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O padrão irregular do ciclo sono-vigília (PICSV) é caracterizado por uma ausência de um padrão regular circadiano sono-vigília. Neste caso observam-se episódios variáveis e temporários de padrões de sono e despertar desorganizados. Ou seja, o sono e a vigília distribuem-se de forma aleatória durante as 24 horas, existindo habitualmente cerca de três períodos de sono que duram 1-4 horas intercalados por períodos de vigília. Apesar disso, o tempo total do sono é normal para a idade do indivíduo (AASM, 2005).

A manifestação clínica pode ser feita através da dificuldade em iniciar ou manter o sono durante a noite, e/ou frequentes sestas diurnas. Neste caso podem dar uma maior ênfase à insónia, já que as sestas diurnas acabam por ser desvalorizadas pelos próprios, devido à necessidade de recuperar do sono não dormido durante a noite (AASM, 2005).

Observa-se nestas situações uma marcada variação dos padrões do ciclo sono-vigília. Num certo sentido acaba por ser uma forma de reminiscência do sono da infância com a diferença dos períodos de sono serem substancialmente mais curtos. Estes indivíduos apresentam alterações cognitivas e sonolência nos intervalos de vigília.

Com a idade surgem alterações do ritmo circadiano de alguns marcadores biológicos (por exemplo, da amplitude da temperatura corporal ou da síntese de cortisol) o que contribui provavelmente para um aumento de casos detectados em idosos (Van Cauter et al., 1996; Vitiello et al., 1986). Além disso, a diminuição à exposição solar associada a uma redução da actividade física e a uma vida social estruturada (zeitgebers) são aspectos que podem também contribuir para esta

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situação clínica (Hofman, 2000; Swaab et al., 1996).

Alterações estruturais no hipotálamo e no relógio biológico circadiano interno foram implicadas na etiologia do padrão irregular do ciclo sono-vigília observado em doentes com demência de Alzheimer (Hoogendijk et al., 1996; Zhou

et al., 1995). A diminuição à exposição solar e a presença de várias anomalias

visuais relacionadas com o envelhecimento (por exemplo, as cataratas) podem também contribuir para uma redução do efeito sincronizador luminoso do ciclo sono-vigília, contribuindo para o aparecimento de um padrão irregular do sono (Van Someren et al., 1997).

Estima-se que a prevalência desta perturbação do sono na população seja rara (Yamadera et al., 1996). O PICSV é provavelmente mais frequente em doentes com défices congénitos de desenvolvimento e disfunções cerebrais degenerativas (AASM, 2005). Tal como já foi mencionado, os ritmos biológicos endógenos (endócrinos e temperatura) podem surgir alterados reduzindo as suas amplitudes normais circadianas. De resto, verifica-se uma associação do padrão irregular do ciclo sono-vigília em crianças com atraso mental, doentes com demências, traumatismos cranianos, e doentes idosos institucionalizados (Witting W et al., 1990; Dowling et al., 2005; Baumann et al., 2007; Cotton e Richdale, 2006; Honomichl et al., 2002).

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2. OBJECTIVOS

Tal como já foi exposto anteriormente, os dados disponíveis na literatura demonstram que os doentes com esquizofrenia têm perturbações do sono. Neste caso, as alterações que se econtram com maior frequência, nos estudos objectivos com recurso à polissonografia, são: redução do tempo total do sono, diminuição do sono lento profundo, diminuição da latência de REM e da eficiência do sono. Por outro lado, alguns estudos publicados apontam para que as alterações do sono na esquizofrenia possam também englobar as perturbações do ritmo circadiano do sono-vigília. Contudo, estes estudos mostraram-se inconclusivos, devido a diversas limitações metodológicas: amostras muito pequenas, ausência de grupo de controlo, período de avaliação muito reduzido e, por conseguinte, insuficiente para se efectuar um adequado diagnóstico de alteração do ritmo circadiano do sono- vigília, etc.

Através deste trabalho pretendeu-se estudar e caracterizar os padrões do ciclo sono-vigília na esquizofrenia, complementado a escassa literatura publicada sobre este assunto, dando um contributo para preencher esta lacuna do conhecimento científico. Para o efeito, interessou-nos, investigar se os doentes com esquizofrenia têm alterações do ciclo sono-vigília e de outros parâmetros do sono, atendendo que este aspecto pode eventualmente condicionar a integração socioprofissional e consequentemente o prognóstico da doença.

Pretendeu-se também comparar vários parâmetros do sono dos doentes com esquizofrenia com a população normal. Sabendo de antemão a importância da melatonina enquanto marcador biológico do relógio interno e da existência de trabalhos publicados, anteriormente referenciados, que mostraram alterações da libertação nocturna desta neurohormona na esquizofrenia, foi realizada uma comparação entre os grupos ao nível da síntese nocturna da melatonina. Deste modo, procurou-se verificar a existência de uma provável relação causa-efeito entre a libertação nocturna da melatonina e os ritmos circadiano do sono da população estudada.

Simultaneamente, procurámos investigar a existência de uma concordância entre os dados relativos ao sono reportados pelos doentes, (através das escalas de Pittsburgh, Morningness-Eveningness Questionnaire e questionário) e os dados obtidos pela actigrafia. Neste âmbito, efectuou-se ainda a avaliação de vários parâmetros quantitativos da actividade motora diurna e nocturna.

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Por último, os resultados deste trabalho, para além de nos poderem dar indicações sobre a existência de eventuais alterações do ritmo circadiano sono- vigília nos doentes com esquizofrenia servirão ainda para averiguar uma possível correlação entre os doseamentos da melatonina, as variáveis do sono, o ritmo circadiano sono-vigília, a actividade motora, a qualidade do sono, a qualidade de vida e a psicopatologia.