Desde a antiguidade grega, a memória (Mnèmosunè) ocupa um lugar central no pensamento filosófico. Ainda entre os gregos antigos, era possível distinguir quatro correntes no tratamento da memória como objeto de estudo e discussão filosófica, assim configuradas (CANDAU, 1996, p. 19-24): i) a primeira, representada essencialmente por Homero e Hesíodo, além do poeta Alcman, expõe a atividade do poeta voltada quase exclusivamente para o passado, provocando um esquecimento do presente, e cujos exercícios de recitação de listas longas de nomes visavam fixar e transmitir um repertório de conhecimentos que
permitia ao grupo colocar em ordem o mundo dos heróis e dos deuses além de decifrar seu passado; ii) para a segunda, marcada por documentos de diferentes origens (trabalhados por Pindaro, Ésquilo, a escola pitagórica etc.), a memória é a potência da qual dependem as almas após a morte, potência ligada aos avatares das encarnações sucessivas dos indivíduos – ela não apresenta mais, portanto, uma função cosmológica, mas sim escatológica, trata-se de uma evasão do tempo; iii) com Platão, a memória torna-se a faculdade própria do conhecer, o esforço de rememoração se confundindo com a busca do verdadeiro, é um instrumento de libertação em relação ao tempo − à diferença das duas correntes anteriores, a memória aparece como um novo meio de alcançar a perfeição da existência real que está fora do tempo humano; iv) na quarta corrente, com Aristóteles, a memória se deixa levar pelo tempo e, da mesma forma, força o homem a elaborar representações do tempo que passa, a memória, então, permite ao mesmo tempo a lembrança e a percepção temporal − essa corrente anuncia concepções consideradas modernas da memória.
Acompanhando essas escolas, e muitas vezes atreladas a elas, está aquilo que chamamos de Arte de memória. De Homero a Aristóteles, de Cícero a Santo Agostinho, passando, inclusive, por teóricos modernos como Frances A. Yates (cuja noção de lugares de
memória Pierre Nora toma de empréstimo), que apresenta um profundo trabalho histórico desse “movimento”, cujas técnicas de memorização são trabalhadas no intuito de fortalecer a lembrança e organizar o discurso (YATES, 1984), as chamadas Arte de memória (Ars
memoriae) surgem na antiguidade grega, com o poeta Simonide de Ceos, associadas à retórica e apresentam como objetivo maior, no que trata da Memória, garantir a disponibilidade material do texto para que seja pronunciado completamente de cor, mas não de forma literal.
Essa tradição, que seguiu entre os gregos e também entre os latinos, como aponta Weinrich (1994, p. 15), tomou forma entre os grandes mestres da retórica latina:
Quem foi, antes de tudo, ao mesmo tempo o mais ilustre dos clássicos nesse quesito e o menos conhecido, o autor anônimo de um livro de retórica endereçado a um certo Hérennius. Nesse “Auctor ad Herennium”, a idade média acreditava [...] ter encontrado o grande “Tullius”, ou seja, Cícero em pessoa. Esse, com efeito, tratou da memória do orador em seus livros De inventione e De oratore. O terceiro mestre da mnemotecnia antiga é Quintiliano, que fala detalhadamente desse objeto em sua grande obra Institutio Oratoria. Todas essas obras clássicas dão à Arte da memória um lugar na retórica, que segue à Inventio, à Dispositio e à Elocutio, e precede por outro lado a Actio, ou seja, a performance do discurso público.vi
Ainda entre os mestres da eloquência grega e latina, havia uma disputa entre duas fixações: aquela que chamavam de memoria verborum, ou seja, uma memória da palavra, e uma memoria rerum, centrada na argumentação8. Nesse embate, quase sempre davam preferência à segunda, pela qual punham destaque numa “memória das coisas”, cuja sustentação argumentativa era mais eficaz, em detrimento de uma memória pelas palavras, que se sustentava quase na repetição de textos.
Por meio de um estudo epistemológico da memória desde o Iluminismo, Weinrich (1994, p. 21) afirma que ela, a memória, passa a ser tomada “como o Antigo Regime dos intelectuais, a Bastilha do espírito conservador e tradicionalista: aqueles que pensam fazem uso de sua razão crítica e não de sua memória”vii. A centralidade no homem e na razão
encaminha uma espécie de culto à criação e, com isso, à novidade; por isso mesmo, nesse aspecto, provoca uma ruptura com o passado e com os processos de memorização, que impedem a emergência do novo pelo realce na repetição. A memória, fenômeno próprio da tradição, é aqui empecilho para a formação do espírito crítico. Estabelece-se, então, uma ruptura com o culto da memória formado desde a antiguidade grega até o princípio da modernidade. A partir do Iluminismo, portanto, ela perde lugar para a razão crítica.
A memória volta a ter força como discussão teórica nos trabalhos de Freud e, sobretudo, Bergson no campo filosófico, mas mais especificamente no âmbito da história e das ciências sociais, com Maurice Halbwachs, na primeira metade do século XX. Bergson, entre o final do século XIX e início do XX, promoveu estudos na tentativa de de-subjetivar a noção de memória, desconstruindo os limites enquanto atributo exclusivo da consciência humana (CASEY, 1987): ele “rejeitou não só qualquer noção de memória que tivesse como base apenas a consciência, mas também as teses estabelecidas no campo da psicologia que reduziam a memória a reações mecânicas do sistema nervoso” (SANTOS, 2003, p. 21). No movimento que procurava trazer o passado para o presente, Bergson reuniu espírito e matéria, consciência e corpo físico. Na tradição de seus trabalhos, porém com uma reflexão crítica, Halbwachs pôs luz nessa matéria, na materialidade da memória incorporada por Bergson, e a estabeleceu como os fatos sociais, daí sua teoria da memória coletiva.
8 Mesmo no que diz respeito a cada uma dessas “memórias”, segundo Weinrich (1994), há uma discussão mais profunda. Para Montaigne, por exemplo, a memoria rerum visava a linguagem, especialmente a organização do discurso e o encadeamento dos argumentos no texto; enquanto para Rousseau, as coisas são aquelas da realidade, da ação, da natureza.
Após estudar com Bergson, Halbwachs associou-se a um grupo de intelectuais que se organizava em torno do sociólogo francês Émile Durkheim. Tal como defendido por este último, Kalbwachs acreditou na anterioridade e na determinação das idéias sustentadas coletivamente sobre pensamentos e atitudes individuais. A memória foi pensada a partir dos laços sociais existentes entre indivíduos constituídos no presente (SANTOS, 2003, p. 21).
Já no final da década de 1970, a memória, principalmente na França, se torna, além de discussão teórica como conceito e noção, aspecto social, como ponto de debate da história nacional, com destaque para a ideia de dever de memória. São sobre esses aspectos que nos deteremos na seção seguinte, quando abordaremos o campo da história. E mesmo uma perspectiva foucautiana, a princípio filosófica, mas que na prática é também histórica, de análise dos enunciados, de análise dos discursos, aponta para a historicidade da produção discursiva, das práticas discursivas, e revela que a emergência de um enunciado, seu aparecimento e sua repetição inscrevem um domínio de memória. Voltaremos a essa discussão um pouco mais adiante quando tratarmos da relação entre história e memória, mas mais especificamente quando nos voltarmos aos aspectos próprios da memória discursiva. No entanto, é preciso destacar que Michel Foucault, de uma perspectiva filosófica, instaura um método de análise histórico importante para a compreensão dos saberes: “A Aqueologia do
saber (1969) marca uma ruptura [...] ao introduzir ao mesmo tempo as técnicas de uma disciplina e os conflitos sociais no exame de uma estrutura epistemológica, aquela da história (e não é por acaso)”viii (DE CERTEAU, [1974] 2011, p. 22). Seu trabalho filosófico, portanto,
abre espaço para a construção de um método de análise histórico, e, para nós, abre caminho para uma reflexão a respeito de uma análise de discursos. É, então, essa abordagem que se inscreve no campo da história – articulada fundamentalmente com os trabalhos de Michel Foucault – que está na base dos estudos discursivos sobre a memória, da qual trataremos na sequência e, também, mais adiante, ainda neste capítulo.