1. Aliás, no limite, numa visão histórica mais distendida, admite-se que não seria caminho inapropriado traçar o atual perfil misto de pescadores e agricultores de subsistência entre os seus descendentes remontando-se, em virtude dos constrangimentos indicados, à dedicação de muitos dos ilhéus no Rio Grande do Sul à vida mais livre e lucrativa do pastoreio e, no litoral de Santa Catarina, à pesca (TAVARES, 1972:28).
2. Um detalhamento oportuno dessa questão encontra-se realizado no capítulo 9 de nosso trabalho. Sua projeção nos textos valverdianos expressou-se, sobretudo, a partir da década de 1950, fato que justifica não incorrermos num detalhamento dessa questão na altura de nosso texto ora percorrida, reservando-o para mais tarde. Cabe aqui tão somente, portanto, não deixar passar despercebida essa dimensão.
3. Análise interessante sobre esse assunto encontra-se no capítulo 1 do trabalho de BANDEIRA (1994). Ademais, em recente obra dedicada ao assunto o diplomata brasileiro Sérgio Corrêa da Costa tratou o assunto. Em certo trecho, tratando sobre esses temores, afirma: “A
América Latina não se desenvolverá sem a nossa vigorosa liderança, declarou o Führer, que se deteve sobre esse projeto em 1933, portanto nos primeiros meses como chanceler. Sua atenção se concentrou principalmente no Brasil, que considerava maduro para a revolução e que ele se dispunha a transformar, em poucas décadas, ou até mesmo em alguns anos, ‘de um Estado mestiço e corrupto em um domínio alemão’” COSTA
(2004:33).
4. Esses aspectos são tratados em profundidade por LUIZETTO (1975) nas páginas 118-121 de seu estudo.
5. “Estas observações nos levam a concluir que, vincular a política anti-imigratória à política
nacionalista, sem explicar a natureza da segunda, não leva à compreensão das manifestações de preconceito e discriminação racial e étnica: o nacionalismo é uma ideologia e não uma categoria analítica. Circunstâncias particulares dão origem a esta política, que oculta a existência de conflitos que precisam ser resolvidos. O nacionalismo pode expressar tanto um conflito entre grupos de diferentes nações, não por serem compostos por indivíduos de nacionalidade diferente, mas por estarem se enfrentando em alguma forma de competição, como pode expressar, também, um conflito entre grupos que vivem numa mesma nação. Nesta última situação, uma classe social pretende a hegemonia, e através de uma política nacionalista cria as condições que favoreçam o exercício de um maior controle sobre o conjunto da sociedade, fazendo com que se acreditem ser da nação, como um todo, os seus interesses particulares. Em qualquer caso, porém, e sob qualquer condição específica, o nacionalismo configura-se como uma justificativa ideológica, e, portanto, como uma forma de luta. Assim sendo, parece inócuo querer compreender a política de restrições à imigração pelo nacionalismo, sem que, antes, se procure compreendê-lo também” (LUIZETTO, 1975:117-118).
6. SEYFERTH (1994) chama a atenção para o fato de que, no Brasil, a doutrina da superioridade ariana surgiu nas colônias alemãs por intermédio da propaganda sistemática realizada por membros da Liga Pangermânica a partir de 1890, reforçando os aspectos racistas da ideologia étnica. Sob a designação de Alldeutsche Verband, a associação pangermanista pretendia a união de todos os alemães do mundo conforme sua própria denominação. Ideologicamente, de um lado caracterizou-se por afirmar a superioridade da
raça germânica defendendo a tese do espaço vital (Lebensraum) e do expansionismo imperialista e, de outro, inspirava-se em doutrinas afinadas com os dogmas do racismo moderno, entre outras naquela de Chamberlain, Gobineau e no darwinismo social. Nas teias da lógica pangermânica, os teuto-brasileiros eram alemães no estrangeiro (Auslanddeutsche) cuja mobilização era necessária em virtude dos interesses do Império Alemão. Segundo a pesquisadora, malgrado a contradição à assimilação e a defesa etnocêntrica a respeito da preservação da germanidade tenham sido afirmadas na maioria das publicações teuto- brasileiras, a categoria Auslanddeutsche parece não ter sido aceita como étnica em nenhum momento, tendo prevalecido entre os colonos a identidade Deutschbrasilianer. Não obstante, a radicalidade das investidas contra a assimilação pôde ser constatada em alguns jornais, como foi o caso do Urwaldsbote, de Blumenau, nitidamente influenciado pelo pangermanismo. Salvo alguns casos, nele como em outros os brasileiros foram considerados enquanto representantes de raças não civilizadas ou inferiores. Em decorrência disso, o discurso racista defendeu a pureza racial germânica e não poupou palavras sobre os riscos da miscigenação, associando-a com a idéia de decadência. Embora esse discurso tenha conquistado a simpatia confessa de parte da elite teuto-brasileira, num olhar retrospectivo salienta a autora que a vinculação política com a Alemanha jamais foi cogitada. Mas, decerto compreensível, diferente foi a percepção que os contemporâneos dessa situação nutriram. Esse contexto, de fato, acirrou as especulações no tocante as intenções separatistas dos colonos alemães concentrados no sul do Brasil. De uma parte, na seara das relações internacionais, a retórica expansionista da Liga Pangermânica semeou solo fértil para denúncias norte-americanas, francesas e inglesas sobre os interesses da Alemanha na América do Sul. De outra monta, excitou as suspeitas de brasileiros já preocupados com o que então era conhecido como “perigo alemão”, ou seja, o suposto risco do Rio Grande do Sul e Santa Catarina se transformarem numa colônia da Alemanha ou mesmo num Estado independente com apoio alemão. Para eles, a secessão do sul era plausível diante das dificuldades acumuladas para assimilar, abrasileirar e caldear uma população enquistada e de mentalidade diversa que se recusava a falar o idioma nacional. Assim, nas duas primeiras décadas do século XX, a sociedade brasileira conviveu com as inflamadas discussões a respeito do “perigo alemão”. O Congresso Nacional não permaneceu ileso diante desse temor e, sobretudo durante a Primeira Guerra Mundial, quando a imprensa teuto-brasileira se posicionou a favor da Alemanha, acolheu discussões desse teor. Não faltaram propostas visando restringir a imigração alemã como forma de evitar a formação de um Estado dentro do Estado. Nesse contexto, mesmo antes de serem tomadas medidas efetivas pelo Estado Novo que traduziram suas preocupações com a nacionalização do ensino, brasileiros notáveis tal como Sílvio Romero, Alberto Torres, Manoel Bonfim e Afrânio Peixoto denunciavam a colonização alemã como instrumento do imperialismo germânico e ameaça à integridade nacional e, sem torneios, apontaram a necessidade da assimilação forçada (BOMENY, 1999:154).
7. SEYFERTH (1999) tratou com maestria o assunto dos estudos e opiniões gerais sobre colonização considerando, entre outros, os casos de Arthur Hehl Neiva, Gavião Gonzaga, Oliveira Vianna, Lourival Câmara, Emílio Willems e Ribeiro Couto. BIELCHOVSKY (2000:278-279), por sua vez, salientou o fato de que nesse contexto a discussão sobre o problema da imigração no Brasil era alimentada pela crença de que havia pleno emprego na economia, ressaltando ainda que ela merecia tratamento afeito à inclinação ideológica da época onde começava a ser a de assimilação da industrialização como pré-requisito para a transição do Brasil de país agrário à nação industrial, onde sobressaía a freqüente referência à ligação entre industrialização e formação de um “mercado interno”, em contraste com a dependência dos mercados internacionais.
8. Apenas para complementar, vale lembrar que não destoando do pangermanismo, o nazismo também influenciou parte da imprensa e das instituições comunitárias tais como a “escola alemã”. De outra parte, cabe complementar a afirmação feita sobre a “regermanização” recorrendo-se à consideração de SEYFERTH (1994) sobre a retórica da “regermanização”.
Ao seu respeito, comenta a pesquisadora: “A retórica da ‘regermanização’ é um indicador
preciso da especificidade étnica teuto-brasileira: embora se considerassem legítimos representantes de uma nação alemã etnicamente concebida, os teuto-brasileiros foram vistos pelos nazistas como excessivamente brasileiros.”
9. O assunto é tratado em pormenores por TOTA (2000), especialmente no capítulo 1 de sua obra intitulado “Uma verdadeira ‘fábrica de ideologias’: o Office of the Coordinator of
Inter-American Affairs”. As menções do autor a respeito da saliência que os imigrantes
alemães no Sul do Brasil adquiriram no período diante da escalada do nazismo são tecidas nas páginas 86 a 89. O estudioso ainda ressalta as cogitações do governo dos EUA sobre uma possível invasão física do Sul do Brasil no mesmo período para deter o “perigo alemão”, após a apresentação de um suposto mapa nazista representando a divisão dos territórios do subcontinente sul-americano. COSTA (2004:292), por sua vez, esclarece que os ingleses temiam que uma incursão nazista nos países da América do Sul pudesse privar os Aliados de inúmeros materiais estratégicos. O eventual mergulho do subcontinente numa guerra civil poderia criar para os norte-americanos um desafio militar de tal magnitude que acabaria por impedi-los de participar do conflito na Europa. Para a Alemanha, pensavam os ingleses, seria opção bem menos arriscada que a do ataque à União Soviética. Foi nesse contexto que veio à lume um mapa apreendido no Rio de Janeiro pelo British Security
Coordination (BSC), mostrando a redistribuição territorial da América do Sul a ser imposta
pela Alemanha depois da vitória. O subcontinente seria reduzido a apenas quatro países e uma colônia, todos sob proteção alemã. Para o caso argentino, além de reconstituir as fronteiras do vice-reinado do Prata, as intenções nazistas figurantes no mapa deceparia uma faixa do Chile e asseguraria a Buenos Aires a almejada saída para o Pacífico. Quando mostrado ao Presidente Roosevelt, o referido mapa foi por ele citado em discurso irradiado em 27 de outubro de 1941 (COSTA, 2004:289 e 291). Daí por diante, no Brasil e justamente no período formativo mais significativo de Orlando Valverde no aparato estatal, o mapa nazista adquiriu extrema notoriedade nos debates da época. Após uma breve reconstituição sobre a conjuntura latino-americana no fim da década de 1930, sem negligenciar a mobilização emocional promovida pelo Terceiro Reich nas colônias alemãs do Sul do Brasil e ressaltando o quadro político autoritário e o papel dos militares em países como Brasil, Argentina e Chile, COSTA (2004:292) ainda reforça parecer de que “o perigo de uma
invasão, coordenada com revoluções locais estimuladas pelo Reich, pode hoje nos parecer fantasia, mas não poderia ser ignorada naquela conjuntura.” Maiores detalhes sobre as
relações do Terceiro Reich com a América Latina podem ser consultadas em COSTA (2004:219 a 248).
10. De certo modo, essa visão sobre o problema não é somente compartilhado como também alargado por COSTA (2004), quando enfatiza em recente livro as conexões entre o III Reich e a Argentina. Maiores detalhes a respeito das relações almejadas entre o Terceiro Reich e o Brasil podem ser consultados em COSTA (2004:249 e 261).