Sabendo que a síntese de melatonina tem um ritmo circadiano bem definido, o doseamento dos níveis nocturnos desta neurohormona foi utilizado como marcador do relógio biológico interno. Neste caso, e contrariamente a alguns trabalhos publicados que mostaram valores inferiores de melatonina em doentes com esquizofrenia, o nosso estudo não revelou diferenças estatisticamente significativas relativamente ao grupo de controlo (p=0,971). Ou seja, os doentes com esquizofrenia não apresentaram uma diminuição significativa da síntese nocturna de melatonina, em todos os 4 pontos de medição efectuados, face ao grupo de controlo. A média dos valores no grupo de controlo foi de 5,59 pg/ml (D.P. 5,59), enquanto no grupo foram de 4,77 pg/ml (D.P. 4,22).
Além deste interessante achado, o maior destaque deverá ser dado ao facto de os nossos resultados apontarem para que, nos doentes com esquizofrenia estudados, a melatonina endógena ter o efeito promotor do sono comprometido, comparativamente ao grupo de controlo. Com efeito, no grupo de controlo, a latência do sono (r = − 0, 488, p = 0,003), e o período total do sono (r = − 0, 384, p = 0,025) correlacionaram-se negativamente com os valores de melatonina ao passo que a eficiência do sono correlacionou-se positivamente com a melatonina (r= 0, 520, p = 0,002). Por outro lado, através da análise de regressão linear múltiplas, verificou-se que no grupo de controlo, valores mais elevados da latência do sono estão associados a menores valores de melatonina (R2=28,9%; p=0,037). Ou seja, a melatonina no grupo de controlo mostrou ter um efeito promotor do sono, o que corresponde à sua normal função fisiológica. Todavia, este efeito não se verificou no grupo de doentes, já que não se observou qualquer correlação com significado estatístico com estes parâmetros do sono.
O efeito promotor do sono da melatonina encontra-se associado à diminuição da temperatura corporal induzida por esta hormona (Hughes e Badia, 1997). Um estudo avaliando a variação circadiana da temperatura corporal, reportou um rimto dessincronizado na esquizofrenia (Madjirova et al., 1995). Este aspecto poderá ser um elemento importante para explicar as difernças encontradas na diminuição do efeito promotor do sono pela melatonina nos doentes com esquizofrenia. A
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temperatura corporal não foi avaliada, sendo, por conseguinte, uma limitação do nosso estudo.
Os antipsicóticos podem modificar, para além de outros, o sistema noradrenérgico que se mostra muito importante na regulação da secreção da hipófise (Cowen et al., 1985), podendo por esse motivo interferir com os níveis de melatonina. Seria importante que futuramente se pudesse avaliar o impacto dos antipsicóticos neste processo fisiológico.
Os receptores de melatonina MT1 e MT2 estão alterados na doença de Alzheimer, com consequência fisiopatológicas e clínicas graves (Brunner et al., 2006). Algumas das alterações do sono detetadas na doença de Alzheimer também são observadas na esquizofrenia (por exemplo, alterações do ciclo sono-vigília tipo irregular, insonia, etc.). Por conseguinte, a presença de uma anomalia ao nível dos receptores MT1 (Mel1a) poderá ser uma explicação para a redução do efeito promotor do sono da melatonina na esquizofrenia, considerando que este receptor é necessário para se obtenha, através da melatonina, o efeito inibitório do estado de vigília no sistema nervoso central (Liu et al., 1997). Este aspecto poderá ter implicações negativas na qualidade do sono, originando perturbações no ritmo circadiano sono-vigília. Em conjunto, todas estas alterações do sono poderão ter eventualmente um impacto negativo na qualidade de vida destes doentes, na capacidade para esteblecerem relações sociais e cumprirem horários laborais.
Em dois estudos anteriores com doentes com esquizofrenia (Suresh Kumar et
al., 2007; Shamir et al., 2000), a melatonina exógena (administrada através de comprimidos pouco antes da hora de deitar) revelou alguns beneficios, ao nível da eficiência e da qualidade do sono. Curiosamente, não mostrou eficácia na redução da latência do sono, comprovando que, nestes casos, a melatonina não mostra possuir um efeito hipnótico. Por essa razão, é questionável neste tipo de doentes a utilização de melatonina exógena como forma de tratamento da insonia – situação
que estes doentes apresentam com frequência.
Em suma, contrariamente ao que outros estudos anteriores faziam supor, os resultados da nossa investigação não apontam para a existência de uma diminuição da síntese da melatonina na esquizofrenia, mas antes para uma possível alteração do efeito fisiológico promotor do sono desta substância. Este aspecto estará provavelmente relacionado com alterações nos locais de actuação da melatonina (receptores MT1 e MT2), justificando assim que sejam realizados mais estudos que avaliem esta hipótese.
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6. CONCLUSÕES
No presente trabalho pretendeu-se estudar e caracterizar os padrões do ciclo sono-vigília na esquizofrenia. Para o efeito, foram selecionados um total de 68 participantes e divididos em dois grupos: um grupo de controlo, constituído por indivíduos saudáveis (N=34), e um grupo de doentes com esquizofrenia (N=34), segundo o instrumento de classificação DSM IV TR, estabilizados clinicamente há pelo menos um mês e seguidos em ambulatório. As duas amostras não apresentavam diferenças significativas em termos de sexo e idade.
Para análise e comparação das duas amostras, foram usados os seguintes instrumentos de avaliação: a escala PANNS para avaliar a psicopatologia, a escala Pittsburgh para avaliar a qualidade do sono, a escala WHOQOL-BREF para avaliar a qualidade de vida, a escala escala Morningness-eveningness para definir os hábitos do sono, a actigrafia (consecutiva por sete dias) para avaliar os ciclos sono-vigília e o doseamento de melatonina na saliva para avaliar um marcador biológico interno.
Recorreu-se ao programa informático SPSS®, versão 18, para as análises estatísticas. Neste caso, a associação de variáveis categóricas foi testada através do teste do Qui-quadrado ou do teste exacto de Fisher. As comparações relativamente a variáveis quantitativas foram conduzidas através do teste T para amostras independentes ou do teste não paramétrico de Mann-Whitney, quando o pressuposto da normalidade não foi verificado (teste de Kolmogorov-Smirnov).
A relação entre variáveis quantitativas foi testada através do coeficiente de correlação de Pearson (r) ou do coeficiente de correlação de Spearman (rs) quando pelo menos uma das variáveis não verificava pressuposto da normalidade. Foram ainda efectuadas análises de regressão linear múltiplas, apresentando-se os coeficientes de determinação (R2), os de regressão múltipla (B) e calculado o valor p do modelo. Todos os testes estatísticos foram conduzidos para duas caudas considerando-se significância estatística quando p<0,05.
Perante os dados já apresentados, iremos optar por enquadrar as conclusões deste trabalho procurando responder às hipóteses inicialmente colocadas:
1) Existem alterações dos padrões do ciclo sono-vigília no grupo de doentes