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trônicos, muitas vezes para criar novos instrumentos musicais ou visuais e geradores de som. O “especialista” é Surian dos Santos, que trabalhou também como técnico de som na performance “Crude” com Guilherme Vaz e Romano, na Bienal do Mercosul, em 2009.

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romano Por meio do som e dos objetos. Para a Casa de Cultura Laura Alvim, elaborei uma exposição em que todas as partes da casa se comunicam, como numa composição. Os diversos trabalhos apre- sentados ali dialogam da seguinte forma: quando o som de uma sala diminui, entra o som da outra sala. Cada objeto é, em si mesmo, uma composição, na qual um sistema organiza a produção sonora. Uma das obras expostas é O Estrangeiro (2013), um móvel no qual cada gaveta emite o som de uma paisagem sonora diferente ao ser aberta. Gravo as faixas de áudio e com elas monto, digamos, a sonoridade de cada objeto. O resultado final estabelecerá um sentido interno para cada obra. Dado que a sala da frente da Casa de Cultura Laura Alvim possui uma grande janela para o mar, e como é impossível escapar da paisagem, resolvi trazer o som do mar para dentro do espaço de uma maneira ensurdecedora, como se o visitante estivesse na beira da água. Esse trabalho se chama Turbina (2013) e é construído com canos que emitem o som. Além disso, voltei a pesquisar a questão da dança e de como ela pode se relacionar com o meu trabalho.

O que você busca no bailarino para construir esta ponte com o seu trabalho?

Romano– É preciso que o bailarino passe o mais despercebido possí- vel e que aja com naturalidade, o que é importante para que o público se aproxime. Nas minhas performances, os bailarinos se infiltram no meio das pessoas: não há começo, nem final, não há palmas. Uma delas foi feita na Barca Rio-Niterói, onde os bailarinos dançaram com sapatos sonoros eletrônicos. Somente no final do percurso é que as pessoas entenderam que aquilo tinha sido uma coisa extraordiná- ria. Estivemos muito longe de um “espetáculo” nas Barcas. Foi qua- se invisível.

Acho que, em geral, isso está relacionado com sua linguagem: bus- car no cotidiano os objetos que passam despercebidos. O próprio

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objeto que temos em casa. Há uma tentativa de passar despercebido talvez para conseguir essa aproximação com as pessoas. Queria que você falasse um pouco sobre seus projetos de intervenção urbana e sonora. Como você procura vincular o público à intervenção urbana e política que dimensiona a obra?

romano Penso que tudo faz parte de um sistema. O som é social, gera um campo sonoro: o que falo aqui é audível para todos nesse local. Falar é produzir um território em torno de você. A posição diante da paisagem sonora encontra-se relacionada com uma posição ante as coisas em geral e é, portanto, uma posição política. Quando fala- mos, emitimos um som, movimentamos o ar. Como na Ursonate de Kurt Schwitters, usamos o corpo como caixa de ressonância. A fala é o começo do meu trabalho; trata-se de um posicionamento em relação ao mundo rompendo com o cotidiano. Falo do cotidiano justamente para quebrá-lo.

O segundo elemento dessa prática é o objeto. Se percebermos o fato de que todos os objetos do mundo são potencialmente sonoros, e para nós isso passa quase despercebido, começamos a ter outra re- lação com este sentido. Não sou partidário de uma escuta educada, não acho que exista um aprimoramento que conduz a uma boa escuta do mundo urbano. Meu trabalho refere-se à prática de multiplicar as possibilidades de fala e escuta dos indivíduos. Isso se dá ao perceber o mundo à sua volta, com mais tempo, com mais atenção e com mais prazer. A cidade é o lugar escolhido para esse trabalho pela natureza ruidosa, distinta da do campo.

A desconstrução do cotidiano conduziria, da mesma forma, a um maior envolvimento com esse cotidiano?

romano Pelo humor, procuro instigar um pensamento crítico a respeito do cotidiano. Meus trabalhos, usualmente, têm humor. O humor é uma ferramenta crítica que, a princípio, causa surpresa.

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Imagine estar na porta da fábrica mais poluidora do Brasil e ter ali uma pessoa com uma máscara de gás que emite o som de um acesso de tosse (Mascara de gás, 2007). Essa situação é provocativa e tam- bém engraçada.

Como as pessoas reagiram a esse trabalho?

romano Mascara de gás foi um trabalho que teve mais reação do público, porque algumas pessoas me agrediram verbalmente, foi ten- so. Foi realizado em Volta Redonda-rj, onde a poluição é uma questão sobre a qual ninguém quer conversar. É uma espécie de acordo vela- do. Não querem saber se terão uma expectativa de vida pior devido à poluição causada pelas fábricas. Aconteceu, ainda, a seguinte situa- ção cômica: fiz o trabalho uma hora antes do combinado, para estar na rua o mais anônimo possível, somente eu e um amigo filmando ao longe. Após a primeira caminhada pela cidade – quando o clima estava ficando tenso – chegaram todos, equipe, produção, assessoria de imprensa, e as âncoras do rj-tv e da Band tv, muito conhecidas do público local, para acompanhar o trabalho. Eu continuei a performan- ce pela cidade e as âncoras iam atrás, entrevistando as pessoas na rua sobre o que elas pensavam o que seria aquilo. Essa presença que- brou a surpresa da ação, pois quando elas foram reconhecidas como jornalistas a relação do público com o trabalho mudou completamen- te. Tornou-se atrativo participar visto que era uma entrevista para a televisão. Foi importante ter saído antes da hora e burlar o horário oficial, porque tudo aconteceu de verdade no confronto inicial com os pedestres.

E como foi a experiência com Falante?

romano Realizei essa obra em várias cidades, primeiramente em Fortaleza, depois em São Paulo, Rio de Janeiro, assim como em La Habana em Cuba e Santiago do Chile. É uma mochila comum com um microfone, um sistema de som e uma bateria de carro. Em Fortaleza

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tinha apenas mil reais para fazer o trabalho, pagar a estadia, alimen- tação, editar o vídeo, gravar o dvd. Fiz a performance num mercado popular, as pessoas assobiavam, batiam palma. Em São Paulo, foi o contrário, ninguém olhava muito para o que eu estava fazendo. A frase que você usou na obra foi “não preste atenção”. Repetidamente, parecia um poema concreto.

romano Sim, parece mesmo. Possui, do mesmo modo, uma circu- laridade, alguma coisa parecida com o que os vendedores intuitiva- mente usam. Outro detalhe: em Fortaleza há muitos vendedores de rua que utilizam algum aparelho sonoro, por isso a surpresa foi maior. Sua frase, igualmente, instaura um duplo-discurso, um tanto irônico, ao pedir pelo alto-falante que não se preste atenção, quando a ação é, precisamente, chamar a atenção.

romano Com o humor e a ironia, consigo dizer o que quero de forma mais sutil. O momento também influi. Hoje temos outro modo de fa- zer, isto é, os objetos, a fala e o mundo se integram no meu trabalho pelo humor. O que eu faço, são coisas aparentemente sem função, de- safiadoras da ideia de cadeia produtiva. É muito importante que não haja o que fazer com aquilo que não tenha valor diretamente. Tudo no mundo tem um valor agregado, é uma questão de commodity. A per- formance Falante aparenta ao sujeito um desperdício: “por que esse cara ta fazendo isso?”, ele deve se perguntar.

Isso, da mesma forma, fala sobre a relação dos objetos que você cria com o próprio mercado de arte, não é?

romano Sim, de certa maneira. Acho que o objeto pode participar do mercado de arte sem problema, o que não deve acontecer é o artista trabalhar subordinado à demanda externa. A arte deve vir de uma de- manda interna, ela é imanente. Se atender a demandas externas, o ar-

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tista se transforma em um super-designer, um projetista de arte con- temporânea. Deve sempre haver uma questão interna do artista, uma relação crítica com o mundo. Como é que pode existir um artista sem crise? Tenho dificuldade de entender os artistas otimistas. Entendo o artista como uma pessoa provocadora, que problematiza as coisas, e não como alguém que produz e é bem remunerado por isso. Isso me parece um fenômeno do capitalismo contemporâneo. Tudo começa a ser medido pelo valor agregado. O absurdo dos meus trabalhos é exa- tamente que eles não têm função. Isso surpreende e nega a afirmação de que o sujeito precisa ser funcional. Por que precisaria?

Justamente. O objeto artístico, em si, não tem uma função prática, mas tem uma função de mercado, ele serve para especulações finan- ceiras ou obedece a uma função decorativa. Tem uma serventia social e econômica. Talvez alguns dos seus trabalhos possam entrar nes- sa dinâmica de mercado, contudo há outros, como a Máscara de gás, que só funcionam fora desse âmbito de serventias, uma vez que nem possuem função de mercado.

romano É verdade. Tenho um trabalho chamado Sample Way of Life (2007) que é um desfile de alta costura com roupas falsas, de came- lô – Channel, Dolce&Gabana etc. – feito com uma empregada domés- tica, com uma cozinheira, com algumas pessoas do público e com a participação de cantores de rap. Esse trabalho foi primeiro realiza- do na Funarte (2007) e depois na rua, na Cinelândia, Rio de Janeiro. Depois disso foi apresentado em uma galeria (2008), o que era muito provocador para aquele contexto. Primeiro, porque o público de uma galeria de arte usa Channel e Rolex, e na minha performance era tudo falso, eram marcas de camelô. Segundo, porque depois da ação, colo- quei para vender essas roupas piratas na galeria por um preço maior do que o original. Trata-se de um trabalho que aborda diretamente a valoração da obra de arte.

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A experiência com os rappers foi interessante. Não fiz nenhuma im- posição a eles. Cantaram sua visão do desfile, da moda, dos camelôs, da galeria. Tiveram presença, foi importante. Eles se dispuseram a ultrapassar os limites da rua, sem ver problemas em estar na galeria ou na instituição. Tanto é que Jay-Z fez uma performance com Marina

Abramovic48. Gosto dessa atitude. A cultura popular é recorrente no

meu trabalho, me interessa essa troca de saberes. O Brasil é conheci- do pelo futebol, pelo samba, pela capoeira, pelas tradições da cultu- ra popular, e é preciso aceitar isso. Essa miscigenação é a nossa imu- nidade. Nossa pós-modernidade passa por essa mistura de saberes. Porém a elite sempre absorve essa outra cultura de uma maneira um pouco hipócrita, mantendo uma relação ainda hierárquica com esta cultura popular que vem da periferia, da zona norte do Rio de Janeiro, não concorda?

romano Sim, concordo. No entanto, há uma absorção dos dois la- dos, e acho isso bom. Então me pergunto: por que os camelôs não podem samplear as marcas que seriam predestinadas a uma elite rica, se o que interessa hoje são os conceitos, o valor da imagem, os direi- tos de imagem? O que está em questão aqui não é o valor físico da roupa, mas o valor da imagem. O fitness da Nike, o charme da Channel são valores que estão disponíveis para todo mundo. “Samplear a eli- te que nos sampleia”, essa era a intenção, o desafio para o meu tra- balho. A arte, por exemplo, perde com o discurso de ser algo para poucos. Não é para ser assim, arte é para todo mundo. A arte ativa a criatividade, e meu trabalho está relacionado com isso. Um chuveiro, por exemplo, em que ao invés de sair água, sai música, tal coisa faz parte do meu trabalho, isto é, o fato de falar com todos. Não é pela

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