Homens que tiveram uma presença masculina com mais permanência em casa, fizeram desse um exemplo para a construção de sua própria masculinidade. No entanto, longe de ser um processo linear, as expressões de masculinidade têm várias fontes e não necessariamente da figura masculina. Na fala de um dos entrevistados, seu exemplo de masculinidade tinha sido sua madrinha, e que essa se parecia com Iemanjá. Iemanjá, por excelência, reúne todos os aspectos femininos. Outro informante diz que sua referência de masculinidade era a mãe. O aspecto de masculinidade a que se referem diz respeito à postura de enfrentamento da vida, na qual essas mulheres desde sempre foram protagonistas.
Meu pai foi meu grande exemplo. Era homem de poucas palavras ele falava mais com minha mãe. Mas sua postura já era uma forma de dizer. De autoridade e a gente respeitava muito. Aprendi que ser homem não era ser o tal, o valentão, mas era ser responsável e começava na própria família. sempre ensinei meus filhos assim também não adianta ser homem na rua e irresponsável em casa (João). Minha mãe foi fundamental na minha vida. desde que assumi ou passei a compreender minha condição sexual ela esteve me apoiando. No começo, lá pelos doze treze anos já estava muito claro pra mim o que eu gostava e queria, ela meio ficava receosa né, os problemas na escola, as brigas por conta dos xingamentos e tudo, também ela não falava abertamente mas sempre tinha uma coisa de proteção sem repressão. Inclusive ela rompeu com a minha avó e tios por causa da disso, eles eram os primeiros a vir com piadas, gracinhas, aquelas coisa que estamos cansados de saber (Evandro).
Era com o camaradas que a gente vai aprendendo a ser homem. mas a ser homem de mesmo, de responsa foi com minha mãe. Porque homem pra mim é assumir suas coisa, não interessa o que é tem que assumir. Isso aprendi com ela , ela foi um modelo pra mim (Marcelo).
182 A sexualidade é uma das questões centrais no debate sobre masculinidade, e aparece em todas as narrativas. O elemento diferenciador entre elas são os tempos e gerações de quem a vivencia.
Naquela época não se falava essas coisas com os pais não. Mas eu tinha um primo, assim um pouco mais velho que eu, já falecido… que deus o tenha…descobriu lá uma casa de moças, sabe né, moça da vida. Aí a gente falava assim que ia dar uma volta na cidade, que nada, a gente ia lá. Tinha moça muito bonita lá e era tudo animada. Era assim que a gente aprendia as coisa da vida (João).
Meu pai explicou tudo, as informações que ele não tinha ele buscava com minha mãe que era enfermeira mas ele fazia questão de explicar tudo. Piorou quando meuimão que é mais velho começou a namorar, ele se preocupava dizendo que a gente tinha que se preocupar com os estudos e que deveria respeitar a filha dos outros (Felipe).
Os baratos sobre sexo a gente vai aprendendo meio que sozinho e com os moleques na rua, revistinha, filme. Depois, na prática, vai desconbrindo. Nunca falei nada disso com minha, mãe acho que também não tinha coragem. Mas ela ficava preocupada quando chegava e encontrava as meninas vizinhas, lá em casa. Isso é diferente para os homens. Já com as meninas, é outra coisa. Minha mãe conversa, explica tudo e eu sempre tô de olho, né. Pra não se meterem com qualquer vagabundo aí, que só quer aproveitar (Marcelo).
Ah, nunca fui o que se chama de pegador, sempre tranquilo. Na verdade, as mulheres é que sempre vieram em cima. Pra você ver, minha esposa é que me propôs namoro, ela é que teve atitude. Gosto de mulher de atitud. Ah, e não vejo isso um problema (Felipe).
Aí era só entre amigos, mesmo. Meu pai não era de dar apoio. Já que ele estava com outra família, não era de dar apoio. Então eu ia lá nos cabarés da vida, em Pernambuco. Eu ia, de vez em quando tem que ir. Dezesseis anos, tem que ir, a
183 gente vai pelos amigos. No próprio serviço, onde eu trabalhava, “Sexta-feira, hoje vamos na zona”. Antes, se chamava zona. Meio escondido, pois quem era de menor não podia. Tinha o juizado de menores, se pegasse, já viu, era Febem na certa (Vanildo).
A sexualidade heterossexual, que historicamente ganhou contorno de normatividade, na fala de homens que vivenciam outras orientações do desejo, é qualificada como resultado da reprodução feita no espaços familiares. Se não é somente a família a fazer esse papel, ela é uma fonte privilegiada de construção e reprodução da heterossexualidade. Mas as contradições que ela apresenta vão além. Como identifica Evandro:
Entendo que a família é uma estrutura que reproduz muita coisa que a gente quer preservar, mas também coisas que precisa mudar. A própria ideia de papai mamãe e filhino ser o modelo de família, pra mim, não serve. Mesmo porque esse tipo de família eu nunca vou ter. Pode até ser um trio de papai, papai e filhinho (Evandro) Constumo dizer que nós, gays, somos sempre jogados a ter uma uma sexualidade marginal. Pior quando não se tem condições financeiras. Nossa, cada história… Sabe, desde ter que transar na rua, na linha de trem, nos becos escuros, e por aí vai. Primeiro, porque tem que fugir aos olhos dos outros. Depois, que lugar existe para a realização dessa sexualidade? Os lugares legítimos são heterossexuais, porque a única sexualidade permitida é a heterossexual (Evandro).
As referências flutuam diante das experiências. Como elemento da construção das identidades, sua permanência está vinculada à significação e mobilidade que os sujeitos determinam.
Olha, acho que nunca tive essa história de um referencial masculino. Mesmo porque, como eu disse, fui me descobrindo muito cedo. Eu ia fazer trabalho de escola na casa das minhas amigas e paquerar os irmãos delas [risos]. Na verdade, não eram minha referência, eram meus desejos [risos]. É claro que sempre existe o conflito. Tenho irmãos homens mais velhos, e os homens são sempre mais intolerantes, eu acho. Ou talvez as mulheres são mais cínicas. Agora, o homem
184 tem que mostrar que é diferente e manter-se afastado, pra também não ser um das bibas no olhar do outro. É assim que eu entendo. Ainda mais quando se é negro (Evandro).
Masculinidade negra e homossexualidade, quando se aproximam, ameaçam elementos simbólicos e reais do “macho negro”. Coloca em questão o fetiche no qual se assenta e o deslocamento do “macho negro” em relação ao homem negro. O primeiro permeado de atributos cristalizados no imaginário social e o segundo desprovido da pertença do modelo ideal de homem socialmente reconhecido.
Na ideia do macho negro não se permite a ideia de uma outra sexualidade. No geral, mas no universo negro é pior. Na escola por exemplo muitas vezes as pioresagressões vinham dos gorotos negros. Muitas vezes os outros meninos desafiavam eles para praticar a agressão. Como se eles tivessem que repugnar o aquilo que os prejudicavam né, então vinham e agrediam com xingamentos e sempre com aquela ideia “vai ser homem negão”. É interessante isso. Acho entre os homens os negros adulto é quase a mesma coisa (Evandro).
Elemento que também se expressa nos espaços de construção e reconhecimento de uma identidade negra.
Quer mais machista que o movimento negro? Machista e homofóbico né. Na minha história de militância foram muitas as tentativas de colocar ao lado da luta antiracista a questão da homofobia, impossível né. Nos últimos anos é que começa mais como uma agência externa e uma cobrança de uma postura politicamente correta do que envolvimento na causa. Pelo menos é assim e que vejo. (Evandro)