Slowly but surely - demand and supply in girls' education 1899-1956
4. Extensive but limited potential: demand and supply 1920-1956
Até aqui, o que verificamos foi que, do ponto de vista intelectual e da produção teórica, Nelson Werneck Sodré é um autor coerente com suas concepções ideológicas. Rigoroso nas análises, em seus escritos teóricos buscou as especificidades da apropriação marxista para as análises da realidade brasileira. Percebemos que Sodré tem domínio e clareza das questões e limitações impostas. Dito isso, entendemos que há uma grande distinção entre a análise histórica sobre a realidade brasileira e as possibilidades reais de atuação na realidade. Uma vez que a primeira representa o campo do ideal e a segunda o campo do real. Se a ação política pudesse ser estabelecida de acordo com que as teorias defendem, teríamos, no caso da teoria de esquerda, já alcançado o socialismo. Ainda, se a ação política fosse como pretendem os conservadores, estaríamos restritos à aceitação eterna da exploração. Assim, a contradição é elemento fundamental da compreensão da realidade e atuação prática.
Entendemos Nelson Werneck Sodré como um intelectual engajado, o que é quase um pleonasmo para o período histórico70, mas, acima de tudo, o entendemos como um intelectual propositivo e com forte visão estratégica. Sua crítica não se limitava à arrogância, na medida em que apontava saídas e fazia uma opção pela prática, dentro do quadro que a realidade histórica oferecia.
Buscamos apontar que toda e qualquer ação política coloca em prática é embasada por concepções de mundo. Em se tratando da Revolução Brasileira, dos caminhos da transformação social que fossem capazes de superar as ordens coloniais brasileiras, os
70 Para o momento histórico, o engajamento político dos intelectuais é uma marca. Sobre esse assunto ver PÉCAUT, Daniel. Os intelectuais e a política brasileira: entre o povo e a nação. São Paulo. Editora Ática S.A. Tradução de Maria Júlia Goldwasser. [Série Temas vol. 16 – Sociologia e política], 1990.
intelectuais e suas ideologias estabeleceram projetos distintos para o país. Cada ideologia, de acordo com a sua perspectiva, apontava para uma direção e oferecia um norte para as ações. Essa relação, da existência de uma concepção de mundo norteando projetos para a sociedade, se dá em toda tomada de decisão política e em todas as direções, seja à direita, seja à esquerda. Na controvérsia sobre a existência ou não do feudalismo brasileiro residia também uma questão política. A existência do feudalismo, de uma etapa a ser superada, significava ações políticas menos abstratas para o desenvolvimento brasileiro, dentre eles a reforma agrária, que para essa teorização era tida como uma contradição em relação ao capitalismo e que atrasava seu desenvolvimento.
Após o golpe de 1964, a “teoria da Revolução Brasileira” foi revisitada e o processo histórico garantiu a visualização de que não existia a contradição entre as formas de produção no campo e o desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Entretanto, somente do ponto de vista da acumulação de capital e não de sua distribuição democrática. O desenlace não significou a realização do tipo de desenvolvimento requerido pelas esquerdas e por algumas instituições como ISEB, que apostaram no “nacional desenvolvimentismo”. Não obstante, o desenvolvimento capitalista não se efetivou sob bases populares.
Traçamos aproximações, principalmente neste período histórico pré-1964, entre PCB, III Internacional Comunista, ISEB e a História Nova do Brasil, assim como entre a visão de Nelson Werneck Sodré e de Caio Prado Junior, que apesar de suas divergências, mantinham- se em torno de um ideal de transformação. Hegemonicamente, a historiografia sobre o assunto da Revolução Brasileira identifica a III Internacional Comunista e o PCB como culpados pelos erros da esquerda em geral por causa da radicalização do desenvolvimento capitalista, da associação ao inimigo, da presença da burguesia nacional, do feudalismo ou pelo esquematismo marxista. Entendemos que as aproximações em torno das teses do PCB não devem significar unidade teórica.
Havia um compromisso político que acabou unindo forças sociais com interesses distintos e, por vezes, até antagônicos. Essa é outra ambiguidade com que o período deve trabalhar. Seria impróprio sugerir a capacidade absoluta da III internacional ou do PCB de pautarem em absoluto as necessidades históricas do povo brasileiro. Seria desvincular as necessidades e interesses que cada fração ou grupos sociais, mesmo à esquerda, pudessem ter. Entendemos o momento como uma aliança estratégia entre alguns grupos dos quais o nacionalismo e o desenvolvimentismo apresentavam a bandeira que mais contemplava os interesses comuns.
Acreditamos na importância fundamental do PCB na divulgação do marxismo no Brasil e como vanguarda da ideia-força da revolução. Era, por excelência, uma organização formativa e, nesse sentido, exercia forte influência sobre a sociedade. Entretanto, concordamos com Aarão Filho que aponta que essa instituição e seus intelectuais buscavam as especificidades, dentro de suas limitações e restritos à possibilidade de seu tempo histórico, para a aplicação da teoria no Brasil.
O pensamento de esquerda, suas análises e a atuação a partir das instituições se constituem como peças de um quebra-cabeça para o entendimento da realidade brasileira e, por conseguinte, para o entendimento da História Nova do Brasil, na medida em que balizaram e motivaram suas ações. Entretanto, as ideias não se movem sem o real que as determina. Como vimos, as ideologias neste período histórico tinham muito importância e se propunham, a partir do Nacional-desenvolvimentismo do ISEB e/ou das ideias da carta de março 1958, por exemplo, a agir sobre esse real. Nossa intenção, com o próximo capítulo é apontar a riqueza de determinantes que estão presentes no momento de organização e realização do projeto da História Nova do Brasil.