No período que compreende o final do século XVIII e início do XIX a indústria naval começa a se desenvolver, as ferrovias se expandem pelos Estados Unidos, Grã Bretanha e Índia, mudando hábitos. As ferrovias e navios transportavam pessoas, mercadorias e informação – cartas e cartões postais, cujas mensagens abertas, na época, 1869, provocaram acalorada discussão sobre a privacidade das correspondências. Duas invenções no final do século XIX estão desligadas dos meios de transporte, são apenas meios de transmissão de informação e de comunicação: o telégrafo elétrico, em 1833, e o telefone, em 1866. Estas tecnologias resultaram no aumento da velocidade de transmissão de informação, pública e privada, local e regional, nacional e imperial (BRIGGS; BURKE, 2004; MARQUES, 2005).
Rádio, cinema e televisão são as novas tecnologias da primeira metade do século XX e com elas surgem os conceitos de indústria cultural e comunicação de massas. Um polo emissor que reproduz a ideologia dominante para a massa. Originariamente, essas mídias nasceram abertas e de uso popular, mas foram apropriadas, e fechadas, pelo capital. Algumas tecnologias ficaram estagnadas, sem qualquer desenvolvimento, por interesse comercial dos que delas se assenhoraram, transformando-as em negócio, fonte de renda e de poder. Um desses casos de boicote ao desenvolvimento de tecnologias é o da descoberta da FM, nos anos 1940, e que só se tornou realidade 30 anos depois, e à custa de disputas nebulosas. (BRIGGS; BURKE, 2004; TEMER; NERI, 2004; WU, 2012).
A partir da segunda metade da década de 1940 e nos anos 1950, os avanços tecnológicos dizem respeito à informação, em quantidade excessiva e necessidade de armazenamento em graus elevados de segurança após a Segunda Guerra Mundial. É o período
em que o tratamento da informação é aplicado para o controle das pesquisas e da literatura como uma resposta aos problemas gerados pela explosão da informação, é também tempo de desenvolvimento de sistemas eletrônicos para organizar o conhecimento (AZEVEDO, 2009; MARQUES; JESUS, 2011).
Nos anos 1960, as tecnologias que mais se desenvolvem estão relacionadas com a comunicação. Os computadores, “criaturas assombrosas” de 300 toneladas que ocupavam uma sala inteira, eram imensas máquinas de calcular (WU, 2012). Restritos a universidades e centros de pesquisa, especialmente ligados à área militar, pesquisadores utilizam esses equipamentos e começam a se interligar na troca de mensagens sobre o andamento das investigações científicas. Muitas ferramentas foram criadas apenas para facilitar o contato entre esses que são considerados os netcidadãos pioneiros, os cruzados tecnológicos. A primeira mensagem digital é enviada do anel D, do Pentágono, em 1963, escrita por Joseph Carl Robnett Licklider, psicólogo e cientista da computação, a partir da Arpa, a Agência de Projetos de Pesquisas Avançadas do Departamento de Defesa dos EUA. A mensagem não tem caráter militar, é um documento endereçado a outros cientistas e afirma que era chegada a hora de construir uma rede de computadores universal ou intergalática. (CASTELLS, 2002; WU, 2012)
A gestação da internet, uma rede mediada por computadores, tem início ainda nos anos 1960. Pesquisador da Rand Corporation, Paul Barán criou um sistema redundante de fluxo de informação, inspirado no cérebro humano, que é capaz de se recuperar de danos redistribuindo funções por caminhos neurais intactos. É neste contexto que surge a divisão da mensagem em pacotes (rede de comutação de pacotes), a serem enviados por diferentes caminhos, e que ainda hoje é a base de quase todas as redes de informação no mundo. Este modelo de Barán foi oferecido à AT&T, a gigante da telefonia dos Estados Unidos, que o recusou, por ver nele uma ameaça ao seu monopólio.
A primeira rede de computadores começou a funcionar em 1969. Denominada Arpanet possuía quatro nós: Universidade da Califórnia em Los Angeles, Stanford Research Institute, Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e Universidade de Utah. Esses centros de pesquisa colaboravam com o Departamento de Defesa dos EUA. Os pesquisadores usavam esta rede para a própria comunicação e em alguns momentos houve confusão sobre o tipo de comunicação: de pesquisa, militar ou pessoal. Esta rede começa a declinar nos anos 1980, quando surge a web, a teia mundial de computadores (CASTELLS, 2002; WU, 2012).
O que possibilita o diálogo entre máquinas que utilizam códigos diferentes é o surgimento, em 1978, dos protocolos TCP-IP, considerados o esperanto das máquinas, fruto de uma pesquisa desenvolvida em parceria com a iniciativa privada. Vincent Gray Cerf e Robert Kahn, jovens cientistas da computação, desenvolveram dois protocolos básicos que são o alicerce de conexão na internet. O TCP (Transmission Control Protocol – Protocolo de Controle de Transmissão) define a relação entre servidores e o IP (Internet Protocol – Protocolo de Internet), a relação entre as redes. A partir desses protocolos, o desenvolvimento da internet se deu por meio de redes científicas, institucionais e pessoais, num ambiente de inovação surgido da troca de informações entre cientistas da computação que se movimentavam entre instituições e que tornaram este desenvolvimento colaborativo de tecnologias praticamente autônomo em relação à estratégia militar ou à conexão com supercomputadores (CASTELLS, 2002; WU, 2012).
É neste ambiente de rede de cientistas que o conceito de tecnologia da informação é cunhado em 1988, em artigo produzido por Carlota Perez, Christopher Freeman e Giovanni Desi que abordam cinco pontos fundamentais nesta construção teórica: informação é matéria- prima; o novo meio tecnológico acaba por moldar os processos de existência individual e coletiva, uma vez que a informação permeia toda a vida humana; as tecnologias impactam na lógica das redes em qualquer sistema ou conjunto de relações; o paradigma baseia-se na flexibilidade quanto ao sistema de redes; há convergência de tecnologias específicas para um sistema integrado. (CASTELLS, 2002)
É comum confundir web com internet. A web, assim como o e-mail, por exemplo, é uma aplicação popular da rede. Há uma rede pirata, paralela, que não pode ser monitorada e que dribla os sistemas de busca e por onde transitam ciberativistas, cibercriminosos e cibercuriosos, que se contrapõe à web, por exemplo, um formato que torna frágil a privacidade e segurança no uso e acervamento de informação (WU, 2012). Os primeiros sites www. (a web) foram criados por grandes centros de pesquisa. A web emaranha muitas redes em muitas camadas:
A ideia, como me contou Tim Berners-Lee, era que “a web deve funcionar com tudo: qualquer hardware, qualquer software, qualquer linguagem, todos os tipos diferentes de mídia, qualquer qualidade de dados, ser acessível a pessoas portadoras de deficiências e valer em qualquer cultura. Não apenas em diferentes linguagens, mas em diferentes culturas”. (WU, 2012, p. 339)