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2.6 Evaluering og oppfølging

De volta ao Brasil, e casado com Gita de Barros, sua esposa até o fim da vida, Barros decide fazer seu primeiro filme, uma adaptação do romance A viuvinha, de José de Alencar, protagonizado por ele mesmo e por sua esposa. Porém, o filme não chega a ser exibido publicamente, pois a película foi manchada de corante no laboratório, estragando o filme.

Após essa primeira experiência de característica mais amadora, Luiz de Barros realiza o filme Perdida (1916), agora bem melhor amparado. Para fazer o filme, monta um laboratório em sua casa e um “estúdio” no quintal. É impressionante ver como o realizador consegue articular tão bem a produção do seu segundo filme, contratando, entre outros: Paulino Botelho, experiente cinegrafista; Oscar Lopes, autor teatral, para elaborar o argumento do filme; e Leopoldo Fróes, conhecido ator de teatro. Perdida estreia em 16 outubro de 1916, no cinema Pathé, localizado na Avenida Central, no Rio de Janeiro. Além de dirigir, Luiz de Barros fez os cenários, produziu e montou o filme (BARROS, 1978, p. 247), já mostrando uma característica que seria recorrente em sua carreira: desempenhar várias funções na realização de seus filmes.

Uma nota no Correio da Manhã (16 nov 1916, p. 5) aponta que Perdida foi feito pela “fábrica nacional” Guanabara-Film, nome que aparecerá como produtora dos filmes de Luiz de Barros até, pelo menos, 1924. Em um período onde poucas pessoas se aventuraram a realizar filmes de ficção de longa metragem no país, a produção da Guanabara-Film, com mais de dez filmes nesse período, surpreende. Geralmente conseguia exibição em salas da Capital Federal, o que também não era uma tarefa fácil, em uma época onde não havia nenhum tipo de lei de proteção ao filme nacional. Esses filmes, aliados à produção de cinejornais e material encomendado, mantiveram as atividades de Luiz de Barros com a Guanabara-Film por quase dez anos. Nesse período realizou os filmes Zero treze (1918),

Ubirajara (1919), Coração de gaúcho (1920), Hei de vencer (1924), entre outros; produções

que frequentemente recebiam elogios dos críticos, devido aos esforços em sua realização. No elenco dos filmes era comum a participação de artistas de teatro. Em Ubirajara, por exemplo, adaptação do romance de José de Alencar, atuavam Álvaro Fonseca, João de

Deus, Antônia Denegri e Otília Amorim, “artistas queridos do público” (Correio da Manhã, 30 jun 1919, p. 12) e figuras recorrentes nas revistas teatrais do Rio de Janeiro na época.

Para o carnaval de 1919, provavelmente motivado pelo sucesso de O carnaval cantado (1918), exibido no Odeon no ano anterior, a Guanabara-Film lançou no cinema Avenida, em 10 de março, Carnaval, um filme natural com os melhores momentos do carnaval carioca daquele ano, com “acompanhamento de coros” com “os cantores do querido Ameno Resedá” (Correio da Manhã, 10 mar 1919, p. 10), famoso rancho carnavalesco carioca.

Em 1923 Luiz de Barros realiza, também com produção da Guanabara-Film, a comédia Augusto Annibal quer casar, filme que estabelece intensas relações com o teatro popular, entre outras referências. O próprio Augusto Annibal, protagonista do filme, era um conhecido artista dos palcos que trabalhou por muitos anos no teatro de revista. No ano anterior havia tido um papel de destaque na revista Aguenta, Felipe, de Carlos Bittencourt e Cardoso de Menezes. O fato do nome do artista constar no próprio título do filme dá uma ideia da popularidade de Annibal naquele momento.

O enredo do filme trata da busca desesperada do protagonista em encontrar uma esposa, que o leva a perseguir uma garota (Yara Jordão) e se envolver em um acidente de automóvel. Um grupo de mulheres decide, então, dar uma lição em Annibal, forjando uma falsa cerimônia de casamento entre ele e Darwin. Após o “casamento” Annibal descobre que Darwin é um homem vestido de mulher e foge, pegando carona em um hidroavião em movimento. Dentro deste enredo cômico são inseridos diversos elementos interessantes. Darwin, por exemplo, era um ator que imitava mulheres e era “atração frequente em cineteatros cariocas apresentando-se em espetáculos de palco intercalados com sessões de filmes” (ARAÚJO, 2015, p. 227-228).

Entretanto, uma das principais atrações do filme é a presença das girls da Ba-ta-clan, companhia teatral que, como comentamos no primeiro capítulo, causou grande sensação no Rio de Janeiro em 1922. Através das descrições do filme em A Scena Muda, quando Annibal sofre um acidente de carro em uma praia, o personagem “vê suas perseguidas, ora como banhistas, ora como ninfas, que bailam em torno dele” (A Scena Muda, 13 set 1923, p. 7-8). O que nos leva a imaginar como o filme explorou a beleza e a arte das dançarinas de revista, que “remetiam tanto às girls do teatro de revista quanto às bathing beauties das comédias produzidas por Mack Sennett” (ARAÚJO, 2015, p. 229).

Em 1923 a Ba-ta-clan voltara à Capital Federal para uma nova temporada. No dia 7 de agosto, um mês antes da estreia de Augusto Annibal quer casar, o cinema Parisiense exibia um número do Guanabara-Jornal, acompanhando a viagem da Companhia de Santos ao Rio

de Janeiro a bordo do navio Mendoza. O cinejornal dava destaque “às pernas espirituais de Mistinguett” (Correio da Manhã, 7 ago 1923, p. 12), principal dançarina da Companhia. Tomando como base a notícia, no mesmo dia, de que Generoso Ponce Filho, proprietário do cinema Parisiense, se tornara sócio de Luiz de Barros na Guanabara-Film e do lançamento de

Augusto Annibal quer casar no mesmo cinema, pouco tempo depois (10 de setembro de

1923), Luciana Corrêa de Araújo levanta uma hipótese para a produção do filme:

Juntos, produtora e exibidor, viabilizam em pouco tempo a realização de um longa-metragem que, na cola do curta-metragem realizado com o Ba-ta-clan e provavelmente a partir dos contatos feitos na viagem de navio, tira proveito do grande interesse em torno das belas girls da companhia, que desde o ano anterior havia se transformado em grande sensação dos palcos brasileiros (ARAÚJO, 2015, p. 230).

Ainda em 1923, Luiz de Barros realiza mais um filme de longa metragem pela Guanabara-Film, uma adaptação da burleta de Artur Azevedo A Capital Federal (1897)20. A peça, de grande sucesso, foi reencenada por várias companhias em diversos teatros. Uma das inúmeras remontagens do texto para os palcos foi realizada pela Companhia Nacional de Operetas e Melodramas do Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro, pertencente à Empresa Paschoal Segreto. Com direção artística de Eduardo Vieira e regência de Paulino Sacramento. A peça estreou no dia 17 de dezembro de 1920 e ficou em cartaz até o dia 17 de janeiro de 1921. Os anúncios da peça publicados no Jornal do Brasil frequentemente indicavam o número de espectadores que havia assistido até então, o que dá uma ideia do sucesso da representação21. Luiz de Barros, em suas memórias, cita a montagem realizada pela Companhia do Teatro São Pedro para A Capital Federal e completa: “Achei que a mesma daria um bom filme” (BARROS, 1978, p. 62). O fato de citar a montagem de 1921 para discorrer sobre a realização do filme indica a influência que o sucesso recente nos palcos teve para sua decisão de adaptar a obra22.

20 Assim como Augusto Annibal quer casar, A Capital Federal também é um filme desaparecido. Por esse

motivo, para falar sobre os filmes tomamos como base, sobretudo, notícias da época.

21 Em 4 de janeiro de 1921 a publicidade afirma que 85019 pessoas já haviam assistido à peça (Jornal do Brasil,

4 jan 1921, p. 14).

22 Abordamos a relação entre este filme e o teatro no artigo: “A Capital Federal e Samba em Berlim: o teatro de

revista em filmes de Luiz de Barros” (2014). Disponível em:

<http://www.asaeca.org/imagofagia/index.php?option=com_content&view=article&id=387%3Aa-capital- federal-e-samba-em-berlim-o-teatro-de-revista-em-filmes-de-luiz-de-barros&catid=54%3Anumero- 9&Itemid=166>.

A Capital Federal estreia no cineteatro Rialto, no Rio de Janeiro, em 7 de novembro

de 1923, permanecendo em cartaz por cinco dias. Na publicidade do filme nos jornais é visível o destaque para o fato de ser uma adaptação da burleta de Artur Azevedo:

Você já viu a “Capital Federal”?

No teatro sim, porque não há quem desconheça a peça que tanto sucesso tem alcançado aqui no Rio. No cinema, entretanto, ainda não houve oportunidade para isso. Pois agora é chegado o momento que ninguém deve perder. A Capital Federal, adaptação magnífica da “Guanabara-Film”, será exibida no Rialto, e é um trabalho que honra o cinema brasileiro (A Noite, 6 nov 1923, p. 2).

Ainda de acordo com Luiz de Barros, o filme na tela teria como função completar “em ação aquilo que no original era objeto de simples referência” (BARROS, 1978, p. 62). A partir do resumo publicado pela revista A Scena Muda (2 ago 1923, p. 10-11), meses antes do lançamento, e de uma crítica na revista Para Todos... (17 nov 1923)23, podemos notar que Luiz de Barros cria cenas e cenários que não aparecem no texto da peça, mas que são citados pelos personagens em algum momento, complementando e enriquecendo a narrativa.

O filme foi realizado no início da década de 1920, provavelmente sem nenhum tipo de som sincronizado. Os anúncios não revelam também a existência de acompanhamento musical próprio para o filme, embora a peça, nos palcos, seja repleta de músicas que complementam o texto teatral. O filme, portanto, parece se pautar na ação dos personagens, nos ambientes e na história, amplamente conhecida e apreciada pelo público, como forma de atrair interesse ao espetáculo.

Na estreia de A Capital Federal no Rialto, como era comum na época, havia números de palco complementando o programa:

Juntamente com esse filme nacional, exibe o Rialto, no palco, mais uma fantasia cuja principal protagonista é a linda rainha de Copacabana - Yara Jordão24. Intitula-se a fantasia “No reino de Neptuno” [sic], e nela se contém - arte, lindas raparigas, cenários luxuosos e bom gosto apurado (Correio da

Manhã, 6 nov 1923, p. 6).

23 VIANY, Alex. Transcrição manuscrita da crítica do filme A Capital Federal publicada em Para Todos... em

17/11/1923. Disponível em:

<http://www.alexviany.com.br/busca/mostra_registro.php?varteste=8906&pagina=2&indice_serie=&indice=&ti po=&indice_escolhido1=titulo&termo_escolhido1=&operador_escolhido1=AND&indice_escolhido2=autor&ter mo_escolhido2=&operador_escolhido2=AND&indice_escolhido3=assunto&termo_escolhido3=Luiz%20de%20 Barros&operador_escolhido3=AND&ordem=titulo> (pag. 14-16).

24 Yara Jordão já havia atuado em Augusto Annibal quer casar, como comentamos, onde era um dos destaques, e

Além do bailado “O reinado de Neptuno”, que nos lembra os números musicais das revistas pela sua descrição, ainda se apresentava no palco do Rialto a “cantora excêntrica italiana” Dina Aprile dentro do mesmo programa (Jornal do Brasil, 7 nov 1923, p. 42). Embora esse tipo de complemento não fosse exclusivo do filme em questão, é interessante notar como a dança e a música se relacionavam com o filme mesmo não havendo uma ligação temática entre os tipos de espetáculo, e como esse tipo de complemento, de certa forma, será encontrado dentro do próprio filme nos musicais posteriores do cinema sonoro.

A decisão de Luiz de Barros de adaptar A Capital Federal é oportuna para um tipo de cinema que busca o sucesso comercial. Na ausência de artistas renomados, a publicidade do filme se foca na relação com o teatro e com o texto de Artur Azevedo e utiliza estratégias de divulgação semelhantes às das peças, enfatizando a adaptação ou ressaltando elementos como, por exemplo, os figurinos e cenários do filme.