No campo da Comunicação, cabe lançar mão do conhecimento do jornalismo para produção de sentido na rede – pela estrutura narrativa e/ou pelas práticas profissionais de produção coletiva – com o objetivo de amalgamar as relações dos indivíduos na rede. A publicação e reprodução de notícias de interesse da rede, feita de modo colaborativo, aumenta o fluxo e a participação nos ambientes da rede. A lógica de produção jornalística, baseada na frequência, novidade, regularidade e cumprimento de prazos pode orientar o fluxo de informações em redes digitais. O jornalismo tem normas profissionais e rotinas produtivas bem definidas. É uma ocupação que se organiza horizontalmente (embora tenha, ao mesmo tempo, hierarquias bem delineadas para a produção) e que faz (ou deveria fazer) uma separação entre conteúdo editorial e notícia (ADGHIRNI; RUELLAN, 2009). A ocupação se orienta ao serviço público (HALLIN; MANCINI, 2006) e se destina a prover informações de modo regular, sob a forma de notícias a uma audiência (JORGE, 2011).
O jornalista escolhe os dados que serão divulgados e os hierarquiza segundo o próprio conceito de importância (os valores-notícia) e organiza esta importância de forma estruturada (como a pirâmide invertida, símbolo do jornalismo informativo). Os jornalistas têm cultura e
postura próprias na relação com a sociedade. Por esta cultura profissional, os jornalistas devem ser objetivos e imparciais e devem ter o dom do equilíbrio. O espaço em que o jornalista opera é de cuidado com a ética, os direitos humanos e os direitos autorais. Ele é responsável por organizar e dar sentido ao caos informativo (TRAQUINA, 1993; WOLF, 1995; SOUSA, 2000; JORGE, 2011; PEREIRA; ADGHIRNI, 2011). O ethos profissional do jornalista atravessa a fronteira dos historiadores:
…o jornalista é um indivíduo apressado, que relata fatos juntados, que acredita entregar a vida em estado bruto, mas que a simplifica e desfigura midiatizando-a em jato contínuo, que recolhe material de qualquer jeito e inventa fontes sem poder tratá-las. (RIOUX in CHAUVEAU, 1999, p. XX)
Para dar conta da complexidade da experimentação em jornalismo, um referencial teórico importante vem da sociologia do jornalismo. Brin, Charron e Bonville (2007), pesquisadores canadenses, caracterizam quatro períodos na história do jornalismo norte- americano (Canadá e Estados Unidos, na verdade), cada um deles marcado por um modo específico e singular de conceber e de praticar o jornalismo:
jornalismo de transmissão, praticado no século XVII, com difusão de correspondências, anúncios e outros conhecimentos, em que o impressor age como elo entre fontes e leitores;
jornalismo de opinião, do Século XIX, reflexo das transformações das instituições da sociedade, em que o gazeteiro / editor põe o jornal a serviço das lutas políticas;
jornalismo de informação, que surge no final do século XIX e se consolida no século XX, quando as mudanças das condições técnicas e econômicas ampliam as possibilidades de coleta e de difusão da notícia; e
jornalismo de comunicação, a partir dos anos 1950 do século XX, em que a informação circula a uma velocidade e com um consumo tal que os acontecimentos podem ser relatados ao vivo e na sua continuidade, ao passo e à medida de seu desenrolar. Começou com o rádio e ganhou as proporções de hoje pela internet.
O jornalismo de comunicação, defendem os autores, é contemporâneo das técnicas de transmissão eletrônica e, eventualmente, digitais, das mensagens escritas ou audiovisuais. As mídias de informação eletrônicas – como rádio, tevê e internet – asseguram a transmissão da informação quase sem embargo e, eventualmente, sob encomenda. O presente é o tempo do jornalismo de comunicação: presente ao vivo, da informação contínua, do comentário sobre o acontecimento recente ou em curso. De qualquer forma, o passado e o futuro não estão totalmente ausentes pois, no discurso jornalístico podem vir a ser uma fonte de referências para o presente, um arsenal de metáforas e alvo de conotações diversas. (BRIN, CHARRON; BONVILLE, 2007)
O jornalismo é produto cultural, um subconjunto da produção midiática. Os jornalistas se relacionam com as fontes de informação e se dirigem ao público pelas práticas culturais e valores. Segundo Jean de Bonville (in BRIN; CHARRON; BONVILLE, 2007), há um contrato de comunicação entre os agentes: editores, redatores, leitores, fontes de informação e fontes patrocinadoras. As condições de produção definem os termos de um tipo de convenção tácita que liga os atores do sistema de informações: jornalistas, fontes e público. Pode-se dizer que nesta rede o que une as pessoas é o interesse pela notícia.
A este “jornalismo de comunicação”, dos pesquisadores canadenses, Martins (2013)
denomina “pós-jornalismo” tese de trabalho, “
ricos de que o jornalismo ‘atual’ passa por mudanc
es de sobrevivencia econo gica, quanto por uma constante necessidade de
legitimac tica, que ultrapassa em muito a sua inserc gicas”. Para o autor, por esse novo paradigma, “
- blica, transformando-se a func
cie de servic blico” (MARTINS, 2013, p. 12).
Na rede, o jornalista é um autor que hoje, profissionalmente, busca entender o próprio lugar de fala, diante das mudanças estruturais por que passa o Jornalismo (PEREIRA; ADGHIRNI, 2011; MARTINS, 2013). O jornalista se posiciona mais como autor, mas seu trabalho é fonte, quando republicado em um blog, por exemplo. Ao ler os comentários de leitores, ocupa a posição de público. Na rede, o papel do jornalista é predominantemente de serviço e tem que se dispor a um diálogo com os outros participantes da rede. A interatividade é obrigatória no espaço de uma rede social. A interdisciplinaridade é parte deste campo de produção de conhecimento, o jornalismo online, por exemplo, depende de muitas outras disciplinas – de diferentes campos – para poder atingir o objetivo de gerar, junto com o
público, as informações que este mesmo público necessita. Esta produção colaborativa se dá tanto em empresas jornalísticas quanto em qualquer outro tipo de redação – de assessoria de imprensa, de mídia das fontes (SANT’ANNA, 2006). Este diálogo também se dá em redes sociais37.
Nos anos 1990, o surgimento da internet trouxe uma pergunta crucial: o jornalismo vai acabar? O que a primeira década dos anos 2000 indicou foi um processo acelerado de transformação, principalmente por causa do desenvolvimento das tecnologias capazes de produzir equipamentos cada vez mais velozes, menores e com grande capacidade de armazenamento na máquina ou em arquivos virtuais – pessoais ou corporativos. Também têm surgido possibilidades múltiplas de interfaces, em que as redes sociais, neste início de segunda década do século XXI, têm se apresentado como novos formatos a trazer questionamentos sobre o papel do jornalismo e do fazer jornalismo, embora as redações tradicionais e o capital simbólico da imprensa – a credibilidade sobre o que publica – ainda sejam de extrema relevância.
Ao discutir a qualidade no jornalismo, a partir de reflexões sobre a produção de notícias e o papel do jornalista hoje, Thaïs Jorge (2011) ressalta o fato de as notícias ganharem visibilidade, velocidade e possibilidades extras com a internet. Possibilidades que significam uma exposição maior do jornalista no contrato estabelecido com o leitor, que, neste contexto, põe em dúvida o trabalho do jornalismo e almeja participar dele. Este leitor mais participante tem o jornalista e o jornalismo no imaginário alimentado por dezenas de anos por reportagens de televisão, rádio, jornais e revistas – agora também na internet – e retratado no cinema, seriados, novelas, comédias e em paródias pseudojornalísticas como os programas de entretenimento do CQC e do Pânico38 e os telejornais “teen” da MTV39, este último, por sinal, mescla as tecnologias da rede com a televisão e promove um diálogo interessante entre público e apresentadores.
37
Esta questão será abordada no capítulo sobre tecnologias.
38
Transmitidos pela Band, emissora paulista de TV de sinal aberto.
39
Emissora paulista de TV de sinal aberto, franquia da MTV internacional, com foco em música e informação para jovens adolescentes.
3.4.1. Forças que fazem a notícia
A produção da notícia pode ser resumida em três etapas: coleta, seleção e apresentação. Cada uma delas tem rotinas articuladas e processos próprios de funcionamento. Para a Teoria do Newsmaking, de base funcionalista, a produção nos órgãos de informação tem a obrigação de tornar possível o reconhecimento de fato desconhecido como acontecimento notável, de elaborar formas de relatar acontecimentos sem dar tratamento particular a cada fato ocorrido e de organizar a informação no tempo e no espaço para que as notícias sejam trabalhadas de forma planificada (WOLF, 1995).
Em revisão da literatura sobre newsmaking, Souza (2000) propõe uma teoria unificada e defende que as notícias são resultado da interação de sete forças:
1. Pessoal – notícias resultam parcialmente das pessoas e de suas interações, da capacidade dos atores – autores, fontes e leitores – que nela e sobre ela intervêm;
2. Social – as notícias são fruto das dinâmicas e dos constrangimentos do sistema social (extra-organizacionais), particularmente do meio organizacional em que foram construídas e fabricadas. Dependem de fatores sócio-organizacionais e de tempo;
3. Ideológica – as notícias são originadas por conjuntos de ideias que moldam processos sociais, proporcionam referentes comuns e dão coesão aos grupos, normalmente em função de interesses, mesmo quando não são conscientes e assumidos;
4. Cultural – as notícias são produto do sistema cultural em que são produzidas, o que condiciona perspectivas e significação do mundo;
5. Meio físico – elas dependem do meio físico em que são fabricadas – o tratamento de texto é diferente no meio impresso e no eletrônico, mesmo em diferentes dispositivos móveis, por exemplo;
6. Dispositivos tecnológicos – dependem dos dispositivos tecnológicos usados no seu processo de fabrico. O meio eletrônico trouxe o fetiche da velocidade, o telégrafo provocou o surgimento do lide – denominação técnica do primeiro parágrafo de uma notícia;
No processo de fabricação das notícias, as rotinas são um conjunto de procedimentos que garantem ao jornalista, sob a pressão do tempo, produzir um fluxo constante e seguro de notícias e uma rápida transformação do acontecimento em notícias (SOUSA, 2000). Essas rotinas permitem, portanto, o controle sobre o trabalho. A produção da notícia também depende de negociação, como forma de resolver conflitos, buscando conciliar o que é bom para cada um. Num processo de formação permanente de competências, este fazer, que tem por objetivo assegurar a produção formal de informação com credibilidade, pode ser apresentado ao participantes da rede.