“O QUE É A SENSAÇÃO? COMO A MATÉRIA PODE CHEGAR A PERCEBER A SI PRÓPRIA? DE QUE A SENSAÇÃO É TRIBUTÁRIA? EM QUE CONDIÇÕES A SENSAÇÃO SE APRESENTA E EM QUE CONDIÇÕES ELA NÃO SE FAZ PRESENTE?”
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Empenhamo-nos em resgatar, nos capítulos anteriores, as principais asserções reichianas sobre o funcionamento sensorial e prospectar suas raízes científicas e filosóficas. Assim procedendo, procuramos contribuir para ampliar o entendimento sobre as pesquisas sensorialistas de Reich, pesquisas essas que, embora basilares em sua produção, permanecem pouco conhecidas ou discutidas. Teceremos agora, a título de finalização, algumas reflexões gerais suscitadas pelo presente estudo.
Salta aos olhos, antes de tudo, justamente o papel fundamental que o tema da sensação ocupou no conjunto da obra do cientista. Tivemos oportunidade de notar, ao longo deste trabalho, que o problema da sensorialidade não apenas permeou, por quase quatro décadas, as investigações clínico-terapêuticas, experimentais e epistemológicos reichianas, como também atuou como elemento articulador desses três setores. Por isso, os estudos de Reich sobre a sensação assumem, a nosso ver, lugar de destaque em sua produção e ocupam o mesmo patamar de outras pesquisas-chave do autor, tais como as que ele dirigiu à questão da energia e à epistemologia da produção científica.
Chama atenção, também, o fato de o cientista ter adotado, como elemento de base de suas investigações sensorialistas, um tipo específico de percepção, ao qual ele atribuiu, como vimos, quatro distintas, porém correlatas denominações: sensação plasmática, sensação vegetativa, sensação de órgão e sensação orgonótica. Para Reich, a sensação de órgão era de suma importância, pois ela representaria a tradução psíquica mais cristalina dos pulsos e fluxos plasmáticos, teria potencial para relembrar ao ser humano sua origem animal (protoplasmática),
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seria um elemento indispensável da potência orgástica, funcionaria como antídoto às seduções mecanicistas e espiritualistas e desempenharia importante função na produção do conhecimento, inclusive, do saber científico. Pode-se dizer ainda que, com seus multifacetados estudos (clínico-terapêuticos, experimentais, epistemológicos) sobre as sensações plasmáticas humanas, o autor trouxe um novo olhar para um tipo de percepção ou vivência (como as sensações de corrente) que não raramente desponta nas práticas diretamente voltadas ao movimento do corpo (danças, artes marciais, atividades esportivas), nas assim chamadas terapias corporais, em determinados estados de bem-estar e mesmo em algumas condições patológicas, e, como realçou o autor, em certas experiências eróticas.
Adotando a sensação plasmático-vegetativa como unidade de análise, o autor acabou realizando uma pesquisa de amplo espectro que articulou dois aspectos extremos da sensorialidade: suas matrizes biológicas e cósmicas, por um lado, e seu papel na construção humana do conhecimento, por outro. Concebendo a sensação plasmática como uma característica básica da matéria viva (decorrente da coligação entre energia orgone e substância protoplasmática) e não apenas como um fenômeno específico de seres humanos ou de organismos dotados de sistema nervoso, Reich também procurou demonstrar que, no campo do humano, esse gênero de apreensão sensorial seria continuamente modelado por uma estrutura caracterial construída historicamente na relação dialética indivíduo- sociedade.
Merece destaque, ainda, outro aspecto singular da teoria sensorialista reichiana: seu caráter simultaneamente perspectivista e alinhavador. Ainda que tivesse circulado por distintas áreas do conhecimento (Biologia, Psicologia, Epistemologia, entre outras), o autor, rebelando-se contra a rígida
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compartimentalização dos saberes e mantendo-se fiel a um aspecto central de sua metodologia de pesquisa, apostou na existência de um princípio fenomênico unificador que integrasse desde o funcionamento unicelular até a atividade intelectual humana. O cientista apresentou esse fator comum no quadro de sua teoria das emoções, propondo que as espontâneas direções de movimento do plasma (as emoções, de acordo com a terminologia orgonômica) e suas concomitantes sensações comporiam uma motilidade sensorial que, além de se fazer presente no organismo unicelular, seria um ingrediente fundamental (como sensações de órgão) na formação e exercício do intelecto humano. Ambas as asserções ― de que haveria uma motilidade sensorial em micro-organismos e de que esse mesmo gênero de sensorialidade seria fundamental para o pensamento humano e sua orientação epistêmica ― são tão ousadas, quanto polêmicas, e mereceriam, a nosso ver, análises multidisciplinares mais aprofundadas.
Examinando as proposições sensorialistas do autor, não é possível deixar de notar sua tentativa de enraizar em termos bioenergéticos (ou, dito em linguagem reichiana mais precisa, em termos de pulsatilidade plasmática orgonótica) não apenas os fenômenos da sensação e percepção, mas também o orgasmo, a emoção e a expressão emocional. Frequentemente considerado o pai de algumas psicoterapias corporais, Reich, sem jamais desconsiderar o crucial papel do psiquismo na existência humana, parecia estar mais interessado, em especial no estágio orgonômico de sua produção, em contribuir para a construção de uma bioterapia, ou seja, uma abordagem clínica que acessasse, da forma mais direta possível, as disfunções da motilidade plasmático-vegetativa. Com o método da orgonoterapia, o autor pretendia, de acordo com sua peculiar conceituação, alcançar as perturbações emocionais (os entraves das movimentações plasmáticas e
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de sua expressão periférica), as disfunções percepto-sensoriais (os bloqueios e distorções das sensações de órgão) e, especialmente, a impotência orgástica (a paralisação global da pulsatilidade plasmática).
O papel da sensorialidade plasmático-vegetativa no desenvolvimento psíquico do recém-nascido e da criança pequena representa, em nosso entendimento, outra promissora diretriz investigativa reichiana. Nesse contexto, são bastante originais as tentativas do autor, que apenas esboçamos aqui, de correlacionar a desintegração do pensamento, em certos casos de esquizofrenia, a possíveis perturbações vivenciadas na primeira infância durante o processo de integração das sensações de órgão da criança.
Por meio de inovadoras pesquisas, direções investigativas e plataformas de análise, o autor ofereceu, sem dúvida, novos elementos teóricos, experimentais e epistemológicos para o estudo da sensorialidade. Com o presente trabalho empreendemos algumas aproximações com esse peculiar e polêmico percurso reichiano — um percurso que, parece-nos, ainda tem muito a ser explorado. Alguns temas que apenas pudemos abordar de forma panorâmica — como as proposições reichianas sobre o mecanicismo e o misticismo, a sensorialidade dos unicelulares e a base sensorial do psiquismo —, também mereceriam, a nosso ver, análises mais detalhadas, dado seu potencial para suscitar, em uma contemporaneidade que parece pouco disposta a se embrenhar nas searas da Teoria do Conhecimento, discussões simultaneamente científicas e epistemológicas. Seriam igualmente valiosas, em nossa opinião, eventuais pesquisas que estabelecessem contrastes críticos entre as asserções sensorialistas reichianas e outros estudos sobre o funcionamento percepto-sensorial.
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Em suma, são muitas e diversas, a nosso ver, as implicações decorrentes das teorias de Reich sobre a sensação, embora não tenhamos tido a oportunidade de começar a explorá-las aqui, dado nosso propósito de, essencialmente, recuperar e circunscrever tais teorias. O autor desta tese tem, aliás, a sensação (!) de ainda estar bastante impactado pelas asserções sensorialistas reichianas e que passará um bom tempo digerindo suas implicações científicas, filosóficas e terapêuticas.
Esperamos, no entanto, ter apontado, com a presente pesquisa, o papel central da sensorialidade na produção reichiana e as contribuições do cientista para o conjunto de investigações que, de longa data, vêm procurando compreender o intrigante fenômeno da apreensão sensorial.
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