. (Morin, 1991, p.207)
Para Demo, o etos do conhecimento pós-moderno é tipicamente desconstrutivo, pois ao invés de produzir certezas, tornou-se marcadamente uma estratégia de desmontá-las. Neste sentido, cada teoria é feita, não para atingirmos algum porto seguro, mas para navegar em frente: “se existe alguma coisa permanente em ciência, é a provisoriedade de seus resultados, ou a perenidade do questionamento” (Demo, 1997, p. 14).
Ainda de acordo com este autor, os novos métodos qualitativos propõem um diálogo crítico com a realidade, buscando compreender o comportamento das pessoas em contextos sociais específicos, de modo a responder melhor a uma realidade complexa em sua essência (Demo, 2000).
É claro que necessitamos sempre de um ponto de partida, já que não é viável combater o método sem método (Demo,1997). Porém, é preciso fugir de sua “ditadura”, ou seja,
privilegiar mais o método do que a realidade. Morin (1991, 1996), também alerta sobre os momentos em que as teorias viram doutrinas e ideologias, perdendo seu caráter provisório e de auto-reflexão. Sendo assim, a pesquisa qualitativa deve formalizar o conhecimento, mas, sempre procurando preservar a realidade e sua complexidade inerente.
Demo (2001) prefere falar mais em "intensidade" do que em “qualidade”, pois a noção de intensidade volta-se para dimensões marcadas pela profundidade, pelo envolvimento e pela participação, sendo própria de fenômenos complexos. São complexos, não só porque estão dotados de componentes múltiplos, mas sobretudo porque são ambíguos: "A realidade está mais próxima da metáfora do caldeirão, onde tudo ferve e se transforma, do que do texto analítico sistemático que, por força do próprio destino, só retrata o que é sistemático." (Demo, 2001, p. 16).
Há muita discussão sobre as diferenças entre pesquisa quantitativa e qualitativa. Tradicionalmente, a pesquisa quantitativa lida com números, usa modelos estatísticos para explicar os dados e é considerada pesquisa hard. O protótipo mais conhecido é o levantamento de opinião. Em contraste, a qualitativa evita números, lida com interpretações das realidades sociais e é considerada pesquisa soft. Muitas vezes, as duas abordagens são vistas como paradigmas competitivos de pesquisa social. Mas, segundo Bauer, Gaskell e Allum (2010), é preciso superar tais polêmicas estéreis, uma vez que não há quantificação sem qualificação:
A mensuração dos fatos sociais depende da categorização do mundo social. As atividades sociais devem ser distinguidas antes que qualquer frequência ou percentual possa ser atribuído a qualquer distinção. É necessário ter uma noção das distinções qualitativas entre categorias sociais, antes que se possa medir quantas pessoas pertencem a uma ou outra categoria. Se alguém quer saber a distribuição de cores num jardim de flores, deve primeiramente identificar o conjunto de cores que existem no jardim; somente depois disso pode-se começar a contar as flores de determinada cor. O mesmo é verdade para os fatos sociais. (p.24)
Assim, é incorreto afirmar que a pesquisa qualitativa possui o monopólio da interpretação e que a pesquisa quantitativa chega a suas conclusões quase que automaticamente. Os dados não falam por si mesmos e necessitam do olhar do pesquisador para serem interpretados. Diferentes metodologias têm contribuições diversas a oferecer.
Segundo Minayo (1994), os objetos das ciências sociais são históricos: “vivem o presente marcado pelo passado e projetado para o futuro, num embate constante entre o que está dado e o que está sendo construído.” (p.13). A realidade social possui dinamismo, transborda riqueza de significados, pois é mais rica do que qualquer discurso que possamos elaborar sobre ela.
Situar esse ponto de partida é importante, pois apesar de trabalhar com um grande banco de dados, esta investigação está ideologicamente ancorada nos pressupostos de uma pesquisa qualitativa e busca, como produto final, a compreensão da temática “situações- problema relacionadas ao uso de drogas na escola” e suas representações em sua essência ou ideia central.
Para Minayo (1994), a pesquisa qualitativa trabalha com o universo dos significados, motivos, aspirações, crenças e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações. Já os métodos quantitativos, estão relacionados aos aspectos objetivos e podem ser obtidos por meio de dados matemáticos ou análises estatísticas informatizadas. Esta autora também não vê oposição entre o conjunto de dados quantitativos e qualitativos, pelo contrário, entende que ambos se complementam e a realidade abrangida por eles interage dinamicamente, excluindo qualquer dicotomia.
Esta opção de cunho teórico-metodológico qualitativo veio em resposta à busca de um referencial teórico que possibilitasse dar visibilidade aos temas subjacentes existentes no discurso dos educadores com relação ao uso de drogas no contexto da escola, possibilitando identificar as representações sociais desses profissionais da escola sobre o tema. Num segundo momento, pretendemos na discussão dos resultados, também propor um diálogo entre estas representações sociais e a abordagem da subjetividade (González Rey, 1997; 2002). Entendemos que este conceito traz um olhar focal sobre o fenômeno estudado, destacando seus processos construtivos e dialéticos.
Este é o ponto de partida que estabelece o lugar e o olhar a partir do qual esta pesquisa foi construída. Amorim (2003), ao discutir as ideias de Mikhail Bakhtin, alerta:
Meu olhar sobre o outro não coincide nunca com o olhar que ele tem de si mesmo. Enquanto pesquisador, minha tarefa é tentar captar algo do modo como ele se vê, para depois assumir plenamente meu lugar exterior e dali configurar o que vejo do que ele vê. (...) Esse lugar exterior permite que se veja do sujeito algo que ele próprio nunca pode ver; (...) é dando ao sujeito um outro sentido, uma outra configuração,
que o pesquisador, assim como o artista, dá de seu lugar, isto é, dá aquilo que somente de sua posição, e portanto com seus valores, é possível enxergar. (p. 14)
A consciência desse papel central ocupado pelo olhar do pesquisador, ajudou a assentar os pressupostos e os caminhos percorridos neste trabalho, pois o que vemos é carregado também de uma experiência subjetiva e determinará as construções que surgirão.
Nesse processo, estamos cientes de que esta pesquisa é uma tentativa de aproximação da realidade, e que nenhum método conseguiria apreender temas complexos, como a prevenção do uso de drogas no contexto escolar e as situações-problema apresentadas pela escola, em sua totalidade.