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Em diversos momentos e a partir de diferentes ângulos, Reich defendeu a tese de que a couraça influenciaria ou moldaria, de maneira determinante, a subjetividade do sujeito. Para o cientista, a presença ou não de encouraçamento seria algo crucial na existência do indivíduo, pois, a seu ver, o “organismo

encouraçado” perceberia e compreenderia a si mesmo e ao seu entorno de maneira “essencialmente distinta” da do “indivíduo desencouraçado” (REICH, 1949/1973c, p. 56, tradução nossa, grifos do autor).

Como mencionamos anteriormente, o sujeito encouraçado, segundo as pesquisas reichianas, apresentaria um rígido bloqueio ou sérias disfunções no que concerne à mobilidade de suas “correntes plasmáticas” (REICH, 1990c, p. 31, tradução nossa), de modo que ele, ou não perceberia tais correntes ou as experienciaria de forma distorcida. Em ambas as situações, o indivíduo deixaria de

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estabelecer contato direto, sélfico, com os “processos vivos” (REICH, 1949/1973c, p. 60, tradução nossa) e perderia, consequentemente, a possibilidade de compreendê-los de forma profunda ou, na linguagem reichiana, de forma funcional (mais adiante, analisaremos em detalhes esses processos de abafamento e distorção das sensações plasmático-vegetativas). 69

Ao se ver na presença de alguém que apresenta uma mobilidade plasmática “livre”, o sujeito encouraçado, de acordo com o autor, tenderia a sentir a motilidade alheia como “algo estranho e perturbador”, podendo até mesmo experienciar certa “ansiedade consciente”. Em “todos os casos de encouraçamento” seria possível observar não apenas esse profundo temor da “motilidade livre” (REICH, 1949/1973c, p. 61, tradução nossa) de outros indivíduos, como também, a existência e consequente risco de irrupção de impulsos cruéis e sádicos.

Para Reich, o sadismo seria resultado da tentativa frustrada de o “ser humano encouraçado” dar expressão aos seus ímpetos plasmáticos primários — como os “impulsos amorosos” —, posto que tais ímpetos inevitavelmente se chocariam com as fortes limitações impostas pela couraça (ou a paralisia da motilidade plasmático-vegetativa). O impulso primário continuaria, entretanto,

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Como mencionamos logo acima, a polarização estrutura encouraçada/estrutura desencouraçada é uma constante na obra reichiana. Embora concebesse a existência de brechas na couraça, que promoveriam acesso, mesmo que raramente, ao assim chamado núcleo sélfico, Reich, ao falar do caráter, estrutura ou organização desencouraçada, não parecia estar se referindo a um sujeito que vivencia estados ou contatos fugazes associados aos seus (empregando-se a terminologia do autor) impulsos primários, mas sim, a um indivíduo que, salvo condições excepcionais, teria contato direto, vívido e cotidiano com seus ímpetos profundos. Ainda que ultrapasse nossos objetivos, aqui, investigar possíveis reducionismos nesse posicionamento reichiano, parece-nos que uma análise crítica precisaria iniciar com a ideia que dá fundamento à polarização em pauta, ou seja, a noção de impulsos primários e impulsos secundários. Pois, para o autor, seria em torno dos impulsos primários que basicamente gravitaria a existência do indivíduo desencouraçado, ao passo que o sujeito encouraçado estaria realizando um esforço contínuo e exaustivo, seja para conter seus impulsos secundários, seja para acessar seus ímpetos primários. A nosso ver, essa dicotomia entre impulsos primários e secundários contém importante porta de entrada para um exame crítico da proposição reichiana de que a humanidade estaria basicamente dividida em indivíduos encouraçados e desencouraçados.

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exercendo pressão no e pelo sistema plasmático, como que buscando a todo custo uma solução periférica ou expressão emocional (a consecução, na superfície organísmica, do ímpeto profundo). Esse exaustivo processo promoveria, por fim, uma mudança na qualidade do impulso. Pois, ao forçar sua passagem, o impulso original se transformaria em “ódio e crueldade” (REICH, 1949/1973c, p. 124, tradução nossa): “O organismo tenta romper a couraça à força, como se estivesse aprisionado” (p. 120, tradução nossa).

Por outro lado, o indivíduo desencouraçado, que estaria bastante coadunado com seus impulsos primários e dotado de “capacidade para convulsão orgástica e descarga do excesso de bioenergia” (REICH, 1950/1990e, p. 1, tradução nossa), teria possibilidade, na visão reichiana, de perceber e compreender a importância crucial das emoções (os movimentos plasmático-espontâneos), tanto as de outras pessoas, como as suas próprias. Para Reich, esse ser humano não encouraçado conseguiria manter contato — valendo-se de sua sensorialidade plasmática — “com a natureza dentro e fora dele” (REICH, 1949/1973c, p. 116, tradução nossa).

Por experienciarem sensações e condições plasmáticas muito distintas, o sujeito encouraçado e o sujeito não encouraçado apresentariam concepções de mundo radicalmente opostas. Pois, na visão reichiana, “a qualidade das apreciações formuladas pelo indivíduo” e “as reações baseadas nessas apreciações” dependeriam, em derradeira instância, da “qualidade das sensações [plasmáticas]” (REICH, 1949/1973c, p. 56, tradução nossa). Para o autor, haveria uma ligação direta entre o grau de motilidade plasmático-vegetativa (numa escala que iria da pulsatilidade livre ao mais rígido encouraçamento) e a visão de mundo do sujeito (que iria, como veremos mais adiante, de engessadas concepções mecano-

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metafísicas, negadoras da vida, a flexíveis concepções funcionais, afirmadoras da vida).70

Por ter trabalhado terapeuticamente, durante um longo período, para que um “grande número de organismos encouraçados” pudesse experienciar “o fluxo de sua corrente orgonótica”, o autor sentia-se gabaritado para afirmar que a “atitude em relação à vida” ou a “‘visão de mundo’” (REICH, 1949/1973c, p. 61, tradução nossa) estaria diretamente subordinada à capacidade de movimento do protoplasma do indivíduo. A experiência clínica teria demonstrado, ao autor, que a presença de fluídas correntes vegetativas e sua integração na experiência orgástica se traduziriam em uma concepção afirmativa em relação ao fenômeno da vida, ao passo que o crônico encouraçamento estaria frequentemente associado a uma visão de mundo negadora da vida, que pendularia entre a resignação depressiva e o sadismo cruel (voltaremos a esse tema, mais adiante).

70 Contando com dados extraídos de suas diversas linhas investigativas (trabalho clínico, estudos

antropológicos, pesquisa laboratorial orgonômica), Reich especulou sobre como a “função humana do

conhecimento” teria surgido do substrato dos “eventos naturais” (REICH, 1951/1973b, p. 277-278,

tradução nossa, grifo do autor). Em texto intitulado “The rooting of reason in nature”, integrado ao seu livro Cosmic Superimposition, o autor ponderou, inicialmente, que o surgimento da vida em nosso planeta teria ocorrido por meio do confinamento do “fluxo cósmico” de energia orgone em uma membrana, confinamento esse que resultaria no surgimento, na criatura vivente, de outro fluxo ou corrente: as correntes plasmáticas. Passado longo período de tempo, a energia orgone organísmica teria desenvolvido a capacidade de “perceber seu próprio fluxo”: “expansão no ‘prazer’, contração na ‘angústia’” (p. 291, tradução nossa, grifo do autor) (o autor não esclareceu, porém, como essa primitiva capacidade perceptiva teria surgido do protoplasma orgonoticamente excitado). Partindo desses pressupostos, o cientista cogitou que o “ser humano”, em algum ponto remoto de sua trajetória evolutiva, teria começado a “raciocinar acerca de suas próprias sensações de correntes” e, também, acerca de sua capacidade “de perceber a si mesmo e de perceber, de uma forma geral” (p. 293, tradução nossa, grifo do autor). Admitindo que tais análises, ainda que apoiadas em indícios provenientes de diferentes ramos de pesquisas, esbarravam na imensa dificuldade de reconstituir eventos ocorridos em tempos tão remotos, Reich, entretanto, considerou lícito supor que a função de raciocínio teria tido início quando o animal humano, para utilizarmos uma expressão cara ao autor, tomou suas próprias sensações plasmáticas como objeto privilegiado de atenção. Mas, cabe indagar, e o inverso, a influência da esfera intelectual na dinâmica da vida? A esse respeito, parece-nos bastante feliz a seguinte reflexão do psicólogo bielorrusso Lev Vigotski (1896-1934), em obra publicada logo após seu precoce falecimento: “Por certo que a vida determina a consciência. Esta surge da vida e forma só um de seus momentos. Mas, uma vez nascido, o próprio pensamento determina a vida, ou, mais precisamente, a vida pensante se determina a si mesma por meio da consciência” (VYGOTSKI, 1935/1997, p. 269, tradução nossa).

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Continuamente ampliando, à medida que sua pesquisa avançava, o conceito de couraça, o autor propôs, especialmente em seus escritos orgonômicos, que haveria dois grandes grupos de encouraçamentos: a estrutura “mecanicista” e a estrutura “mística” (REICH, 1949/1973c, p. 10, tradução nossa). A humanidade, de acordo com a perspectiva reichiana, seria basicamente constituída por essas duas (e prevalentes) estruturas encouraçadas e por um terceiro (e bastante raro) tipo de organização, a estrutura “desencouraçada” (REICH, 1950/1990e, p. 1, tradução nossa). Se o grau de encouraçamento poderia ser aferido pelo impacto ou profundidade, na vida do indivíduo, de seu bloqueio emocional (a paralisia da pulsatilidade protoplasmática, de acordo com a conceituação reichiana), os grandes grupos de estruturações remeteriam, por sua vez, à atitude básica do sujeito diante de suas próprias correntes vegetativas. Adiantando-nos a nossos estudos, cabe comentar, por ora, que, na visão reichiana, as sensações plasmáticas mostrar-se-iam bloqueadas na estrutura mecanicista, distorcidas na estrutura mística e vivenciadas afirmativamente, na estrutura não encouraçada (REICH, 1949/1973c).

Interessado em avaliar, em suas reflexões epistemológicas, o papel do encouraçamento na produção científica, Reich insistiu que o ato de investigação e seus resultados não estariam imunes à “estrutura de caráter” (REICH, 1949/1973c, p. 108, tradução nossa) do pesquisador. Em diversas oportunidades, ele procurou demonstrar que o contato do cientista com suas próprias correntes vegetativas poderia desempenhar papel fundamental em sua atividade investigativa.

Mas, antes de analisarmos de forma mais detalhada os diferentes gêneros de estruturação — os dois tipos encouraçados e o tipo não encouraçado — e as modelações (de teor mecanicista, metafísico ou ‘funcional’) que eles imprimiriam,

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em linhas gerais, à pesquisa científica, cabe examinar outra noção empregada pelo autor, pois ela tem potencial para iluminar a concepção reichiana de estrutura moduladora da sensorialidade plasmática. Trata-se do conceito de organização.

Referimo-nos, anteriormente, à proposição reichiana de que a sensação seria o “único portal” a dar acesso “ao entorno e à nossa própria organização” (REICH, 1944/1991a, p. 28, tradução nossa). Em Ether, God and Devil, o autor, em uma passagem em que fez breves menções a Lange e Kant, ampliou suas considerações sobre a questão da “organização”, ponderando: a) que a “organização física” do sujeito determinaria suas “observações e apreciações”; b) que “a organização e funcionamento do organismo vivo” deveriam ser vistos como os mais importantes “critérios do conhecimento científico em geral”; c) que a “organização biológica” estaria na raiz de “todo conhecimento” (REICH, 1949/1973c, p. 62-63, tradução nossa).

Depreende-se, dessas citações, que Reich via na “organização” do sujeito o estofo em que se processariam os dados dos sentidos, as avaliações a respeito da realidade e a produção de conhecimento, inclusive, o saber científico. Trata-se, portanto, de um tema central, cujas raízes filosóficas merecem ser prospectadas. Como veremos mais adiante, o resgate histórico desse conceito de “organização” permitirá compreender melhor a asserção reichiana de que as estruturas de caráter, com seus modos próprios de se relacionarem com as sensações plasmáticas, imprimiriam, cada qual à sua maneira, singulares moldes epistêmicos ao conhecimento científico.

É em Lange (e no contraste que o pensador estabeleceu com tradicionais teses kantianas acerca da produção do conhecimento) que é preciso buscar, como insinuou o próprio Reich, as fontes da noção de “organização”. Tomaremos então

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esse atalho, procurando averiguar a noção langeana de organização e a forma pela qual Reich a retrabalhou a partir dos conceitos de couraça e sensação plasmática.