4.5 Summary
5.1.1 Which Data should be Covered by Xymphonic Transactions? 46
Pode-se observar, em diferentes momentos da produção reichiana, a ideia de que haveria uma instância que pautaria ou mesmo determinaria os matizes da experiência subjetiva do indivíduo adulto e, consequentemente, sua visão de mundo. As primeiras formulações do autor, a esse respeito, remontam ao estágio inicial de sua produção, quando trabalhou como psicanalista em Viena e, depois, em Berlim.
Alguns anos após ter sido formalmente aceito na Associação Psicanalítica, Reich, sob forte influência da teoria psicossexual freudiana, publicou em 1925 o estudo Der Triebhafte Charakter - Eine psychoanalytische Studie zur Pathologie
des Ich (“O caráter impulsivo – Um estudo psicanalítico sobre a patologia do Eu”).75
Para redigir o livro (o primeiro de sua carreira), o autor se beneficiou amplamente dos atendimentos que realizara por três anos com pacientes que apresentavam acentuados comportamentos antissociais (então denominados de “caráteres impulsivos”), mas que não se enquadravam facilmente nas categorias psicopatológicas bem estabelecidas:
Nesses ‘caráteres impulsivos’, [Reich] identificou atitudes
intensamente ‘regressivas’, indicativas de certas fases primitivas do desenvolvimento mental, fases essas que não eram facilmente observáveis, in loco, em neuróticos típicos. Procedendo a uma análise
comparativa entre as ‘típicas neuroses com inibição dos impulsos’
(histeria e neurose obsessiva) e os ‘caráteres impulsivos’, o autor trabalhou no sentido de ampliar a compreensão da gênese,
desenvolvimento e funcionamento do ego, pois acreditava que ‘a
dinâmica do ego é mais difícil de ser compreendida do que a dinâmica do desenvolvimento sexual’ (REICH, 1925/1975b, p. 237). Em sua
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Valemo-nos aqui de uma tradução norte-americana da obra: “The impulsive character – A psychoanalytic study of ego pathology” (REICH, 1925/1975b).
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opinião, a Psicanálise precisava aprimorar seu conhecimento a respeito das etapas de evolução do ego, como fizera inicialmente em relação aos estágios do desenvolvimento sexual (BEDANI, 2007a, p. 76-77).
A ideia de que elementos estruturais e arraigados da personalidade desempenhariam importante papel no posicionamento geral do sujeito em relação à realidade externa, já se fazia presente em Der Triebhafte Charakter. Nesse escrito, o caráter é definido como a “atitude psíquica particular — própria de um dado indivíduo — em relação ao mundo exterior”, atitude essa que seria determinada pelas experiências de vida e “temperamento” (REICH, 1925/1975b, p. 250, tradução nossa). Dando prosseguimento às suas investigações sobre o papel da dimensão caracterial nas patologias neuróticas, o autor realçou, em conferência proferida em 1927, que o caráter representaria “o modo específico de existência da pessoa”, modo esse que conteria, estruturalmente, “todo o passado do indivíduo” (REICH, 1933/1973a, p. 48, tradução nossa).
Ao formular, no período 1925-1933, o método terapêutico da Análise do Caráter (REICH, 1933/1969), o autor deu especial atenção ao aspecto exterior dos traços caracteriais de seus pacientes, tendo inclusive aprimorado sua capacidade de “reconhecer e observar funções puramente formais” (REICH, 1994a, p. 1, tradução nossa). Interessavam a Reich, no trabalho clínico, os traços visivelmente automatizados e rígidos que limitariam sobremaneira o exercício crítico-intelectual e a vida emocional do paciente e cumpririam, em especial e última instância, a função de defesa à experiência da potência orgástica (o que qualificaria um traço como patológico seria justamente, na visão reichiana, o fato de ele funcionar como bloqueio direto à convulsão orgástica). Pautando-se pelo pressuposto de que a “forma” (substancializada, no caso da neurose, em comportamentos extremamente
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rígidos e inflexíveis) seria “o processo congelado da experiência”, o autor acreditava que, com sua metodologia terapêutica, haveria a possibilidade de, partindo do “aspecto formal das atitudes” (os traços enrijecidos superficiais), alcançar e mobilizar clinicamente os “processos de excitação” que teriam se tornado “congelados” (REICH, 1994b, p. 89, tradução nossa), especialmente o processo orgástico-genital.76
Reich, contudo, não se limitou a abordar os mecanismos internos da estrutura de caráter. A partir de 1927 ele procurou compreender, também, de um ângulo freudo-marxista, a dimensão sociológica da formação caracterial ou o caráter como “instância psíquica depositária da ideologia dominante” (BEDANI; ALBERTINI, 2006). Funcionando como um repositório que a todo o momento atualizaria as configurações defensivas historicamente construídas, o caráter neurótico, na visão reichiana, continuamente imprimiria às experiências pessoais tons moralístico-patriarcais, o que dificultaria sobremaneira o exercício reflexivo e crítico do indivíduo.
Considerando que “cada organização social produz as estruturas de caráter que precisa para sobreviver”, o autor esclareceu, em 1933, que, para a ideologia dominante, não se trataria apenas de inculcar uma doutrina “por meio de atitudes e opiniões”. A ideologia prevalente procuraria ir mais longe, tentando implementar um “processo de longo alcance” que atingisse “cada nova geração de uma dada sociedade”, com o objetivo de “modificar e modelar as estruturas psíquicas (em todas as camadas da população) de acordo com a ordem social” (REICH, 1933/1973a, p. xxii-xxiii, tradução nossa).
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Uma ampla análise dos estudos psicanalíticos de Reich sobre o caráter pode ser encontrada em Oliveira e Silva (2001).
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Em sua autobiografia científica de 1942, o cientista, já distante da Associação Psicanalítica e do movimento político-partidário de esquerda, sintetizou da seguinte forma suas reflexões sobre a “relação direta entre a estrutura social e a estrutura do caráter”:
A sociedade molda o caráter humano. Por sua vez, o caráter humano reproduz, em massa, a ideologia social. É assim que, reproduzindo a
negação da vida inerente à ideologia social, as pessoas geram sua
própria supressão. Esse é o mecanismo básico da assim chamada tradição (REICH, 1942/1989, p. 187, tradução nossa, grifo nosso).
Para designar, na fase orgonômica de sua produção, a “ativa reprodução da história” (REICH, 1999, p, 325, tradução nossa) em âmbito individual, o autor, além de empregar expressões como “estrutura de caráter humana” (REICH, 1949/1973c, p. 6, tradução nossa) e “estrutura humana média” (REICH, 1999, p. 422, tradução nossa), fez uso, também, de outras denominações, tais como “estrutura biofísica” (REICH, 1949/1973c, p. 48, tradução nossa) e “estrutura biopsíquica” (REICH, 1946a, p. vii, tradução nossa).
Partindo do pressuposto de que “cada percepção e sensação” seria tingida pela “estrutura de caráter” (REICH, 1944/1991a, p. 37, tradução nossa), o autor, como comentamos anteriormente, fez diversas referências, nas décadas de 1940 e 1950, a três tipos gerais de organizações ou estruturas biopsíquicas que colorizariam, cada qual a sua maneira, a sensorialidade plasmática: a estrutura mecanicista, a estrutura mística e a estrutura desencouraçada (REICH, 1949/1973c). Cada uma dessas organizações imprimiria uma específica orientação epistêmica às sensações de órgão, e essas orientações se traduziriam, por sua vez, em distintos estilos de raciocínio.
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Examinaremos agora, com mais detalhes, tais organizações, começando com a estrutura mecanicista e a estrutura mística.