Chapter 4: We refugees – The actuality of cosmopolitan law
4.3 Arendt and the impossibility of finding a new home
4.3.3 Facing the totalitarian regime – the distillation of rightlessness
Como visto até aqui o século XX foi emergente para a produção editorial de revistas no Brasil. O opor- tunismo editorial acabou por consolidar alguns títulos, mesmo no caso daqueles que ainda não corres- pondiam à acepção da noção de segmentação e especialização como a que se tem hoje. Este foi o caso de O Cruzeiro. Foi uma revista de prioridade por temática feminina, mas endereçada ao público geral. Neste período, o semanário abre espaços para os registros de consumidoras de cosméticos e eletrodo- mésticos, ganhadoras de concurso de beleza, seguidoras da moda e do que vamos chamar de padrões hollywoodianos de ser, devido a alusão ao cinema americano que influenciou a revista, inclusive com os press releases de divulgação das atrizes americanas. As leitoras, público-alvo da revista, eram aquelas pertencentes a uma elite social que promovia festas fabulosas e que apareciam nas colunas sociais. Nos anos de 1930 foi permitido que as brasileiras tivessem o direito de votar, mas este era porém, tema tabu para a revista.
As mudanças do país apresentadas pelo O Cruzeiro se materializam em suas páginas, através das temá- ticas sobre produtos de utilidade doméstica e de higiene e beleza. No final da década de 1930 e início
da de 1940, vários textos publicados deixam evidenciar uma sociedade brasileira moderna. As notícias dão conta de cidades, de formas de vida, agora mais urbanizada, com comportamentos moldados e transformados pela moda e pelo consumo.
Constata-se assim a perceptividade de que O Cruzeiro contribuiu com a história da comunicação no Brasil. A implementação de uma nova forma de fazer jornalismo, antes não utilizada pela imprensa da época, valorizou a reportagem, o uso da caricatura, da pintura, da fotografia, explorada de uma nova ótica, colorida, ressaltando o fotojornalismo. Foram inovações não comuns para a imprensa dos anos de 1930-1940. Apresentava uma diagramação mais atraente e priorizava a qualidade das fotos e dos textos, era um período em que a propaganda ganhava espaços. Criativa, a revista reforçou a ideia de modernidade servindo de ligação entre os interesses políticos, a elite social e religiosa e os leitores, mostrando uma mulher consumista, com hábitos modernos.
O nascimento de O Cruzeiro se dá em 10 de novembro de 1928, mas é inaugurada em cinco de de- zembro de 1928. A década de 1960 é considerada o período auge da revista que vai existir até 1974. Passou por diversos processos e alcançou transformações gráficas e editoriais. No auge das publicações chegou a atingir altas tiragens, como por exemplo, a edição da morte do ex-presidente Getúlio Vargas que vendeu 720 mil exemplares.
Ao desvendar o histórico da revista (Serpa, 2017) descobriu-se que ela passa a ser chamada de O
Cruzeiro somente em junho de 1929, quando na edição de número 30, tem seu nome modificado de
“Cruzeiro para O Cruzeiro”. O Arquivo do Jornal O Estado de Minas, Belo Horizonte, MG, guardar todos os exemplares do magazine, de forma completa. É assertivo constatar que as colunas femininas contribuíram para o sucesso da revista, além das reportagens, muitas delas irreais, criadas pelo imagi- nário da dupla David Nasser, jornalista e o francês Jean Manzon, fotógrafo.
Conclusão
No atual momento tem-se a sensação, e cada vez mais, que tudo se fragmenta. Fazendo analogia aos conceitos dos atuais estudos, especialmente da Física, encontramos sentidos em observar que tudo se esfacela ao ponto “nanômetro”, a quase uma “nanopartícula” das coisas. Se tal estado das coisas acena para as fragmentações é possível supor que as editorias das revistas ao observar tais cenários, venham cada vez mais a apostar nas tendências da particularização e da fragmentação das suas temáticas e edi- ções. Assim, emerge um mercado editorial cada vez mais segmentado e especializado. Com variedades de títulos que vão desde Mundo Nerd a Revista dos Vegetarianos. Ou seja, particularizando cada vez mais as informações e possibilitando a segmentação das propagandas.
Diante das mudanças e transformações por que passou o país e ainda passa é certo que a transformação maior veio através da urbanidade. Industrialização e urbanização, componentes de uma vida moderna que emerge. Neste estilo modernista das cidades e como apregoava o filósofo do pensamento pós- moderno, Nietzsche, surge a fragmentação e a efemeridade, características típicas dos tempos em que vivemos. Assim compreendemos que cada vez mais há uma tendência em segmentar e especializar os mercados editoriais.
As revistas impressas brasileiras do século XX encontravam um sentido editorial para suas publicações. Acompanhando as tendências de uma mudança social que emergia. No atual contexto, terão agora que encontrar outros meios de sobreviver ao mundo digital. Nas associações de classes editoriais, o tema ganha mais ênfase. Como é possível observarmos pelo site da Anatec - Associação Nacional das Empresas de Comunicação Segmentada - que lança campanha em prol de jornais e revistas para que re- novem seus modelos de negócios baseados em credibilidade. Argumentam que os produtos impressos apresentam mais veracidades aos leitores, além de combaterem a proliferação das chamadas fake news. Mostram que a era digital trouxe novos desafios para os meios impressos que concentram cerca de 15% do investimento publicitário brasileiro.
Através do Instituto Verificador de Comunicação - IVC Brasil que audita as revistas no país, é possível compreender sobre o número de títulos registrados. Verificamos assim, 80 registros que constam da auditoria multiplataforma de mídia em 2018. São títulos de revistas com tiragens significativas que justificam a audição e possuem especialidades das mais variadas e de diferentes segmentos.
Segundo dados da Aner - Associação Nacional de Editores de Revistas – em 2013, as três primeiras colocadas em circulação média no país, com tiragens impressas: 1.167.928, a primeira; 390.709, segunda; terceira 322.518. São também estas revistas semanais de informação do país que vem per- dendo espaços para os leitores e assinantes digitais, nos últimos anos. Em 2016 houve uma queda de 162 mil exemplares na tiragem média dos impressos, devido aos leitores que migraram para veículos digitais. Um desafio colocado à sobrevivência deste mercado editorial que encolhe a cada ano. Apesar de não aprofundarmos aqui as razões, as causas e consequências destas, e apenas ilustrar com os da- dos é possível compreender que as revistas impressas ainda vão sofrer mais impactos decorrentes da tecnologia digital.
Desta forma, e pelo que foi proposto neste espaço, é possível compreender os papeis que as revistas de- sempenharam no século XX. Foi possível observar neste conjunto, capacidades editoriais de aglutinar imaginários, conjugar ideologias, atrair ideais. Também se evidenciou as possibilidades que emergiram de novas técnicas comunicativas e principalmente das editorias que optaram por espelhar uma reali- dade social e urbana. Ao captar esta atmosfera de mudanças importando-se muito com o que cultu- ralmente consideravam ser um mundo das novidades e das transformações, as revistas contribuíram, especialmente O Cruzeiro por mostrar as mudanças do país. De uma sociedade que apostava romper com o passado arcaico de um Brasil agrário, iletrado e analfabeto.
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Resumo curricular da autora
Leoní Serpa
Graduada em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo/RS (2000) e mestre em História pela UPF (2003). Dou- toranda na área de Jornalismo e Estudos Mediáticos, na Universidade Fernando Pessoa, Porto, PT, sob orientação do Dr. Jorge Pedro Sousa, em Jornalismo Científico. Docente na Universidade Federal de Rondô- nia. Publicou e pesquisa sobre a Revista O Cruzeiro. Como Jornalista foi repórter/editora de Jornal impresso, rádio e TV.