dominar ou vencer uma determinada situação, mas busca se infiltrar no interior de um sistema para propor soluções a determinadas necessidades. Para isso, explora as falhas do sistema e utiliza o improviso de meios dada a falta de recursos próprios.
pr oc e s so s tát ic o s d a a r t e : im p ro v is o , precaried ad e , gam b ia r r a
33 da às técnicas eletrônico-digitais, essa tática de ação, num primeiro
momento, penetra no campo da indústria para, em seguida, alterar suas regras. O objeto artístico e cultural desestabiliza a tecnocra- cia do produto industrial. Motores de forno micro-ondas, lâmpadas de led, ventiladores de computador, além de uma multiplicidade de objetos comprados em mercados populares, são adquiridos ou recu- perados para serem recombinados com diversos objetos e reinseri- dos, então, em outro campo de significações simbólicas. O improviso e o resgate de uma elaboração manual implícitos nessa prática – não necessariamente ligada a uma precariedade – rompem os limites en- tre o industrial e o artesanal, entre o artista e o artífice.
O coletivo Gambiologia – formado por Ganso, Fred Paulino e Lucas Mafra – propõe a gambiarra como uma tática do improviso, associada com a eletrônica e com a programação digital. Os objetos por eles elaborados reúnem uma abundância de materiais provenientes de ferros-velhos, brechós, lojas de eletrônica e até do lixo encontrado no perímetro urbano. São arranjados num assemblage barroco que subverte qualquer hierarquização de materiais ou organização racio- nal. Nessa apropriação estética, o Gambiociclo (2010) é um veículo de transmissão multimídia, equipado com diversos tipos de eletrônicos e elaborado inteiramente com materiais de segunda mão: a base do veículo é um triciclo de carga, ao qual foram incorporados peças de ferro-velho, embalagens de produtos, motores e uma multiplicidade de elementos eletrônicos. Este carro-objeto foi montado para atuar como um veículo multimídia, destinado à realização de projeções, performances de graffiti digital e intervenções diversas no espaço ur- bano, resultando numa obra em constante processo de adaptação às necessidades episódicas. O Gambiociclo atua, dessa forma, como vín- culo direto entre o espaço urbano, seus transeuntes e a esfera técnica. As obras sonoras de Paulo Nenflidio manifestam um rigor escul- tórico na elaboração formal. O artista projeta suas obras como se armasse um quebra-cabeça, nas quais são utilizadas peças fabri-
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cadas dentro de um processo artesanal, assim como elementos pré-fabricados, com o intuito de explorar as características eletroa- cústicas do som. Polvo (2010) possui uma estrutura eletromecânica que utiliza água e ar comprimido para produzir um som que, se- gundo o próprio artista, lembra o lamento de um bicho desconheci- do. Interruptores situados no corpo da obra acionam válvulas que deixam passar ar comprimido no interior da tubulação de conduíte, semelhante a braços de um polvo eletromecânico. A cabeça da es- cultura pulveriza água. Todos os materiais da obra – tubos, cone- xões, interruptores, compressores de ar etc. – foram comprados já prontos, sendo combinados para dar outro uso a esses elementos e desviá-los de sua função original. No entanto, a precisão e o aca- bamento de Nenflidio descartam a gambiarra como uma utilização do precário para incidir, sobretudo, no improviso de materiais. É o caso de Monocórdio Infinito nº 2, construído com peças retiradas de um contrabaixo elétrico, de um amplificador e de um ventilador
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S
] Coletivo Gambiologia Gambiociclo, 2010 Concepção: Fred Paulino; Mecânica: Andrei Policarpo; Foto: Pedro David35 de escritório, e Escorpião (2009), construído com material eletrôni-
co sucateado, levado ao artista durante seu período de residência em Arizona-usa, em 2009.
Esses tipos de práticas podem ser vistos como maneiras de utilizar uma ordem imposta – nesse caso, a tecnologia e os padrões tecno- cratas – em que serão introduzidos padrões de fazer alternativos. O artista mobiliza, assim, dois tipos de funcionamento diferentes, o normativo e o alternativo, que interferem um no outro. Essas formas de reemprego de materiais instauram uma pluralidade de usos cul- turais e, paralelamente, subvertem a lógica produtora: “aquilo que se chama de “vulgarização” ou “degradação” de uma cultura seria, então, um aspecto, caricaturado e parcial, da revanche que as táti- cas utilizadoras tomam do poder dominador de produção” (Certeau, 1998: p. 95). As táticas desviacionistas, ao operar no interior de um dado sistema, indicam que não há uma rejeição da tecnologia, ou
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T
] Paulo Nenflidio Polvo, 2010 Tubos e conexões de PVC, válvulas solenóides, compressor de ar, tubo de borracha, conduítes azuis, pulverizador de água; 170 x 350 x 250 cm36
seja, elas não reproduzem ideias tecnofóbicas ao modificar os obje- tos tecno-industriais.
A estética que improvisa, recupera e opera desvios nos dispositivos tecnológicos apresenta, em alguns casos, um anacronismo entre o passado arcaico e o presente (ou futuro) cibertecnológico. Dessa maneira, elabora uma espécie de mitologia cyberpunk, na qual a fic- ção cientifica é combinada com diversos gêneros literários e cultu-
rais, que conferem frequentemente um valor teológico à narrativa17.
Totem (2007), de Paulo Nenflidio, constrói um monumento-reduto de tecnologias obsoletas. Como símbolo sagrado, o totem corresponde a uma identidade social, ligada à ancestralidade de uma determina- da cultura humana. A obra de Nenflidio propõe uma genealogia de dispositivos e, igualmente, estabelece a tecnologia como o ancestral comum da sociedade global. A vertiginosa obsolescência dos apa- relhos tecnológicos pode ser observada em outras obras do artista, como Cramunhãozinho (2006), na qual o artista emprega drivers de cd de computadores para caracterizar um ser demoníaco, que se move sem controle.
A obra Malachat (2011), do coletivo Gambiologia, opera também com a genealogia dos inventos tecnológicos ao propor uma inversão dos processos evolutivos desses dispositivos. Trata-se de uma tentativa de combinar uma prática atual, inventada pelas tecnologias recentes, com um substrato tecnológico mais antigo. O trabalho recupera a dinâmica do chat ao instalar, em duas malas antigas, circuitos e televisores, a fim de recriar esse universo interativo digital. Por meio da emissão de sinais de tv e rádio, sem utilizar nenhum tipo de tecnologia computa- cional, os televisores e rádios são sintonizados em cada maleta para a recepção do sinal do emissor. Esse chat, analógico, é ironicamente