5. MILAN: RETURNING TO CLOSED GATES
6.2 F AMILY HISTORY AND EMIGRATION
Em julho de 2007, a seca amarelou a paisagem do Vale. Em Alfredo Graça, os vaqueiros – important e t radição da região - conduziam a boiada uma vez por dia para a beira-rio, para que os animais pudessem saciar a sede e assim cont inuar sob o sol escaldant e a procurar, ou caçar, como eles dizem, algo para comer no capinzal ressequido: sequidão. O rio Gravat á era at ravessado a pé, com as águas batendo no t ornozelo. Na cidade e nas comunidades se falava da seca já impressa na paisagem, nos corpos e no t rabalho.
O modo de vida camponês paut a-se numa ordem moral que orient a as relações sociais da comunidade e da f amília ancoradas no t rabalho. Ao t raduzir a nat ureza, o campesinat o elabora conhecimentos (saber-fazer) para que a t erra e as águas possam, por meio do trabalho humano, produzir frut os.
O calendário agrícola sempre é organizado em função das chuvas, e com elas o t empo e o espaço ordinários são vividos por aqueles, no sert ão, est ão acost umados a produzir (e produzir-se) de acordo com as est ações da seca e das águas.
62 Para Martins (2008, p. 89): “ O cotidiano não tem sentido divorciado do processo histórico que o
reproduz. A concepção de Lefebvre, de que não há reprodução sem uma certa produção de relações sociais, não há cotidiano sem história, é essencial para discutir-se o tema.”
A est ação da seca no Vale dura de maio a set embro, em out ubro chegam as primeiras chuvas. Em janeiro de 2008, as chuvas ainda não haviam chegado e o gado est ava bem magro. O milho e a mandioca, plant ados em out ubro, est avam secos nas roças, nenhum pé havia crescido.
De out ubro a abril muit os cuidam da criação, animais pequenos como os porcos e as galinhas, aliment ando-os com o primeiro milho plant ado ainda em set embro/out ubro, nas primeiras águas, com a int enção de vendê-los na est ação seca (de maio a set embro) quando esse milho acaba, assim como a mandioca, plant ados no início da est ação das águas.
Nesse janeiro, a criação já est ava sendo vendida nas feiras pois não havia milho para engordá-la. Sem a criação para ser vendida na estação seca, a renda dos camponeses nest a est ação ficaria compromet ida. Sem a possibilidade de uma produção agrícola mais generosa ao longo do ano, eles se preparam para a est ação seca engordando os animais no período das chuvas.
Dant es dava a primeira chuva em set em bro, out ubro e a gent e começava a plant ar: feijão e milho. Hoje em dezembro ainda t amo passando a seca, vamos t er que caçar jeit o de lut ar. (Dona Nezinha)
A Art iculação para o Semi-árido (ASA) t em como um de seus carros-chefe a const rução de um milhão de cisternas no semi-árido. Eles apregoam que a seca não deve ser combat ida, com a seca se convive - o sertanejo sabe conviver com a nat ureza há séculos. Esta propost a de convivência e respeit o aos conheciment os se cont rapõe ao t ípico discurso de polít icas públicas enviesadas que, com projet os paliat ivos, ainda permit e que alguns polít icos, empresas e ONG´s ganhem dinheiro e poder com o combat e à pobreza e à seca.
Embora coment assem, em janeiro de 2008, os efeit os já sent idos da ausência das chuvas, não havia desespero em nenhuma fala dos moradores do Graça, o que indicava conheciment os adquiridos e incorporados do ciclo águas/sequidão. A confiança, a intimidade com os ciclos, t odos os conheciment os incorporados, a força para lut ar e a
experiência do sagrado (int rínseca à vivencia de t empo e espaço ordinários camponeses) compõem um repert ório comum da comunidade que lhe permit e viver quando a seca chega. De acordo com Bernardo, um morador do Graça: “ Nós aqui est amos acost umados com a seca. Mas é preciso ser t eimoso para viver” .
Segundo Seu João, pai de Teodora, que faz farinha de mandioca para vender no mercado, “ (...) os anos com final 7,8 e 9 são de seca. Ano 9 é ano de fome.”63
O t rabalho dos homens no cort e da cana e sua ausência por mais de nove meses ainda não foi incorporado como ordinário pela comunidade, e a depressão é um sint oma disso: é uma expressão profunda e silenciosa da lógica que transformou os homens em força de t rabalho e divorciou-os de suas famílias e da sociabilidade junt o à comunidade. Vive-se de acordo com o passar do tempo e seus ciclos naturais e hist óricos; mas sem os companheiros, o t empo t arda a passar e os sent idos da vida se desvaem.
No mês de janeiro, sem seca, o verde predomina e enche os olhos. As chapadas resplandecem com a vida que parece ressurgir, como sempre, de t odos os lugares: das grot as, dos vales, das baixadas. A vida t ambém fica mais alegre nesse período t ambém porque, como já aludido, os homens que volt am para casa no mês de novembro/dezembro e ret ornam para o t recho no mês de fevereiro/março, est avam na
63 No trabalho de campo de agost o de 2009, os moradores fizeram referência à seca do ano ant erior
comunidade64. A vida no sert ão cont a em janeiro com homens, águas, muitos t ons de verde mist urados com o ocre do sert ão, roças produzindo, bichos engordando, fest as, feiras fartas e coloridas e família reunida. É quando a vida cot idiana most ra a sua riqueza, opost a e complement ar ao enfadonho e linear que as prát icas cot idianas t ambém sust ent am seja no campo ou na cidade.
Dona Nezinha, ao assist ir o not iciário na TV sobre a seca no ano de 2008, surpreendeu-se com as condições de vida de milhares de pessoas no Ceará que caminhavam dezenas de quilômet ros para buscar água em açudes barreados. O sert ão para ela, e para muit os, est á mais ao nort e. O sert ão é maior e est á sempre mais além, “rodeando”. Para os de São Paulo65, o Vale do Jequit inhonha não é o dit o sert ão? Para os do Graça, sert ão e seca est ão na Paraíba e Ceará.
As respost as da comunidade me fizeram lembrar João Guimarães Rosa, quem me fez querer conhecer o sert ão:
O sert ão t olere, ist o é o sert ão. Uns querem que não seja: que sit uado sert ão é por os campos-gerais a fora a dent ro, eles dizem fim de rumo, t erras alt as, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corint o e Curvelo, ent ão, o aqui não é o dit o sert ão? Ah, quem t em maior! Lugar-sert ão se divulga: é onde os past os carecem de f echos; onde criminoso vive seu crist o- jesus, arredado do arrocho de aut oridade. (ROSA, 1986, p. 1)
64 Esta dinâmica tem mudado um pouco pois as usinas no estado de São Paulo têm diminuído o período da
entressafra, os homens mal se recuperam da magreza e do cansaço com que chegam e já devem retornar.