Somente na Idade Moderna, com o advento do mercantilismo e do capitalismo, é que o trabalho de fato adquire características monetárias. O trabalho torna-se parcelado, mecanizado e passa a ser considerado como a principal fonte de riqueza e de progresso. Para Wood (1992), o início do ciclo de produção capitalista caracterizou-se fundamentalmente pela separação do trabalhador dos meios de produção. Como consequência, ocorre a descaracterização do trabalhador enquanto sujeito, pois este não se reconhece mais no seu saber fazer. O trabalhador é expropriado pela organização e pelo Capital, cujos detentores são representados pelos comerciantes e industriais que haviam acumulado riquezas (ARAÚJO; SACHUK, 2007).
Na sociedade capitalista, o processo de trabalho inicia-se com um contrato que estabelece as condições de compra e venda da força de trabalho, em suma, representado pelos direitos e deveres do empregador (que possui um Capital e para ampliá-lo contrata a mão de obra assalariada) e do empregado (que busca vender a sua a força de trabalho como condição social). (MERLO; LÁPIS, 2007; KINDI, 2013).
Com o surgimento das fábricas, os sistemas de produção alteram-se de forma radical (WOOD, 1992). Em meados do século XVIII ocorre na Inglaterra a Primeira Revolução
Industrial, que intensifica o emprego da mão-de-obra assalariada, frequentemente exposta ao trabalho árduo e insalubre da indústria têxtil. O controle sobre o trabalhador neste período era autoritário e a jornada de trabalho era intensa, variando entre 12 a 15 horas diárias. Outro fenômeno relevante neste contexto fabril é a divisão das tarefas, levando à especialização do trabalho e, que distancia ainda mais o trabalhador do conhecimento e do domínio da produção (DEJOURS, 1992; MERLO; LÁPIS, 2007).
Morgan (1996) denominou este modelo de organização pautado pelo rígido controle sobre a produção (e sobre os trabalhadores) como modelo mecanicista, na medida em que a sua estrutura organizacional assemelha-se a uma máquina. Para Morgan (2005), a concepção taylorista de homem econômico e o conceito weberiano de burocrata sem rosto, ampliam os princípios da metáfora mecanicista para definir a visão de natureza humana que melhor se adequa à máquina organizacional. Baseado em Weber, Morgan (2005) aponta que a organização burocrática desenvolve mais perfeitamente este modo de organização, pois a racionaliza, anulando sentimentos como o amor, o ódio ou qualquer outro elemento emocional, pessoal ou irracional.
Com a formação dos centros industriais ocorre uma alteração das estruturas sociais europeias, de modo que os cidadãos migram para as cidades em busca de oportunidades de trabalho e uma melhor condição de vida. De 1800 para 1900 a população da Europa duplica7. Todavia, elementos culturais como a tradição e a religião constituem resistência a este novo fenômeno que se apresenta: a industrialização. Desta forma, para “superar” tal resistência, os defensores da industrialização, antecessores à Administração Científica do Trabalho, apoiam-se na racionalização, como meio de superar este contexto.
Racionalização do trabalho e dos problemas sociais. Instaura-se a ideia de que a própria sociedade pode ser organizada racionalmente. Assim constitui-se o verdadeiro substrato para a consolidação desta nova ordem social: o ambiente racionalizador, que mais tarde se ramifica para
7Segundo Durkheim (1999), o crescimento e adensamento das sociedades requerem uma divisão maior do trabalho.
Pautado em uma justificativa evolucionista, Durkheim (1999) revela que, tal contexto promoveria um aumento da competição. Numa mesma região, ocupações diferentes podem coexistir sem a necessidade de se prejudicar de maneira recíproca, na medida em que buscam objetivos distintos.
a esfera do labor8 (RAMOS, 2008). Weber nos revela que o ethos protestante (puritano) ofereceu oposição radical ao ethos medieval, de modo que subsidia para o europeu a fase pré-capitalista e as racionalizações justificadoras de uma conduta anti-tradicionalista. Mediado pelo calvinismo, que postula a atividade do trabalho pelo homem como a vontade e a glória de Deus, impulsiona assim esta conduta frente às tradições (RAMOS, 2006).
Ramos (2008) nos esclarece esta nova tendência que remodela a sociedade no século XIX quando recorre a Charles Fourier (1772-1837), considerado um dos maiores influentes na consolidação do ambiente racionalizador. Segundo as reflexões de Fourier, a estrutura social na época era rígida ou arcaica, justificando assim (mediante a emergência de possibilidades tecnológicas), a necessidade de reorganizá-la de modo a ajustá-la à natureza fundamental do homem. Neste contexto o argumento presente era justamente o prazer do homem no trabalho, pois o trabalhador na medida em que alinhasse as suas habilidades e vontades a um determinado trabalho, conseguiria então a harmonia. Com um trabalho atrativo, a produção aumentaria, contexto extremamente relevante para os interesses do Capital.
Em virtude de alguns elementos (propícios à racionalização do trabalho), como a religião, a formação histórica, as peculiaridades geográficas e econômicas, tornaram os Estados Unidos como o local “ideal” para a consolidação de um ambiente racionalizador, estimulando assim, o desenvolvimento e aplicação dos sistemas Taylor e Ford em tal nação (RAMOS, 2008).
Pela ótica weberiana, a ordem racionalista conceberia uma gaiola de ferro que aprisionaria a humanidade. Neste contexto, a burocracia traduz-se como a manifestação organizacional desse espírito racional, pois seria um meio eficiente e poderoso para controlar homens e mulheres (onde se inserem os trabalhadores) que, uma vez estabelecida, seria irreversível o momentum da burocratização (DIMMAGIO; POWELL, 2005; TRAGTEMBERG, 1982).
O modelo burocrático é adotado pelas empresas capitalistas como mecanismo de competição no mercado. Este mecanismo, entretanto, levaria a uma homogeneização entre as
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No início do século XIX é notável a articulação de poderes mediadores de interesses do Capital junto ao Estado europeu, conforme nos revela Guerreiro Ramos: Saint-Simon (1760-1825), em obra de 1819, intitulada
L’Organisateur – propõe um Governo constituído de três câmaras: a da Invenção, a do Exame e uma terceira, dita
câmara Executiva, constituída de líderes industriais capitalistas e banqueiros. Em sua obra de 1821, (Lê Système
Industriel), propõe que se cometam as funções de governo a um grupo de cientistas que conduzam os negócios da
empresas, atualmente conhecida como isomorfismo (DIMMAGIO; POWELL, 2005). O isomorfismo, segundo DiMaggio et al. (2005) pode seguir três modelos:
• Coercitivo: resulta de pressões ao mesmo tempo formais e informais exercidas sobre as organizações por outras organizações, das quais dependem e por expectativas culturais da sociedade em que as organizações atuam. Um exemplo contemporâneo de tal modelo seria a “imposição” do Estado às Instituições Federais de Ensino Superior na destinação de vagas exclusivas pelo regime de cota;
• Mimético: em seu sentido literal, copiar outras organizações de seu campo. Ao invés da inovação consciente, este processo baseia-se no espelhamento de organizações exitosas. Um exemplo deste modelo pode ser representado pela recuperação realizada pelo governo japonês no final do século XIX baseado em protótipos ocidentais. Anos depois, as organizações ocidentais adotam os modelos japoneses de qualidade;
• Normativo: advém principalmente da profissionalização. O ambiente acadêmico ilustra este tipo de isomorfismo, na medida em que os profissionais formados por tais instituições costumam ter algumas similaridades como a maneira de se vestir, o vocabulário, o tipo e posição de ocupação, isto é, estes mecanismos criam um
pool de indivíduos quase que intercambiáveis entre si que ocupam posições
semelhantes em uma série de organizações.
Alguns princípios da Burocracia interferem na natureza do trabalho como a notória hierarquização das posições na organização, a orientação por meio da normatização e da regulamentação, a remuneração como recompensa, a padronização e impessoalidade na condução das tarefas. No âmbito da Administração Pública, destacam-se elementos como a meritocracia e a separação entre o público e o privado. Metaforicamente, o modelo burocrático de organização assemelha-se a um modelo mecanicista, verticalizado e rígido, no qual o trabalhador assemelha- se a uma engrenagem de uma máquina (MORGAN, 1996).
Nosso esforço também contempla a elucidação de que o contexto contemporâneo de trabalho, tão debatido por diferentes áreas, advém de um contexto social maior, não se limitando em si, apenas ao seu escopo. Assim, apontamos para a presença que, mais que uma organização
racionalizadora do trabalho em si, existiu também um ambiente racionalizador anterior. Seguiremos com a Administração Científica do Trabalho (ACT) e com a emergência de teorias relacionadas ao elemento humano nas organizações, para depois prosseguir com a questão da saúde no trabalho.
2.1.2 Administração Científica do Trabalho
Frederick Winslow Taylor (1856-1915) foi um engenheiro americano que desenvolveu o estudo dos movimentos na Midvale Steel Company, pela qual teve uma passagem exitosa (TAYLOR, 1990). Em 1895, foi realizada a primeira apresentação de trabalhos relativos aos seus estudos (TAYLOR, 1990).
Trocou de emprego em 1896, quando assumiu na Bethlem Steel Works. Três anos depois, Taylor conseguia realizar um trabalho que exigia a participação de 400 a 600 homens, com apenas 140. Em 1900, começou a divulgar ao país os êxitos que conseguira, revelando que todos os administradores poderiam conseguir o mesmo, desde que seguissem os princípios científicos, por ele criado (TAYLOR, 1990).
Taylor foi o pioneiro da conhecida ACT cujos princípios básicos podem ser condensados como se segue (MORGAN, 1996):
1- Deve-se transferir toda a responsabilidade da organização do trabalho do trabalhador para o gerente; os gerentes são responsáveis pelo planejamento e organização do trabalho, enquanto aos trabalhadores devem implementar isso na prática. Segundo Taylor, há pessoas pagas para pensar e pessoas pagas para executar.
2- Utilizar métodos científicos na determinação da forma mais eficiente de se fazer o trabalho; a forma pela qual o trabalho deve ser feito deve ser especificada com precisão.
3- Selecionar o melhor indivíduo para determinado cargo. Para Taylor, os indivíduos eram diferentes, justificando assim, a distinção na atribuição de tarefas. Para que o
indivíduo participasse em tarefas mais pesadas deveria “ser tão estúpido e fleumático
que mais se assemelhe em sua constituição mental a um boi” (TAYLOR, 1990). Este
era “o homem do tipo bovino – espécime difícil de encontrar e, assim, muito
valorizado” (TAYLOR, 1990).
4- Treinar o trabalhador para que este possa executar o trabalho de maneira eficiente. 5- Fiscalizar o desempenho do trabalhador, de modo a assegurar que os procedimentos
apropriados de trabalho sejam cumpridos e que os resultados adequados sejam atingidos (MORGAN, 1996).
A ACT, segundo Merlo et al. (2007), surgiu no período pós-Segunda Revolução Industrial como uma nova cultura no mundo do labor, quando o conhecimento científico tornou-se relevante, principalmente para as indústrias elétrica, metalúrgica e química, correspondendo às necessidades de uma nova fase do capitalismo internacional. Nesta fase do capitalismo consolida- se a radical separação entre o saber e o fazer; entre a concepção e a execução; entre o trabalho manual, braçal ou operacional (executado pelos operários) e o trabalho mental ou intelectual (elaborado pelos gerentes) (MERLO; LÁPIS, 2007).
Este modelo de organização não permite uma mobilização do trabalhador entre o espaço do trabalho prescrito e do trabalho real. As condutas são heterodeterminadas e normatizadas. Segundo Merlo et al. (2007), na administração taylorista, a principal fonte de agressão à saúde do trabalhador é a própria organização do trabalho, que não prevê a iniciativa do trabalhador. Uma das críticas a este modelo de administração é de que ele impede a conquista da identidade no trabalho, a qual ocorre, precisamente, neste hiato entre o trabalho prescrito e o trabalho real.
A ACT também possuía como característica, a modelagem da subjetividade do trabalhador por meio da “recompensa” econômica ou financeira oferecida ao trabalhador, como moeda de troca pelo seu desempenho (MERLO; LÁPIS, 2007). Estímulos econômicos ao desempenho individual e prêmios de produção reorientaram o desejo do trabalhador. Para Taylor, esta dinâmica seria favorável tanto ao trabalhador, que poderia aumentar a sua renda; como ao proprietário do negócio, que poderia otimizar sua produção e aumentar o seu lucro. Neste cenário se sobressai, portanto, o modelo do homo economicus (TAYLOR, 1990; MERLO; LÁPIS, 2007).
Este tipo de administração tem sido muito influente. Os aumentos de produtividade foram frequentes, mas a um alto custo humano, reduzindo muitos trabalhadores a autômatos (MORGAN, 1996). Embora Taylor seja um dos autores mais criticados de todos os teóricos organizacionais, comprovou também ser um dos mais influentes, já que os princípios da ACT têm influenciado o modo de trabalhar desde a primeira metade do século XX, predominantes, em muitas situações, até os dias atuais (MORGAN, 1996).
Os princípios deste modelo de administração foram aplicados de maneira exitosa pelo empresário Henri Ford, que revolucionou o mundo do labor com a introdução da linha de montagem. Esta conduta representa um grande avanço no controle do trabalho. O aumento dos salários adotado por Ford foi persuasivo perante os funcionários, acarretando inclusive, na mudança dos padrões de consumo, fortalecendo assim o modelo capitalista (GOMEZ, 1987).
Morgan (1996) revela uma interessante faceta de Taylor, que talvez nos ajude na compreensão de suas condutas e estilo. Segundo o autor, Taylor era um indivíduo que, desde a infância, talvez influenciado pelo seu contexto de criação, apresentava um transtorno obsessivo- compulsivo pelo controle e pelo domínio da sua vida, em suas rotinas diárias mais diversas. Assim, ele transfere este acometimento do nível pessoal para o nível profissional, de modo que, o seu estilo de administração do ponto de vista psicanalítico, representaria o produto de sua personalidade perturbada e neurótica. Morgan (1996) nos convida a compreender melhor esta questão por meio da metáfora da prisão psíquica, onde simboliza as condutas individuais e organizacionais neste plano de racionalidade versus irracionalidade.
Durante anos o enfoque da administração científica tem sido ampliado e redefinido. O taylorismo teve tamanho poder que mais do que o escopo do trabalho, conseguiu mecanizar a vida das pessoas. Morgan (1996) aponta que os princípios ressaltados pelo taylorismo foram também, parte de uma tendência social mais ampla que envolve a mecanização da vida de forma geral.
Com a ACT o trabalho torna-se monótono, repetitivo e sem espaço para a criatividade, acarretando no surgimento de mecanismos de defesa específicos. Dentre estes mecanismos, destaca-se a autoaceleração que, quando praticada pelo trabalhador, faz com que este cesse o pensamento e a consciência do desconforto. Contudo, este trabalho acelerado em longo prazo
pode acarretar em complicações para a saúde do sujeito (CARRASQUEIRA; BARBARIN, 2010).
Dejours (1992) considera que é preciso assinalar as consequências que o sistema Taylor gera na saúde do corpo e da mente. Como uma nova tecnologia de submissão, de disciplina do corpo, este modelo de organização gera exigências fisiológicas até então desconhecidas, especialmente as relacionadas ao tempo e ritmo de trabalho. O esgotamento físico não abarca mais apenas os trabalhadores braçais, mas o conjunto dos operários da produção em massa, nos trabalhadores dos “escritórios-fabrica”, entre tantas outras ocupações (DEJOURS, 1992; MORGAN, 1996). O corpo torna-se assim, indefeso, fragilizado, explorado pela privação de seu protetor natural, representado pelo aparelho mental (DEJOURS, 1992)
A ACT, torna-se uma importante referência das “ciências da gestão”. O trabalhador é objeto de uma observação sistemática como objetos para possíveis conclusões operatórias. Como ciência do capitalismo, a gestão atende aos interesses produtivistas e à satisfação das “necessidades” do consumidor. O humano, assim como os materiais, são simplesmente “recursos” da empresa. O paradigma utilitarista ultrapassa a esfera das organizações e transforma a sociedade em máquina de produção e o homem em agente a serviço da produção. A economia se torna finalidade exclusiva da sociedade, participando da transformação do humano em “recurso” (GAULEJAC, 2007).