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1. Introducción

1.1. FUNCIÓN Y BIOGÉNESIS MITOCONDRIALES

1.1.4. Expresión coordinada de factores nucleares y mitocondriales

Da altura extrema da cordilheira, onde as neves são eternas, a água se desprende, e traça trêmula um risco na pele antiga da pedra: o Amazonas acaba de nascer. A cada instante ele nasce. Descende devagar, para crescer no chão. Varando verdes, faz o seu caminho e se acrescenta. Aguas subterrâneas afloram para abraçar-se com a água que desceu dos Andes. De mais alto ainda, desce a água celeste. Reunidas elas avançam, multiplicadas em infinitos caminhos, banhando a imensa planície cortada pela linha do Equador383.

A natureza amazônica encontra-se registrada com maestria pelos pintores do Grupo do Utinga, principalmente em seus quadros produzidos durante as décadas de 1940 e 1950. A exuberância da paisagem natural, com sua imensa diversidade e riqueza de espécimes vegetais, recortada por igarapés e furos, além dos grandes rios, baías e praias, constituía-se em fonte inesgotável de inspiração e de atração para os artistas. A ilha do Mosqueiro, as paisagens ribeirinhas, as embarcações típicas dos caboclos da região, tantas cores. Também a cidade de Belém, bucólica, em uma época em que ainda se iniciava sua verticalização, com suas ruas e becos estreitos da Cidade Velha e do Porto do Sal, o movimentado comércio da João Alfredo e do Ver-o-Peso, o glamour do Grande Hotel e do Café da Paz e o Reservatório Paes de Carvalho que, embora inoperante, marcava o horizonte da cidade, encontra-se retratada pelos pintores que, com seus materiais de trabalho, incorporavam-se à paisagem da cidade.

A trajetória dos pintores do Grupo do Utinga testemunha, cada qual a sua maneira, as transformações estéticas no período em questão, como a transição do figurativismo à um novo momento nas artes locais, que se deu com a chegada do abstracionismo, com suas polêmicas, dúvidas e debates. Destaca Derenji (2003) que “na maioria das trajetórias, a figura vence a abstração, mas em quase todas elas há idas e vindas que não devem ser interpretadas como avanços e retrocessos. Apenas como parte do caminho de sinuosas metamorfoses da arte moderna em nossa região”384. Ligia Arias (2017) 385, no processo de seleção das obras para a mostra modernista do MABE a qual foi curadora, já aqui citada, privilegiou a produção de

383 MELLO, Thiago de. Amazonas, a pátria da água. Práxis, 1978.

384 DERENJI, Jussara. Entre a figura e a abstração. In: Fundação Rômulo Maiorana. Salão Arte Para: catálogo. Belém, 2003. p. 41.

385 ARIAS, Ligia. Fundação Cultural Museu de Arte de Belém. Imagens de Belém: acervo modernista do MABE. Belém, 2017.

artistas locais apresentando trabalhos realizados, em sua maioria, nas décadas de 1940 e 1950 “...quando o movimento modernista tomou corpo no Pará e fundou-se, por exemplo, o chamado Grupo do Utinga, que reunia jovens pintores paraenses, ávidos por retratar a cidade de Belém com novos olhares”386. Reitera ainda o caráter modernista dos pintores Ruy Meira e Benedicto Mello, dentre outros presentes na exposição: “Esses pintores rompiam com a chamada pintura academicista, que era aquela pintura eminentemente fotográfica, e começavam a praticar a pintura modernista”387. A busca da mesma luz que, na França do século XIX, fez os paisagistas fugirem dos céus cinzas de Paris rumo à Barbizon, à Provence e à Bretanha aqui, com tons tropicais e muito tardiamente, também conduziu nossos pintores à suas “porfias” artísticas, à procura de captar as cores e os contornos da natureza do Pará. Dentre a vasta produção de quadros de Frazão, as paisagens praianas, realizadas quase em sua totalidade na ilha de Mosqueiro e as paisagens ribeirinhas, dentre outros temas regionais que tanto explorou, merecem destaque por acreditarmos bem representarem a grandeza de seu trabalho.

4.4.1 A ilha de Mosqueiro

Assim como as matas do Utinga, as paisagens praianas e bucólicas da ilha do Mosqueiro despertaram a atenção dos pintores paisagistas e foram por eles registradas incontáveis vezes desde que, por estas bandas, as quentes cores amazônicas passaram a ocupar o lugar das frias paisagens europeias e as águas barrentas dos rios substituíram os riachos transparentes. Um número infindável de obras, que tomaram aquele idílico local como tema, foram identificadas em exposições e salões dos mais diferentes artistas e épocas.

Rocha Moreira, em uma bela crônica publicada na revista A Semana, de 15 de dezembro de 1932, festejava saudoso as paisagens mosqueirenses produzidas por Arthur Frazão:

386 ARIAS, Ligia. Fundação Cultural Museu de Arte de Belém. Imagens de Belém: acervo modernista do MABE. Belém, 2017.

Figura 70: Arthur Frazão, Praia do Areião, 1937, óleo s/ tela, 56,5 x 72,5 cm

Acervo: Museu de Arte de Belém

EPISTOLAS PRAIANAS À Arthur Frazão

Escrevo-lhe da pitoresca villa do Mosqueiro, às quatro horas da manhã, quando a vida é silêncio, o céo apresenta a alcatifa prateada das estrellas e o rio-mar resonna, quebrando de leve as ondas sobre a praia.

Creio, amigo, que lhe não falo de paragens desconhecidas, pois que você, annos atraz, inebriado pelos aspectos da Natureza portentosa, aqui, copiou trechos da praia do Areião, que ficavam perpetuados na tela como um esplendido flagrante das praias paraenses.

Há dias, quando o navio defrontava aquella nesga de praia, que você retratou, Solerno Moreira teve uma espécie de extase, contemplando o lençol de alvas areias, que o fez evocar as lindas praias nataes com os seus morros altos de areais movediças.

Você sabe, meu caro, do religioso culto que eu professo por este recanto delicioso.

Dizem que o druida, para officiar ao seu Deus, escolhia a sombra do carvalho secular, considerada a árvore sagrada. Ah meu amigo, que bello seria, de que tocante aspecto se revestiria o acto de um sacerdote pagão que levantasse um altar sobre o alvor da praia, ao cantante rumor das ondas, para rezar missas ao Sol, quando o Astro do dia, tendo em redor o céo de um aul-porcellana, morre, para além da curva do horizonte, onde as águas parecem terminar, amortalhado em sangue!

Eu não sei, meu bom Frazão, a que preciosa tarefa, hoje, você se entrega: em que recanto do atelier dorme a sua palheta. Entretanto, aqui, o sol, o luar, a floresta, a praia, o mar desafiam sua inteligência admirável de artista de paisagens para que esbata na tela todas essas

maravilhosas manifestações da Natureza, que são obra do bom Deus, o divino estatuário.

Ahi, meu caro, na sua movimentada cidade, você será sempre um phantasista; aqui, porém, se aproximará do Artista Omnipotente, porque apanhará em flagrante a sua grande obra.

Mosqueiro, Dez. de 1932 Rocha Moreira388

Em um primeiro momento a crônica de Rocha Moreira nos remete de imediato à tela Praia do Areião (Figura 70), do pintor Frazão, porém não a esta mas, naquele momento, à quadros anteriores feitos pelo artista naquele local se referia nostálgico o escritor. Publicada anos antes da fatura desta obra pode-se, porém, considerá-la atemporal. O apelo lançado ao pintor para que voltasse a registrar, de forma inconfundível em seus quadros, a natureza única da ilha do Mosqueiro, de alguma forma, antecede a profícua e reconhecida produção de trabalhos de Frazão que imprimiu sua poética própria às praias e paisagens ali realizadas.

Dentre toda a produção do artista a tela Praia do Areião é considerada, pelo historiador da arte Aldrin Figueiredo, como a obra-prima do pintor onde, segundo o autor, pode-se encontrar um diálogo, ainda que tardio, entre o trabalho de Frazão, dos anos 1930, com o do pintor francês Paul Cézanne389. A tela de 1937 e pertencente ao acervo do Museu de Arte de Belém compõe, com a série de outras quatro obras de Frazão aqui apresentadas e realizadas pelo artista na ilha de Mosqueiro, de certo modo uma síntese de sua vasta produção tendo àquele local como tema.

Datada a primeira de 1915 (Figura 71), embora não traga em seu título qualquer referência à ilha, para a qual foi tomada a identificação de Pará, conforme grafado na tela pelo artista, tanto nessa como também em todos os seus trabalhos, é possível se associar a imagem a uma das tantas praias da ilha, atestando que por lá já estava o artista apenas quatro anos após seu retorno da Alemanha. Impressionado com a beleza do lugar, que frequentou durante todo o período em que atuou como pintor, é da ilha do Mosqueiro que vem também o seu último trabalho, que deixou ainda inacabado, com os troncos sem folhagens e sem assinatura, ao falecer no ano de 1967, aqui intitulado de Último quadro.

388 A Semana: revista illustrada. Belém, 15 dez. 1932. Mantida grafia original.

389 FIGUEIREDO, Aldrin. Para além de onde as vistas alcançam: história, natureza e paisagem na belle époque amazônica (1870-1920). In: MALCHER, Maria Ataíde et al. (Org.) História, comunicação e biodiversidade na Amazônia. São Paulo: Acquarello, 2012, v.1, p. 34.