A vinte de setembro de 1823 deu-se início à expedição do Governador das Armas às terras do norte goiano, com o objetivo declarado de se prevenir, e caso
necessário, combater, a ameaça representada pelas tropas portuguesas acantonadas no Pará e no Maranhão. A expedição, que prepara o embate de forças, foi ela própria em sua execução um cavalo de batalha entre a Junta Provisória e Cunha Mattos.
Primeiro a dificuldade de se angariar os recursos, visto a pobreza dos cofres públicos, o que exigiu um empréstimo improvisado de doze mil cruzados para o pagamento da tropa; logo em seguida, dois dias antes do dia programado para a partida da expedição, a notícia da suspensão da falange, ordenada pela Junta. Somente diante de insinuações veladas e da convocação de um conselho de guerra reunindo quase toda a alta oficialidade da velha capital, conseguiu Cunha Mattos por em marcha a tropa.
O cenário que Cunha Matos iria desvendar a partir de então não era inteiramente novo. Logo depois de atravessar a vila de Barbacena, em pleno interior de Minas Gerais, entreviu Cunha Mattos em meio à paisagem humana e naturais os símbolos e signos daquele universo profundamente rural que caracterizava o interior do Brasil; cruzando o Rio São Francisco, a visagem se torna ainda mais rude e áspera, menos humana, mais natural, menos concebida e mais propensa às forças do acaso.
Nesse caminho incial, desde a capital do Império até capital da província, Cunha Mattos trilhou um mundo interiorano para ele quase que desconhecido. Já em terras goianas, vislumbrou e conheceu os velhos arraiais ligados ao passado ourífero, como Santa Cruz, Anta e Meia-Ponte. Logo em seguida, em inspeção às tropas milicianas e regulares, travou conhecimento com os povoados circunvizinhos à Cidade de Goiás, como Curalinho, Jaraguá, Meia –Ponte ...
Mas isso era apenas um conhecimento incompleto do sertão. A verdadeira amplitude do conhecimento, a vivência mais íntima da realidade e sua impressão dos rincões do Planalto Central Cunha Mattos só viria, de fato, a ter durante a jornada empreendida como militar ao setentrião goiano. Uma viagem, um espécie de odisséia, uma aventura e um desafio intelectual que durou pouco mais de um ano. Tempo demasiado –na verdade, longo tempo entre índios, entre sertanejos rudes, entre malárias e febres palustres, desafiando vez ou outra a insubordinação dos soldados e da tropa, a ameaça rondante dos ameríndios, a incompetência, a irresolução e a corrupção da máquina administrativa.
Em princípios de 1825 deu início ao lento retorno. Era já então deputado do Assembléia Constituinte: no escrutínio realizado no ano anterior fora escolhido, juntamente com o ouvidor João Francisco de Borja Pereira, o "maroto", representante de Goiás designado para o Legislativo Imperial. Para tomar posse do cargo, parte a 9 de março de 1825 para o Rio de Janeiro, deixando o governo das armas nas mãos de Luís da Costa Freire de Freitas.
A permanência, na Corte, porém, é breve. Na verdade, pouco mais de um mês. Cunha Mattos nos explica a razão:
Havendo eu chegado ao Rio de janeiro no dia 25 de abril do anno de 1825 para tomar assento na Camara dos Deputados, que se supunha instalar-se no dia 3 de maio, na forma da Constituição Política do Império, aconteceu que apresentando-me ao Exelentissimo Senhor Estevão Ribeiro de Carvalho, Ministro da Guerra, expidiu-me aviso participando que o Governo reputaria em conseqüência de se achar ameaçada o Cuyabá pelo Dictador do Paraguay. Eu não hesitei hum momento e pus-me em pronta marcha, e obtive a confirmação das propostas qur havia feito à primeira e segunda linha da província.55
Em 18 de Julho de 1825, Cunha Mattos regressa à Cidade de Góiás. Regressa ao sertão e também aos velhos problemas com a administração civil de Goiás. Desta vez não mais com a Junta do Governo Provisório, extinta pela lei de 20 de outubro de 1823, mas com o novo presidente nomeado por D. Pedro para a administração da província, o bacharel Caetano Maria Lopes Gama.56
Na ocasião, este presidente estava sendo 'assessorado' por alguns dos membros da extinta Junta, quase todos declarados rivais de Cunha Mattos. Americano do Brasil nos relata os episódios que levaram também Cunha Mattos a se indispor com o recém empossado presidente:
de começo(...) Cunha Matos queria auxiliar com sua expedição a província de Matto Grosso, a proposito da pretendida passagem do [território] dos Chiquitos para o Brasil. Lopes Gama foi contrário ao intento. O incidente foi levado ao Imperador. Mas as duas autoridades daí por diante não mais se entenderam. Os menores pretextos serviam de ocasião para a troca azedos ofícios entre os dous poderes, exercidos por duas individualidades criadas no cumprimento do dever: Lopes Gama era patriota honrado, mas político; Cunha Mattos era o militar disciplinado era patriota reformado. Gama transigia, mas Cunha Mattos teimava e ia a todos os sacrifícios para manter sua opinião. Suas leis
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Itinerário, tomo 2, pg. 66.
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eram a verdade e a consciência. Lopes Gama não se afastava da conveniência e da legislação.57
O mesmo historiador goiano registra outros incidentes: o rancor de Cunha Matos com a irregularidade no pagamento dos soldos aos militares e o seu ressentimento por Lopes Gamas ter, sem a sua autorização , utilizado "alguns militares na concatenação de dados militares".
Já melindroso o clima político, repletos de tensões, viu-se agravado talvez por um gesto inconseqüente de boa-vontade do governador Lopes Gama: em um ofício protocolar solicitou ele, como presidente da província, uma "enquette" (segundo as palavras de Americano do Brasil) para averiguar as causas da decadência da província de Goiás e propor paliativos.
Intelectual que era, sociólogo e historiador, enviou [Cunha Matos] como resposta ao presidente, um picante mas filosófico ofício, longo ofício, contendo nada menos do que um programa de governo e verdades. Cunha Mattos, sem piedade, escalpelou o mal encoberto e usou de palavras claras e persuasivas, criticando e censurando os descalabros da administração pública (...)58
Em resposta ao ofício do Governador das Armas entregue em 27 de setembro de 1825, ordenou Gama Lopes a convocação do conselho administrativo destinado a averiguar as acusações manuscritas pelo Governador das Armas. Foi uma celeuma. A cidade Goiás entrou em frenesi. Foram convocados os funcionários que trabalhavam na Junta da Fazenda para responderem às denuncias de corrupção. Todos negaram às acusações feitas, e parecia ficar o dito pelo não dito, quando alguns então ameaçaram protestar contra Cunha Mattos junto ao Imperador por injúria. Isso levou o Governador das Armas a redigir uma longa réplica, "tres vezes maior do que o [ofício] original e desta vez com as requeridas provas..."59
Foi o último 'feito' de Cunha Mattos em Goiás. A partir de então, procurou serenar o espírito – tanto quanto possível – restringindo suas tarefas cotidianas às obrigações como militar. O tempo escoava. Enfim, em março de 1826, deixou Goiás em direção ao Rio de Janeiro, para tomar assento função de
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BRASIL, Americano do Brasil. Pela História de Goiás, Editora UFG, Goiânia, 1980, pg. 161.
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Ibidem, pg. 162.
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legislador junto à Assembléia Legislativa, deixando no comando das Armas ao coronel João José do Couto Guimarães. Partia definitivamente. Nunca mais retornaria a Goiás, que se dignou reelege-lo como representante para o triênio legislativo iniciado em 1830.60
Para nós, historiadores, cientistas sociais e antropólogos a presença de Cunha Mattos nos planaltos e planícies do Brasil Central tem menos importância como um fato histórico ligado ao processo de Independência do que à relevância da documentação legada por este Governador das Armas durante o período em que esteve à frente da administração militar de Goiás. Afinal de contas, nessa massa documental depositada nas estantes do Arquivo Histórico Estadual de Goiás, encontra-se, de modo inequívoco, um mosaico cuidadosamente redigido acerca da vida social, política e econômica de Goiás nas primeiras décadas do século XIX.
Americano do Brasil, o famoso historiador goiano, conheceu estas fontes e a elas deu o seu devido valor. Todavia, a resenha que elaborou a partir dos extratos dessa documentação, apesar de valorosa, foi demasiada sucinta e hoje já evidencia os sinais inequívocos do tempo, sobretudo porque os modelos interpretativos do autor, mesmo a despeito dos méritos a ele justamente creditado, não foram (e não são) capazes de ocultar falhas e lacunas na análise e na crítica.
Diante dessa compreensão, tomei a terefa de apresentar ao leitor, aquilo que o trabalho de pesquisa e análise de Americano do Brazil não foi capaz de comtemplar e aferir.
O que se segue agora nessa segunda parte do segundo capítulo é o relato, a análise, a crítica do prolíxo diálogo travado entre Cunha Mattos e a elite administrativa (militar e civil) de Goiás, um curioso, pitoresco e revelador diálogo que descortina, em parte, a teia, a trama e o drama da história goiana durante a afirmação e consolidação do processo de Independência.